terça-feira, fevereiro 26, 2008

Gelo, Porra e uma Iguaria Bizarra

Sobrancelha arqueada e testa franzida. A fumaça entrava maliciosamente, cheia de curvas, pelas narinas de Alfredo. "Deve haver um lugar pra mim nessa cidade", pensava o homem sinistro que aparentava - pelas rugas profundas e olheiras escuras - bem mais que seus vinte e sete anos. Os dentes não eram radiantes como na infância e ele pensava nisso enquanto esfregava os dentes da frente com o dedo indicador. Olhou para o chão e alcançou o maço caído, dedilhou o interior da embalagem e encontrou um cigarro. Engatilhou o coitado na boca e o acendeu rapidamente. A janela de vidro estava fechada, e ficou assim por alguns instantes, enquanto Alfredo repousava sua testa no vidro e a fumaça se elevava, encobrindo a sua vista com uma espessa e irritante neblina, afinal, a vista estava perfeita aquela noite.

- São Paulo não costuma ser tão bela nesse horário, aliás, que céu! Dá pra ver estrelas! - falou impressionado, enquanto afastava a névoa com as mãos.

Soltou um pouco de fumaça pelo boca e nariz ao mesmo tempo e deu uma cusparada. Olhou o trajeto do cuspe em queda livre até que o mesmo se partiu em dois, se chocando contra o telhado de uma casa à frente do prédio. Fumou o cigarro até queimar o dedo, até o gosto do fumo ficar insuportável. Lá na rua, um carro não respeitou o cruzamento e quase carregou uma moto pela avenida.

- Por Cristo, que filho de uma puta! - murmurou enquanto lançava o filtro pela janela.

Foi até o banheiro e lá na banheira havia água e gelo, muito gelo envolvendo garrafas de vodka e de cerveja. Coçou a cabeça e fitou por alguns segundos - olho fixo - a tampa vermelha de uma garrafa de Smirnoff. Até que sacudiu a cabeça num despertar repentino e se curvou para retirar uma garrafa verde de Heineken. Apoiou a parte de baixo da tampa na quina da pia de granito e bateu com força no topo da garrafa, fazendo a bela tampa soltar da garrafa, como uma magia. E a magia acabou quando a graciosa tampa desfaleceu ao lado da privada. Grande destino, tampa. Caminhou como uma marcha para a morte, olhando para os detalhes de infiltração na parede do corredor. Apagou a luz.

- Merda de infiltração - sussurou - um dia dou um jeito nessa porra.

Deu um gole generoso em sua cerveja meio-amarga e seguiu até a sala. Olhou para os rasgos do sofá e sentou no infeliz móvel de couro fajuto. Cruzou as pernas e olhou para o teto.

- Esse sofá - falou com desânimo incontestável - um dia compro um de couro legítimo.

Soltou um peido e com certa dificuldade, ergueu-se e rumou para a janela. No meio do caminho, olhou para o toca-discos. Voltou-se para o aparelho de som e abriu o protetor de acrílico. Levantou o braço do aparelho e aproximou o seu rosto da agulha e ficou alguns segundos olhando para cada detalhe.

- Seja lá quem diabos inventou essa porra, ele é um gênio.

Devolveu cuidadosamente o braço ao suporte e abriu sua caixa de discos. Passou os dedos por várias capas. Fechou os olhos e continuou o passar de dedos.

- Pronto! Este aqui. Vejamos...

Era Highway 61 Revisited, do Bob Dylan.

- Bob, essas sua camisa é um sucesso... quem será esse cara atrás dele, com uma câmera fotográfica nas mãos? - disse Alfredo passando a mão com carinho pela capa de papelão do LP.

Cuidadosamente tirou o vinil do plástico de proteção e caprichosamente o instalou no prato giratório. Levantou o braço do aparelho e o disco rodou, como um pião nas brincadeiras de sua infância amarga. Suavemente, despejou a agulha sobre o disco e o ruído inicial, fetiche de qualquer apreciador de um bom som, serpenteou pelo ar, entrando pelos seus ouvidos, fazendo-o sorrir timidamente. A harmonia perfeita de 'Like a Rolling Stone' flutuava em sua introdução magistral, até que Alfredo sentou no chão e ensaiou um choro.

- Pai...

Levantou-se e ergueu o braço até agarrar um maço novo de Lucky Strikes. Violou o lacre e cheirou o conjunto de cigarros novos. Cheiro de chá fresco. Retirou um Lucky e com classe o colocou na boca, fazendo-o girar de uma extremidade à outra. Acionou o isqueiro e baforou uma coluna de fumaça. A Heineken estava acabando. Enquanto Dylan cantava, ele voltava ao banheiro ou melhor, à banheira.

How does it feel
To be on your own
With no direction home
Like a complete unknown
Like a rolling stone?


- Pode crer, Dylan! Sozinho, man, sozinho! - gritou erguendo e cerrando o punho direito.

Abaixou as calças e mijou olhando pra trás, mirando as garrafas. Selecionou a Smirnoff e desrosqueando a tampa, sentiu seu pau ficar duro. Olhou para ele e acariciou o membro por alguns segundos. Começou uma punheta lenta, jeitosa, enquanto dava goles na vodka gelada. Sentou-se no chão do banheiro e começou a pensar na ex-cunhada.

- Por que não comi aquela gostosa?!

E ficou lentamente segurando seu pau, num vai-e-vem sensual e precavido. Queria prolongar o prazer, nada de punheta precipitada de adolescente. Fechou os olhos e vislumbrou sua ex-cunhada Gisele, de quatro, com aquele rabo escultural em sua cara, oferecido como oferenda valorosa, pronto pra ser penetrado, centímetro por centímetro, cada um dos dezessete centímetros de seu pau dentro do cu apertado dela.

- Na praia, quando eu a flagrei pelada no quarto, enquanto se trocava... puta merda! Ela nem reclamou, nem gritou... Deu uma risada e eu, cabaço, pedi desculpas de pau duro! BURRO! - gritou Alfredo, aumentando a intensidade dos movimentos da masturbação.

Acalmou os nervos com mais dois goles da vodka e novamente estava aproveitando cada pensamento, cada fantasia com a Gisele, a ex-cunhada gostosa. Gotas de suor deslizavam sem cessar de sua cabeça e em poucos minutos seu peito exibia manchas vermelhas, enquanto a cabeça do pau estava lambuzada pelo líquido seminal pré-ejaculação. A densidade dos gemidos se alternavam com o baile das formas que a fumaça do cigarro projetava. Ele não aguentava mais. Levantou-se e num urro de alívio, gozou com abundância poucas vezes vista. Gozou dentro da banheira de gelo.

Após limpar o pau, ele estava completamente relaxado e alegre pela bebida. Abriu mais uma cerveja e Dylan permanecia na sala, com sua voz inconfundível.

Well, I wanna be your lover, baby
I don't wanna be your boss
Don't say I never warned you
When your train gets lost


Ao ouvir a música, olhou para a foto de sua ex-namorada, que também é irmã da ex-cunhada gostosa. Agarrou a fotografia e apertou-a com desespero. Lágrimas rolavam pelo seu rosto e ao limpá-las com raiva, lançou a foto no chão.

- Eu tinha tudo, sua filha de uma puta! Você era tudo pra mim! Maldita!

Cuspiu na foto amassada e correu até a cozinha com seu pau mole balançando. Abriu a geladeira e a fechou. Velha mania dos tempos de fome, quando de dez em dez minutos, abria a geladeira na esperança de que alguém com bondade suficiente tivesse deixado algum alimento. Era sempre a mesma ilusão. E Alfredo lembrou dessa época. Voltou para a sala e sentou sua bunda desnuda no chão frio e olhou para um quadro, pendurado no centro da sala. Um barco velho e um pescador o empurrando. Uma paisagem incrível ao fundo.

- Carlinhos, meu irmão...

Pegou o quadro e o abraçou. Sentou-se de novo, e como um pai acolhe o filho, acolheu o quadro e o acariciou. De repente, lançou o quadro na parede, fazendo o mesmo se despedaçar em vários pedaços. Viu que havia silêncio na casa. O lado A havia terminado. Virou o disco com cuidado e ouviu a voz de Dylan regredir com seu descaso e inquestionável brilho. Com os olhos marejados, perambulou bêbado até o quarto e encontrou Mariana nua na cama. Ela havia bebido demais, mas se recuperava e recobrava a consciência.

- Fredo, que porra é essa? Tá chorando por quê?
- Me abraça, babe. Só me abraça!
- Mas...

Mariana era uma drogada, sofrida como o Alfredo. Aparenta uma idade bem superior, mas mantinha uma sensualidade honesta e sim, era bem atraente, embora seu braço fosse marcado por manchas roxas, bem distribuídas. Estava bebendo junto ao amigo, mas apagou em meio à gargalhadas.

Alfredo pulou na cama e se encolheu, puxando os braços da amiga para si. Mariana estava confusa e enquanto mirava a nuca do triste companheiro, cedeu à pressão e o envolveu em seus braços.

- Por que está chorando?

Alfredo não respondeu. Apenas se aconchegou. Enquanto se aconchegava, Mariana esqueceu do estado sofrível do amigo, desejando secretamente o seu corpo.

- Fredo, não faça nada do que vá se arrepender...
- Fazer o quê?
- Você sabe...
- Eu não sei de nada, Mari.

Enquanto Mariana desfalecia em constrangimento, seu amigo permanecia encolhido, como um animal acuado, fechado e decidido a permanecer daquele jeito.

- O que você tem, Fredo?
- Dá pra você me abraçar, porra?
- Tudo bem, mas tá muito estranho.

Mariana sentia sua calcinha umedecer. Foram raras as vezes que teve alguma experiência sexual com o amigo. Um sexo oral rápido, mas sempre embriagados. Nada que pudesse lembrar direito. Agora ela estava num pós-porre consciente, poderia conseguir algo.

- O que você está fazendo, Mari?
- Relaxa, Fredo...

Mari levou sua mão até o pau do amigo e começou a masturbá-lo. Alfredo arregalou os olhos, mas logo voltou ao seu ritual soturno de pranto. Mas enquanto suas lágrimas desciam, seu pau subia, de forma estranha. Ela saiu de trás e se postou à frente da triste figura do parceiro até encaixar sua boceta no membro rígido e roxo. Alfredo chorava, mas logo estava executando o vai-e-vem como se fosse uma trepada normal. Gozou dentro dela. Não tanto como na banheira.

Bob Dylan estava firme e forte, como um trovador de interior, cantando os versos de 'Desolation Row'. A melancolia estava no ar e Alfredo lentamente retirava seu pau das entranhas meladas de sua amiga.

- Gostou, Fredo?
- Vá se foder.
- Como assim?
- Já conseguiu o que queria, certo?
- Você é louco...

Alfredo se levantou com porra escorrendo pela extensão de seu pau, descendo até ao saco, agarrando-se nos pêlos escuros. Adentrou o banheiro e abriu outra garrafa verde de cerveja. Deitou sem cerimônias na banheira, em meio aos cubos de gelo e algumas garrafinhas que sobraram. Tremeu muito e arrepiou-se de um extremo ao outro. Deu um grito de insatisfação e cerrou os olhos.

Mariana levantou-se da cama e deu passos apressados em direção ao banheiro.

Right now I can't read too good
Don't send me no more letters no
Not unless you mail them
From Desolation Row


Alfredo olhou a sombra da amiga cada vez maior. Segurou o secador de cabelos e o ligou.

- Não, porra! Não! - gritou Mariana começando uma corrida.

Lá da sala, o solo desconcertante de gaita rolava solto. Era o fim do disco. Era lindo.

Alfredo soltou o secador e a lâmpada do banheiro e do corredor piscaram com força. Faíscas voavam para todos os lados, num espetáculo de horror. Mariana aterrorizada, brecou sua corrida e andou rapidamente de costas, tropeçando. Caiu nua, pasma e paralisada.

- Meu Deus do céu! Meu Deus do céu!

A amiga rastejou, tentando levantar-se e, ao conseguir, correu até a cozinha. Abriu a pequena porta do registro geral de energia e o desligou. Ligou para o 192 e foi ao banheiro desligar o secador da tomada. Voltou à cozinha e ligou o registro novamente. Vestiu uma bermuda cinza e uma camiseta do Queen. Olhou para o estado deplorável do amigo e chorou.

- Fredo, Fredo... esse era o meu lugar, idiota! Eu não tenho nada, ninguém. Pra quê tudo isso? Esse era o meu lugar!

Mariana agachou-se ao lado da banheira e abaixou os cabelos arrepiados do amigo. Os olhos dele estavam arregalados e ela tentou fechá-los, sem êxito. Chorava muito, em plena confusão de sentimentos e lembranças. Foi até a cozinha e pegou uma faca afiadíssima e voltou ao banheiro. Levantou a perna de Alfredo até visualizar a coxa magra do amigo. Passou com destreza a lâmina da faca na parte inferior, que estava dura, graças à abundância de gelo contida na banheira. Conseguiu destacar uma lasca da coxa do amigo e sem pensar duas vezes, colocou entre os dentes. Mastigou a carne doce e dura do companheiro, sem o mínimo sinal de ânsia. Estava ávida pela iguaria bizarra.

A campainha tocou.

Mariana ignorou o alerta que soava da porta e permanecia fatiando a perna de Alfredo e a consumindo, cada vez mais e maiores pedaços.

O enfermeiro tentou a maçaneta e viu que a porta não estava trancada. Com passos curtos e silenciosos, entrou pela cozinha. Olhos para os dois lados e permaneceu caminhando até ganhar a sala. Quando pensou em chamar alguém, Mariana, completamente descontrolada, surgiu à sua direita e o esfaqueou nas costas.

- Mas que diabos... - praguejou o enfermeiro caíndo de joelhos.

Mariana deu mais quatro facadas nas costas do pobre enfermeiro e o deixou na sala, agonizando em seus últimos suspiros. Correu até a cozinha e trancou a porta. Se dirigiu ao quarto e dentro de uma caixa comemorativa do Lucky Strike, apanhou um três oitão. Conferiu o tambor e lá estavam as oito balas brilhantes.

A campainha tocou novamente. Era o outro enfermeiro, que havia ficado na ambulância para retirar a maca.

- Puta que pariu, cadê o viado do Gilberto? - questionava o enfermeiro sobre o seu colega de trabalho esfaqueado.

Mariana pegou um pino de cocaína e arrumou rapidamente uma carreira desleixada. Aspirou com força todo o pó, ficando com rastros brancos no buço e na ponta do nariz. Tremeu e de um suspiro violento. Alcançou a arma e num rápido movimento, colocou o cano apontado para o céu da boca. Apertou o gatilho.

O estrondo da barulhenta arma de calibre trinta e oito, fez o enfermeiro que estava tocando a campainha ligar para a polícia.

Em doze minutos dois policiais estavam na porta, juntos ao enfermeiro, tocando a campainha. Em três minutos de curta paciência, um dos soldados arrombou a porta. Com armas em prontidão, apontadas para a frente, os policiais faziam movimentos bruscos, vasculhando cada canto. Chegaram à sala e um dos policiais contemplou o corpo ensangüentado do enfermeiro esfaqueado.

- Chame uma ambulância - avisou um dos policiais.
- Já temos um enfermeiro vivo aqui - retrucou o outro policial.
- Aquilo ali? - treplicou o policial apontando para o enfermeiro trêmulo e pálido no canto da sala.
- Tudo bem, vou chamar a ambulância.

Um dos policiais correu até a viatura estacionada afim de chamar a ambulância. Dentro da casa, Mariana, que havia atirado para cima num acesso de loucura, apareceu na sala, sorrateira e enxergou o policial de costas olhando para os pequenos detalhes da sala, revistando a varanda à procura do homicida. Quando o policial voltou de sua revista, deu de cara com Mariana, descabelada e rindo de forma malévola, apontando a arma contra o policial.

- Calma, minha senhora. Muita calma - o policial tentou amansar.

Mariana sem responder aos apelos, deu dois tiros no peito do policial, que ao cair, olhou para o próprio peito, e apagou. O enfermeiro que havia presenciado a cena, estático, deu um salto e correu para fora de casa, berrando.

- Viadinho de merda! - gritou Mariana ao ver o enfermeiro escandaloso fugir de sua vista.

Ao ouvir os passos na cozinha se aproximando, Mariana não hesitou e apontou novamente o cano para o céu da boca. O policial chegou e apontou a arma em direção à ela.

- Largue a arma! - ordenou o policial.

Mariana acenou em despedida para o policial e apertou o gatilho.

sexta-feira, fevereiro 22, 2008

prazer-fêmea

seios voadores, nenhum instinto materno
apenas bicos ardentes em direção
ao sexo
leite para sustento, não
sustento das fantasias dos homens, sim
e não haverei de descer às suas coxas
e o perigo de suas cercanias
ando pequeno, miúdo por um terreno vívido e fértil
humana clara de alma escura
girei meu corpo por cima do seu
procurando a fonte do cintilante calor
que se emaranhou desde os meus pés até a ponta da cabeça
e vi, de um extremo ao outro, que ali se originava
tesão, paixão, excitação
nas suas mãos lá estão
fabricados, embalados e negligentemente distribuídos
ao seu bel prazer
o seu prazer
dentro do seu prazer
porque você é o prazer-fêmea

sábado, fevereiro 16, 2008

Liso, Escorregadio

Homero estava convencido de que havia efetuado o crime perfeito. Sem pistas, sem o mínimo rastro, ele sorria enquanto vasculhava seu bolso procurando um cigarro solto. Lá estava um Marlboro vermelho, enrugado pelo lugar hostil onde se encontrava. Cigarro aceso, perfeito.

- Preciso dormir - pensou.

Arrastou-se pela cozinha apagando a luz. Bateu a cinza no chão, sem se preocupar com um eventual incêndio, tendo em vista que o chão era revestido por um carpete que por sinal, fazia tempo que não era aspirado. Pó, muito pó. À cada passo, pó. Apagou a luz da sala desabotoando sua camisa azul marinho e ao entrar no quarto, fitou o cinzeiro cheio pela metade - cinzas, gimbas e embalagem plástica do maço - e bateu novamente a cinza.

- Puta merda, que frio! De manhã tá quente, à noite esfria! Eu odeio essa cidade! Vai tomar no cu, São Paulo! - gritou olhando as ruas salpicadas de luzes, pela janela do décimo terceiro andar.

Lançou a camisa na cama e sentou-se para tirar a calça. Coçou a cabeça exausto, olhando para uma lasca que permanecia pendendo em sua escrivaninha. Lançou a calça na parede e a fivela do cinto arranhou a pintura.

- Foda-se!

Pegou o Slanted and Enchanted do Pavement e o colocou cuidadosamente no CD Player. Summer Babe começou a jorrar pelas caixas de som. Ao invés da euforia proposta pela canção (pelo menos ele sempre se animava com ela), Homero olhou melancólicamente para seu guarda-roupas, puxou uma bermuda e uma cueca e se dirigiu ao banheiro.

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As sirenes na rua Bartolomeu de Gusmão não paravam de escandalizar a paz dos moradores da Vila Mariana. Azul e vermelho cintilavam pelas paredes das pizzarias e prédios até que os dois carros destacados para o caso frearam bruscamente na frente de um prédio de tijolos, bem alto por sinal.

- Porra, deve ter uma bela vista lá em cima! - disse Osvaldo olhando para cima e limpando o suor da testa com sua carteira de identificação.
- É, Osvaldo... Como é bom entrar em ação no berço da burguesia! - retrucou Ulisses, com ares de revolta e satisfação.
- Você é um comunista idiota, isso é o que você é. - treplicou Osvaldo, levando um cigarro fumado pela metade à boca.
- E você é um cego. Foda-se você Osvaldo, não vou discutir agora - retrucou ao se dirigir à guarita do prédio - sei que seu cu tá piscando pra que eu me esquente e discuta, só pra você rir, se divertir. Vá se foder.
- Tá bom, tá bom. Mas pára com esse papo de burguesia. Isso me cansa, sabia?
- Depois a gente fala sobre isso.

O dia estava frio. O céu começava a juntar imensas bolas de nuvens negras, porém esse baile celestial era disfarçado pela escuridão da noite. O pizzaiolo largou a massa na mesa de manipulação e saiu envolto em farinha para verificar a ação dos homens que pararam na frente do adorável prédio de tijolos.

- Armando, volta aqui! Temos seis pizzas para entregar! - gritou seu João dos fundos da pizzaria.
- Seu João, a polícia colou aqui na frente, vai entrar no prédio!
- Pro diabo com a polícia! Volte pra massa! Sério!

Armando voltou murmurando alguns palavrões e continuou a manusear a massa pálida de pizza, enquanto se esticava para tentar ver algum movimento. Ele queria um tiroteio, uma perseguição. Mas sabia que seu João é um chefe implacável. Faria pizzas para um exército em meio a um front de batalha. Ele queria dinheiro, muito dinheiro.

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- Porra, vou cagar primeiro! - sussurrou Homero, enquanto procurava uma revista no quarto.

Achou um encarte de ofertas de um supermercado e correu para a latrina. In The Mouth A Desert tocava ao fundo. Ele deixou a porta do banheiro semi-aberta pois essa era a canção preferida dele. Enquanto a bosta escorregava pelo seu cu, ele escorregava pela privada, num alívio incrível. Logo retomou a postura e ergueu o encarte:

- Santo Cristo! O feijão não pode estar custando tanto assim! Sete reais! Maldito governo!

Folheou mais algumas páginas até que, ao chegar na parte de limpeza, jogou o encarte no chão e se limpou. Olhou para o box e não encontrou toalha alguma. Abriu a porta balançando os braços para que o cheiro se dissipasse, e dirigiu-se à pequena área de serviço onde o varal se encontrava. Pegou uma toalha vermelha e deixou a luz da cozinha acesa. Sentou no sofá e ligou para a pizzaria e pediu uma pizza.

- Traz troco pra vinte, beleza? E traz uma Brahma também.

Levantou-se e andou até o banheiro. Abriu o box e em seguida o chuveiro. Enquanto a água descia pelos seus longos cabelos, seus músculos cediam e o estresse parecia descer pelo ralo.

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- Pois não? - questionou o porteiro com solicitude em sua voz.
- Estamos aqui sob autorização judicial para deter o senhor Homero, que reside no apartamento 132 - disse Osvaldo com a mais genuina cortesia.
- Opa! É pra já!

O portão se abriu e os dois policiais adentraram o prédio, mostrando suas identificações para o porteiro, que distraído, permaneceu pasmo pensando no Homero.

- Antônio! Tão atrás de quem? - perguntou Armando, o pizzaiolo, do outro lado da rua.
- Do Homero, aquele cabeludo do décimo terceiro, sabe?
- Ah sim, ele vive pedindo pizza aqui. Aliás, pediu uma de anchova agora pouco!
- É melhor cancelar essa merda! Hoje ele vai ver o sol nascer quadrado! Hahahaha - gargalhava o porteiro com seus poucos dentes e o bigode amarelado de café e tabaco.

Enquanto o diálogo escandaloso entre portaria e pizzaria se prolongava com ironia e humor, os dois policiais penetravam a recepção do edifício. Ulisses apertou o botão do elevador.

- Olha essa recepção! Que móveis! Imagine a casa desse Homero. Deve ser um publicitário endinheirado, com seu carrinho do ano, todo folgado. Maldito! - rosnou Ulisses.
- Caralho, Ulisses, foda-se se ele tem grana! Vamos algemá-lo sem cerimônia e levar o safado pra delegacia. E deixe que os outros se encarreguem dele. Aliás, parece que você nunca lidou com ricos!
- Já lidei sim, e cada vez que lido com um burguesinho, morro de raiva! Eles têm dinheiro saindo pelo rabo, pra quê fazer crime?
- Eles são humanos, porra. Dinheiro não melhora ninguém - respondeu Osvaldo com olhar entediado.
- Eles são uns burros mesmo!
- Pra ter dinheiro nesse país, você tem que ser pilantra, esqueceu disso? Se liga Ulisses, para com essa sua raiva comunista!
- E você, pare com essa sua repulsa pela causa trabalhista!
- Eu não tenho repulsa alguma, eu só não fico recriminando quem tem dinheiro.
- Tá bom, depois a gente conversa sobre isso - desconversou Ulisses, enquanto abria a porta do elevador.

Quando Osvaldo apertou o botão do décimo terceiro andar, eles ouviram passos rápidos, de salto alto. Era uma mulher que abrira a porta do elevador. Entrou no mesmo e com semblante cansado, sorriu gentilmente para os policiais carrancudos.

- Boa noite - ela os cumprimentou, arrumando a franja loira.
- Boa noite - responderam em uníssono.

Enquanto o elevador subia, a dupla disfarçava ao máximo os olhares que permeavam o decote da loira, que permanecia olhando para a porta. O elevador chegou ao sexto andar e ela saiu, com um tchau singelo e o barulho de seus saltos a acompanhando.

- Meu Deus, Ulisses! Você viu ela? Puta que pariu! Eu largaria por alguns minutos essa detenção só pra foder ela rapidinho!
- Cala a boca, Osvaldo! Se concentra que a gente vai entrar em ação agora! - Ulisses repreendeu o amigo passando a mão pela cintura afim de pegar seu revólver.
- Comunista eunuco de merda! Só pensa em igualdade social! Sabe o que você precisa? Uma trepada linda!
- Tá bom, depois a gente fala sobre isso.

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Os vapores da água quente vindos do chuveiro elétrico tomavam o banheiro e graças a esses vapores, Homero escarrava sem parar na parede.

- Essa porra dessa água não fica morna! Ou quente ou fria! Puta merda!

Desligou o chuveiro e envolveu a cintura com a toalha. Sacudiu os longos cabelos e abriu a porta do box. Enquanto saía para se enxugar, pisou no sabonete e escorregou. O banheiro não era grande, na verdade era um tanto apertado, o que complicou a situação de Homero que ao cair, bateu a nuca na ponta do vaso sanitário. O impacto foi forte o bastante, fazendo Homero desmaiar, vertendo sangue da boca. A pulsação acabou e no corpo magro de Homero já não restavam resquícios de vida. O corpo dele ficou derramado junto à porta.

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- Senhor Homero, abra a porta agora. É a polícia! - vociferou Osvaldo.
- Porra, vamos ter que arrombar essa bosta - considerou Ulisses
- É, eu arrombo e você me cobre! - combinou Osvaldo.
- Feito!

Osvaldo tentou quatro vezes até que um chute mais forte fez a porta ceder. Inspecionaram a cozinha e a área de serviço. Nada. Com as armas em prontidão e apontadas para frente, vasculharam a sala, mas como nos outros cômodos, nenhuma novidade.

- Olha a TV do cara! - disse Ulisses fazendo sinal de riqueza com as mãos.
- Cala a boca, porra! - respondeu Osvaldo, morrendo de raiva.

Cada um entrou em um quarto, fazendo movimentos bruscos, abrindo guarda-roupas e novamente não encontrando nada. O cheiro de xampu que o vapor do banheiro alastrava direcionou a atenção da dupla para o banheiro e sua luz acesa. Ulisses acendeu um Camel e friamente bateu na porta.

- Senhor Homero, saia do banheiro, o senhor está preso.
- Ah, que se foda, Ulisses! Me cubra pois vou arrombar! - avisou Osvaldo.

Osvaldo conseguiu destruir a tranca da porta, porém a porta não abria. O corpo de Homero obstruia a entrada dos policiais.

- Homero, eu vou atirar na porra da porta! - ameaçou Osvaldo.
- Peraí! - disse Ulisses afastando seu colega do local.

Ulisses fez força e conseguiu visualizar a perna de Homero no chão. O sangue começava a invadir a entrada do banheiro.

- Meus Deus, o burguês se matou! - gritou Ulisses mordendo o próprio braço.
- Como assim? - perguntou Osvaldo enquanto voltava da sala.
- O miserável! Se matou! Puta merda!
- Vamos ver isso!

A dupla começou a trombar a porta com força, até que em uma batida, o corpo se mobilizou para o lado e a porta foi aberta, num espaço suficiente para entrar de lado. Ulisses entrou primeiro e contemplou o corpo morto e nu de Homero. Balançou a cabeça negativamente e bateu cinza na privada.

- Chame uma ambulância. Seja lá o que for, chame uma ambulância.
- Não parece suicídio, Ulisses.
- Diabos, foda-se. Chame uma ambulância.

O Pavement permanecia cantarolando no CD Player, a faixa era Fame Throwa. Ulisses olhou para a direção do quarto.

- Porra, Osvaldo, desliga essa merda de som. Como podem gostar disso?

segunda-feira, fevereiro 11, 2008

Estetoscópios, Radiografias e Mosquitos Noturnos

o chão do hospital não é tão branco
nem as vestes dos médicos
nem mesmo os filtros dos cigarros deles
nem a luz fluorescente da sala de espera
nem o azulejo que se derrama nos banheiros
o sorriso amarelo da atendente
não é branco como gostaria que fosse
nem tudo é como quero
nem sempre estou nos lugares onde quero estar
estar é algo tão condicional, sim, as condições que a vida me dá
para estar em algum lugar
a maca que aguarda um esfaqueado nesses dias de carnaval
jaz amarelada, abandonada, ao lado do segurança que faz plantão
com seu bigode sujo de escuro café
escuro como tudo que lá está, que era para ser branco e não é
se não é branco, é preto - não existem tonalidades para a melancolia
nem para a euforia
hoje cá estou, andando com as mãos atadas, sem notícias
um vela acesa em poços de lama
ansioso, sonolento sem sono
faminto sem fome
sob a sombra tenebrosa do medo
sob a angústia de ver a vela apagar
deus, como seus olhos são lindos e fazia tempo que não os via
pena que você não podia me ver naquela hora
mas as boas novas serpenteiam sorrateiras
nessa atmosfera
em meio ao peso dos maus anúncios
do som que ninguém quer ouvir
M-O-R-T-E
amanhã tudo estará escuro como sempre foi
estetoscópios, radiografias e mosquitos noturnos
negligência e desleixo
bebedouros sem copos
ambulâncias com corpos
a madrugada está apenas começando
e eu aqui, paciente como qualquer um lá dentro
olho pra fora
acho que vai acontecer um estupro no parque da Independência
são quatro e vinte e cinco da manhã
o segurança da guarita diz: que se dane
lanço meu cigarro fora, olho pro céu e penso:
a vida continua...

quinta-feira, janeiro 31, 2008

A Besta

- Eu sou honesto, rapaz! Sou evangélico, jamais faria isso! – gritou Aristeu
- Eu to pouco me fodendo pra sua religião – tentei menosprezar – só quero saber onde diabos você colocou a merda da conta que eu paguei agora à tarde!
- Pelo amor de Deus, Fernando! Você está possesso!

Eu estava de costas para ele, e ao ouvir sua constatação em relação à minha condição, me virei repentinamente:

- Ah! Não vem com essa! Você não é santinho! Aliás, sei de muita coisa que faria sua igreja entrar num vômito coletivo de tanta sujeira e pecado! Se liga, hein? Agora, cadê a joça da conta?
- Você é igual ao diabo! Só sabe acusar! O acusador dos filhos de Deus! Eu sou carne como você, eu peco como qualquer um!
- Corta essa, Aristeu! Vai se foder! E que se foda sua condição humana, só não venha bancar o santo comigo, certo? Até parece que só porque entrou na igreja, tá tudo perdoado, tudo limpo... se liga, porra! Passa a conta que eu paguei, vai!
- Olha só, eu sou sujeito aos mesmos erros que qualquer um, só que a diferença é que eu não vivo pecando como você! Eu posso pecar, mas Jesus limpou meu coração e hoje minha essência não é pecaminosa!

Eu sabia que ia começar a mesma discussão. Qualquer desentendimento toma esse rumo, o religioso. Acendi um cigarro rapidamente, puxei a fumaça e soltei rapidamente, fazendo barulho de sopro.

- Caralho! Do quê você está falando? Pára com essa porra de essência pecaminosa! Você se acha livre, né? “Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”! Mas a verdade é que quem lê a bíblia, se torna prisioneiro da concepção do pecado, afinal, tudo é pecado e quando você nota, está preso dentro da mentalidade moralista de que tudo está errado e de que você deve evitar tudo que o leva a pecar, logo você se isola do mundo, esquece de todos os pecadores –
que embora pequem – te querem bem! Essa é a liberdade? – questionei com tom irônico – E pára com essa merda de assunto e me dá a conta!
- Olha aqui Fernando, você tem o direito de pensar o que quiser, mas não pode ficar gritando tantos absurdos! Do quê você está falando? Jesus com sua morte nos lavou com seu sangue! Deus foi tão bom que mandou seu único filho para salvar o mundo! Leia na bíblia! Livro de João, capítulo 3, versículo 16! Deus é amor! – Aristeu gritava exaltado, dando tapas em sua bíblia.
- Aristeu, quem disse que Deus é bom? Será que vocês são tão cegos assim? Será que ignoram o velho testamento, quando ele pedia animais para sacrifício? Quando ele matava gente de outros povos só pra favorecer o seu povo? – sinalizei com as mãos fazendo sinal de “entre aspas” – Porra! Ele cria a humanidade inteira e escolhe só um povo pra reinar sobre? Caralho, ele não é o Deus, criador do Universo? – eu já estava aos berros com o filho da puta – e em nome de Deus, me dá a conta que eu paguei!
- Olha só Fernando, você me decepciona com tantas blasfêmias... Quanta ignorância, rapaz! Eu nunca vi alguém falar tanta besteira em tão pouco tempo! Amigo, você precisa de Jesus! Por que você não vai pra igreja, um dia só? Você vai gostar! O louvor é legal, eles tocam guitarra...
- Só porque tocam guitarra significa que é legal? O Calypso toca guitarra e... – tentei interromper mas logo fui interrompido.
- Deixa eu terminar de falar! Então, você devia ir a igreja! Na boa, minha vida melhorou muito depois que fui lá... O pastor é atencioso, os irmãos vão te acolher!
- A gente já combinou que você não me convidaria novamente, lembra? Eu não toco meus pés numa igreja, a não ser que seja pra entrar atirando!
- Meu Deus! Sabe de uma coisa? Vou orar por você! Você não sabe que o meu Deus é o Deus do impossível?

De repente um silêncio se instalou. Olhei com cara de descrença para Aristeu e joguei o cigarro pela janela.

- Impossível é alguém ser tão burro como você, Aristeu. Era impossível há pouco tempo, mas Deus te fez burro! Hahahaha! Agora sim eu creio nesse Deus!
- Pode debochar, rapaz. Mas um dia você vai se livrar do mau! Toda a maldade que vem de Satanás seja repreendida, em nome de Jesus! – vociferou com a mão direita estendida em minha direção, enquanto a mão esquerda mantinha a bíblia pesada junto ao peito dele.
- Maldade! O que é o mau? Você já tentou raciocinar? Depois que você entrou na igreja, você se esforçou pra questionar o que não tem explicação? Siga o raciocínio: Lúcifer era um querubim perfeito, era a tradução da concepção de Deus sobre a perfeição, correto?
- Correto, mas ele se revol...
- Não me interrompa, porra! Vamos lá: Ele era perfeito e não havia maldade no céu, tudo era perfeito. Aí eu pergunto: de onde veio o mau, a inveja que fez Lúcifer se rebelar contra o criador e pretender tomar seu lugar? Já pensou nisso? Quem fez Lúcifer se rebelar? Quem era “o mau” naquele tempo? E porque Deus não destruiu Lúcifer pra cortar o mal pela raiz?

Novamente silêncio. Apliquei-lhe um nocaute moral com esse argumento, mas como um lutador fraco e cego, que não tem noção do perigo, ele se levantou e continuou o embate.

- Amigo... você não sabe o que fala... A sabedoria de Deus é loucura para os homens!
- Então é isso que você me responde?
- É sim. Vocês nunca entenderão.
- E você entende? Você entende sobre as eras passadas e o que ocorreu para que Lúcifer desenvolvesse a maldade que na época era inexistente? Afinal, você deve manjar da sabedoria de Deus, né?

Incrível, mas eu o visualizava colocando uma venda invisível em seus próprios olhos.

- Deixe de ironia, Fernando. Isso não vai me abalar!
- Ah, claro! E cadê a conta que paguei? Incrível como qualquer conversa com você termina em discussão religiosa, vai se foder!
- Pare de me ofender! Estamos em um debate civilizado!
- Debate? Só eu questiono! Você não tem explicação pra nada, apenas diz “a sabedoria de Deus é loucura para os homens”!
- E quer que eu diga o quê?
- Mano, às vezes o silêncio é o melhor discurso.
- Ora, você só sabe questionar minha crença!
- E você só sabe falar de sua crença! E por Deus, cadê a conta?
- Olha aqui Fernando... Eu gosto de você, quero seu bem. Jesus tem propósitos para a sua vida!
- Ah sim! O mesmo propósito que Deus tinha ao criar Adão e Eva, colocá-los pelados num jardim, com a inocência de uma criança e com o diabo malicioso silvando pelas árvores, pronto pra fazê-los pecar! Aí Adão e Eva pecam, e Deus aponta o dedo gordo e divino dele na cara dos dois e diz: pecadores! Depois os expulsa do jardim, amaldiçoando a mulher com a dor do parto e o homem com a dor do trabalho. Aí deixa a merda rolar pelo mundo, com Caim matando Abel, fazendo dele o primeiro assassino e pai de um povo violento e pecador. Aí Deus em toda sua perfeição e propósito perfeito, se arrepende de sua criação e diz que vai afogar todo mundo num dilúvio! Que maravilha! – gritei batendo palmas – Deus tem um propósito! Aí ele se arrepende de se arrepender e salva apenas uma família, a família de Noé. O resto que se foda nas águas, né?

Agora eu visualizava Aristeu furando seus próprios olhos.

- Fernando, tudo que Deus fez foi por amor!
- Aristeu, vai tomar no seu cu! Eu estou aqui há tempos te falando a verdade e você vem dizer que um marginal divino – vulgo Deus – fez tudo isso por amor? O mesmo amor que fez Deus permitir que o diabo pintasse e bordasse com a vida do paciente e cabaço Jó? Só pra provar a fé dele? Isso é amor? Matou a família dele, os empregados, os rebanhos e ainda mandou um monte de doenças pro corpo dele! Aí no final da estória, Deus o restitui com o dobro. Mas e a mulher dele que morreu? Poderia ser substituída? Isso prova que os homens pra Deus não são nada! São todos um bando de peças substituíveis!
- Não há como sondar a mente de Deus. Ele é diferente de todos nós! – Aristeu disse com olhar de superioridade.
- Ele não é diferente, Aristeu! Nós somos a imagem e semelhança dele, não é? Moisés quem criou Deus! Ele criou Deus para manter aquele bando de escravos hebreus dentro de um bando de leis! Aliás, foi Abraão que inventou toda essa putaria e Moisés resgatou toda essa farsa!
- Abraão foi um homem abençoado! Não fale isso!
- Não adianta, né? É tanta cegueira que não adianta! É o mesmo que tentar explicar como é o vermelho para um cego de nascença! Cadê a merda da minha conta? Eu preciso dela pra comprovar o pagamento!
- Fernando, você é um homem inteligente, mas de tanto ler, você se tornou cético, incrédulo! Mas Deus vai operar em sua vida, pode apostar! Eu declaro a benção de Deus sobre sua vida! – novamente o disse com a mão direita estendida em minha direção.
- Aristeu, corta essa! Enfia essa mão direita no seu cu! Quem disse que você pode declarar algo? Quem te deu essa autoridade?
- Jesus! O nome dele tem poder!
- Ta bom, você realmente acha que pode fazer isso?
- Sim, em nome de Jesus podemos fazer tudo!
- Ah sim! E eu declaro que você agora é do diabo! – esbravejei com os dedos fechados, exceto o indicador e o mindinho que ficaram levantados fazendo o sinal do diabo.
- Ta amarrado em nome de Jesus!
- Ta amarrado porra nenhuma, Aristeu! O diabo que te carregue! Hahahaha!
- Incrível. A gente abençoa uma pessoa e recebe uma maldição de volta!
- É assim com seu Deus! Você o adora mas se cometer um pecadinho, está sujeito a queimar o rabo no inferno!

Finalmente visualizava o cérebro dele escorrendo pelos buracos dos olhos.

- Não é assim, Fernando! Não é!
- Ta certo. Cadê a conta?
- Tudo isso é graças a essa internet, toda essa liberdade de expressão, todo mundo escrevendo o que pensa! E você caiu na deles!
- Não Aristeu, eles caíram na minha. Eu sou o maldoso que escreve. Eles lêem.
- Bem que a bíblia estava correta. A marca da besta era simbólica.
- E o que tem a ver isso com a internet? Vai dizer que é o meio de comunicação do anticristo?
- Também. Mas pense: no Apocalipse está escrito que a marca da besta seria colocada na testa ou na mão direita. Na testa é a luz do monitor e na mão direita, o mouse! Eu sabia! O pastor estava certo!- Que diabos...-Tire esse computador da sala e coloque no seu quarto! Não quero a besta reinando nos espaços por onde eu ando! – fui interrompido.
- Oh! – gritei fingindo susto – Se eu colocar a besta dentro do quarto, ela se torna inofensiva?
- Não importa, só não quero vê-la!
- Ta certo, então você vai fazer o quê em relação às imagens católicas que estão pelas ruas? Mandar guardar num quartinho também?
- São casos diferentes!
- Casos diferentes é o caralho! Eu também pago aluguel, o computador fica na sala! E falar em pagar aluguel, dá a minha conta agora!
- Não admire se seu computador estiver com óleo consagrado na igreja! Vou consagrar esse computador para o Senhor!
- Ah sim! Da mesma forma que você consagrou o computador com aquelas punhetas quando te peguei vendo um site de putaria?
- Lá vem o acusador! – Aristeu fez cara de desprezo.
- Não quero te acusar, até porque pra mim isso é normal. Orgia pra mim é normal, heroína com crack pra mim é normal. Quero que tudo se foda, mas não venha com falso moralismo. Como você é cínico!
- Fernando, aquilo é passado. Eu já pedi perdão pra Deus. Ele me perdoou, afinal, ele é fiel e justo para nos perdoar de todo o pecado e nos purificar de toda iniqüidade!
- Crente é tudo a mesma bosta, né? Sempre tem um chavão bíblico pra tentar escapar das merdas! Sua essência é pecaminosa! Você bate punheta aí enfrente ao computador quase todos os dias, aí com a mesma mão que manipulou a pica, você manipulou a bíblia.
- Mentira! Mentira! Ta amarrado o acusador! – gritou com os dedos indicadores tapando os ouvidos.
- Agora você não quer ouvir, né? Puta merda, que raiva! Aristeu, você me cansa com esse papo! Cadê a conta?
- Eu te canso? Vou te cansar até que você vá pra igreja! Já leu a parábola da viúva e o juiz?
- Eu já li a bíblia de cabo a rabo, bem mais vezes que você! Não vem com essa. Sua perseverança não vai adiantar. E cala a boca! Crente chato de merda! CADÊ A CONTA?
- As pessoas sentem falta de você lá no grupo de jovens!
- As pessoas sabem que você bate punheta antes de ir pra igreja?
- Eu fui comprado com o sangue precioso de Jesus!
- Ah sim! Jesus, o filho burro de Deus! - O quê?!- Um dia Deus disse: filho, meu único filho, você pode morrer pelo pecado de todas essas pessoas que criei? Jesus deve ter respondido: pai, por que o senhor não aniquila o mau de vez? Por que tenho que morrer pra absorver todo o pecado do mundo? Deus respondeu: porque eu sou complicado, porque eu quero espetáculo, eu quero emoção! Jesus responde: mas Pai, manda um anjo! Ele poderia morrer pelo pecado de todos! Por que eu? Deus reponde: porque todo mundo dirá: como Deus sofreu ao ter que enviar o único filho pra morrer! Jesus responde: então por que o senhor não desce? E Deus finalmente responde: cale a boca e se prepare pra entrar no bucho de uma virgem!

Aristeu se ajoelhou com olhar complacente e piedoso, e ergueu seu rosto para cima:

- Senhor, não considere o que ele fala neste momento! Perdoa o seu pecado, ele não sabe o que fala!
- Oh! Eu não sei o que falo? Fora da igreja não há inteligência! Oh! – respondi com ironia.
- Fernando, não diga mais nada, para não piorar a situação espiritual.

Em todo esse tempo, nós permanecemos em pé. Até que peguei um copo, enchi dois terços dele com whisky e sentei no sofá. Aristeu permanecia de pé com a bíblia firmemente guardada em seu peito. Eu cruzei as pernas, levantei o copo e brindei:

- Ao amor de Deus! Deus é amor! Paz na Terra! Aleluia! Aleluia, caralho!
- Fernando, Fernando. Deus é misericordioso. Mas não é burro.
- Ah não, claro que não – respondi com sarcasmo estampado em cada palavra.
- Eu vou colocar uma música aqui. Peraê.
- Se colocar essas porras de gospel eu quebro o CD e a sua cara!
- Eu tenho o direito de ouvir o que quiser! Eu pago o aluguel!
- Foda-se, eu tenho o direito, ou melhor, o dever de quebrar sua cara!
- Espírito de violência, eu te repreendo em nome de Jesus!

Dei um gole mais longo até o whisky acabar e joguei o copo na parede. Rajadas de cacos de vidro cortavam o ar.

- Fernando, vou chamar a polícia!
- Oh! O que aconteceu com o nome de Jesus? Porque ele não me impediu de quebrar o copo?
- Não brinque com o nome de Jesus!
- Ah! Pro diabo com o nome de Jesus! Cadê a minha conta?
- Como você fala besteira! Mais uma dessas e chamo a polícia!

Levantei, me apoderei da garrafa de J&B e a levei para beber ali no sofá.

- Sem essa, Aristeu! Como você é chato, que inferno! Eu não sei como ainda moro aqui!
- Eu sou o seu ponto de equilíbrio, Fernando – me respondeu com olhar soturno.
- Papo de veado! Pode parando com essa merda! Você é meu lado burro e cego!

Aristeu se afastou, deixou a bíblia numa cadeira e foi ao banheiro. Após alguns segundos, tocou a descarga e saiu do banheiro.

- Você precisa de mim e precisa parar de beber!
- Não. Não preciso de você, não tenho que parar de beber – respondi acendendo um cigarro e terminando meu segundo copo.
- Já vai beber o terceiro! Você precisa de ajuda! Vamos à igreja, Fernando! É um bem que você faz a si mesmo!
- Pára de me chamar pra ir naquela merda! Caralho de cara chato!
- Eu não vou desistir de você, assim como Jesus nunca desistiu de mim.
- Amigão, Jesus desistiu de mim há anos! Desista! – falei girando o cigarro, fazendo espirais de fumaça.
- Não. Eu te amo – me olhou com olhar sereno.
- Que porra de olhar é esse?
- Eu amo você, Fernando. Amo sua alma. Não quero que ela vá pro inferno. Só não amo seus pecados.
- Já chega! – levantei do sofá – Você ta com veadagem pro meu lado! Uma coisa é ser cristão, outra é ficar de papo bicha pro meu lado. Não preciso do seu amor! Só preciso da outra metade das despesas desse apartamento. Dispenso seu amor, preocupação, pena, piedade e o caralho a quatro!
- Você tem coração de Pedra, Fernando. Coração duro como o de Faraó quando não quis deixar o povo de Deus sair do Egito.
- Seria bom se ele tivesse eliminado todo aquele povo. O mundo seria outro!
- Libertino e pecador, né? Assim seria o mundo!
- Amém!

Peguei a garrafa que apenas continha dois dedos de bebida e a levei pro quarto. Apaguei o cigarro no cinzeiro de motel que um dia roubei e voltei para a sala.

- Cadê a conta, Aristeu?
- Você não quer aceitar Jesus como seu senhor e salvador?
- Não, eu quero a conta.
- Você precisa de Jesus!
- Olha aqui seu filho da puta, eu quero que Jesus vá tomar no cu, me dá a conta – intimei levantando a gola de sua camiseta.
- Me larga! Eu vou chamar a polícia!
- Se você não me der a conta, vou te acusar por extravio de correspondência!
- Faça o que quiser! Mas eu vou chamar a polícia!

Ergui minha mão direita e encaixei um soco na cara dele.

- Fernando! Pare! Me solta!
- Cadê a minha conta! A internet está cortada e preciso do número do protocolo para pedir que eles conectem minha internet de novo!
- Pra quê internet? Pra quê isso?
- Pra entretenimento, comunicação e trabalho. Ah! E pra você bater punheta também!
- Você precisa de libertação! Jesus pode te libertar, sabia?

Encaixei um bom murro em seu fígado. Aristeu deu um salto para trás e desvencilhou do meu domínio. Corri atrás dele e lhe passei uma rasteira por trás. Ele tropeçou e ralou o joelho.

- Me deixe! Pelo amor de Deus! Você está bêbado!
- Aristeu, qual é o problema? Onde você escondeu a conta?
- Jesuuuuuusss! – clamou histericamente.
- Puta que pariu, que crente idiota!
- Isso é preconceito!
- Cala a boca!

Ele ainda estava deitado de barriga para cima e assim acertei a boca dele com um cruzado de direita. Das gengivas brotou sangue.

- Jesus, estou sofrendo pela sua palavra! Me ajude!
- Eu estou te batendo pela conta da internet! Não pela bosta da palavra de Jesus!
- Glória a Deus!

Enquanto ele se vangloriava de seu momento de martírio cristão, acertei dois tabefes em sua cara, deixando-a vermelha como uma manga madura. Ele permanecia em seu estado de júbilo enquanto eu começava a me cansar.

- Olha aqui Aristeu. Seja coerente. Por mais que a internet seja a besta e tudo mais, na bíblia diz que as pessoas adorariam a besta, não é?
- É sim – Aristeu concordou com poucas lágrimas deslizando pelas maçãs de seus rostos.
- Então, deixe que eu adore a besta!
- Não onde eu moro!
- Mas eu também pago! Se eu quiser adorar ao bode satânico eu posso!
- Você não faria isso!
- Faria. Só por pirraça! E ainda beberia o sangue dele! Ou só os crentes podem se banhar com sangue de cordeiro?
- Mas é o cordeiro de Deus!
- Foda-se.

Aristeu olhou para a gaveta da cômoda que fica na sala e fez sinal para que eu a abrisse. Abri prontamente e vislumbrei diversos livros. Apontou para um dos livros. Quando o abri, lá estava a conta da internet, com a autenticação do meu pagamento.

- Obrigado Aristeu. E vá limpar esse sangue.
- Você ainda vai mudar. Tenho certeza. Ah! E da próxima vez que me bater, vou acionar a polícia.
- Não importa. Deixa eu ligar pra central e confirmar o pagamento.

Peguei o telefone e liguei para a central de atendimento. Quinze minutos a internet conectou novamente. Sentei enfrente ao computador e tirei o atraso virtual, respondendo scraps, e-mails e lendo as últimas notícias da música.

- Céus, o Aristeu um dia vai ser internado num manicômio. Que cara louco! Marca da besta... – pensei enquanto um site demorava a carregar.

Ao anoitecer, liguei o som e coloquei o Dark Side of the Moon do Pink Floyd. Acendi mais um cigarro e finalizei os dois dedos de whisky que permaneciam na garrafa. Às duas da manhã, enquanto pegava no sono, ouvi barulho de teclas sendo tocadas. Levantei bruscamente e abri a porta lentamente.

- Porra! – sussurrei com raiva, pois havia batido a canela na quina da cama.

Olhei pela fresta e vi o monitor ligado. Aristeu estava apenas vestido em seu pijama, com postura encurvada e o rosto bem próximo ao monitor. Sua mão esquerda estava dentro da calça, em seu pau e a direita alternava entre o teclado e o mouse. Forcei um pouco a vista e visualizei cenas bizarras de sexo. De tempo em tempo ele olhava para trás e para os lados para se certificar de que eu não estava por perto. Olhei para a mesa da sala, a bíblia estava aberta, ao lado de um copo de água. Desisti da idéia de flagrá-lo e voltei para a cama, passando a mão na canela machucada. Peguei no sono minutos depois – eu estava consideravelmente bêbado – e Aristeu continuava na sala, abafando até os pigarros, tentando fazer o mínimo de barulho possível. Ao acordar, lá pelas onze da manhã, Aristeu estava dormindo no sofá, devidamente vestido com seu pijama. O cansaço da discussão e da epopéia pornográfica da madrugada o fazia babar muito e roncar de forma moderada. Olhei para a bíblia na mesa e ela estava aberta no livro de Apocalipse, capítulo 21, versículo 8.

"Mas, quanto aos tímidos, e aos incrédulos, e aos abomináveis, e aos homicidas, e aos fornicadores, e aos feiticeiros, e aos idólatras e a todos os mentirosos, a sua parte será no lago que arde com fogo e enxofre; o que é a segunda morte"

No final das contas, o mentiroso terá o mesmo lugar que o homicida.

- Como isso pode ser chamado de justiça? – pensei ao pegar o copo vazio que ele deixou na mesa.

Ao me dirigir para a cozinha, olhei Aristeu em repouso, inofensivo. O sono do perverso, do mentiroso. Até quando?

- Todo homem tem seus segredos. E como já dizia a bíblia, não há segredo que não venha a ser revelado. Pobre Aristeu. Pobres crentes – pensei, abrindo a torneira para lavar a louça.

segunda-feira, janeiro 21, 2008

Amarelo Mostarda

quando o papel se abre, eis o desafio
são poucos os segundos que nos separam
de uma genialidade
ou de uma estupidez
vislumbro a mostarda e queria meus dias
amargos e saborosos como ela
dias amarelo mostarda
quando andava sem camisa em cima de muros
de telhados e sonhos
quando não via futuro, quando tudo era
muito riso e pouco ciso
quando a vara de bambu saiu da bíblia direto para as minhas costas
quando a barata interviu na ceia e parou uma oração
quando jogávamos futebol em campos de cuspe
quando devíamos e não temíamos

dias amarelo mostarda
não voltarão
dias se tornam vermelho sangue
dia após dia
e a trilha se estreita
assim como queria o homem que um dia foi tudo
e hoje nem sei quem é
ando uma trilha estreita
mas não vou morar no céu
na estrada só cabe um pé
mesmo assim
não vou morar no céu
no seu céu sereno
serenatas e cerejeiras

será? será o que?

sexta-feira, janeiro 18, 2008

Luta ou Morte!

os deuses estão loucos
a guerra chegou
e você veio com ela

luta ou morte - um deles disse.
mas eu quero casar!
vocês irão brigar - disse com olhar vago mirando as nuvens.
mas nunca brigamos! - respondi.
mas um dia brigarão.
não aceito isso.
CERTO. então você vai morrer!
como assim?
luta ou morte, oras.

os deuses da guerra estão loucos
imposições voluntárias
de um destino involuntário
malditos deuses!

(vida, minha vida... olha só o que é que eu fiz...)

Like a Leper Messiah

me abrace mendigo!
toma um cigarro, pobre diabo!
me envolva leprosa!
você cheira como banheiro feminino
em dia de menstruação
e essas pintas brancas em sua pele
será que serão minhas, em minha pele?

lepra no braço
lepra na coxa
sou coxo
deitado no colchão
pensando no coxão
abraçado à colcha
pisando em conchas
pensando em coisas
dessa lepra cerebral

o abraço da leprosa
me fez imundo
por sete anos
não, pela vida toda
lepra cerebral
que caiam um por um
meus pensamentos
sobre o chão empoeirado
dessa Jerusalém de ninguém
até que o messias me diga
"vai-te em paz, estás limpo"

onde está o seu messias?

quarta-feira, janeiro 16, 2008

Entranhas Amargas

Acho que morri em algum lugar por aí
Minhas tripas estão em algum lugar por aí
Foi uma morte cruel que não lembro
E finalmente morri

E só fui avisado sobre minha morte
Pelas aves de rapina
Que reclamaram do gosto sofrido e amargo
Das minhas entranhas

- Tem gosto de jurubeba! - diz um abutre.
- Não, ele tem gosto de café torrado! - discorda o urubu com uma ferida no pescoço.
- Sem essa, gente, ele tem gosto de casca de limão! - diz o condor.
- Ô, ô! Calma aê! - eu interrompo - Que putaria é essa?

Olhem onde cheguei
Morto por não-sei-o-quê
E as aves de rapina confabulando sobre meu sabor
Eu não esperava por isso
Não queria que fosse assim

Mas meu corpo ainda mexe
Eu sinto
Mas algo está morto em mim
Eu sinto
Que diabos está acontecendo?

sábado, janeiro 05, 2008

Jéferson Peninha

A Liberdade é de fato um lugar de liberdade. Enquanto calçadas se esforçam em comportar tantas mesas cheias de cervejas e petiscos, rodeadas de pessoas sorridentes, a palavra liberdade como conhecemos, pula do abstrato para o concreto em segundos. Concreto envelhecido e lascado. Concreto pichado e judiado. Judiado como os vagabundos e loucos que desfilavam por entre as mesas, exibindo uma habilidade incrível de se desviar de obstáculos, garçons, cadeiras e ombros. Mas Jéferson Peninha não mostrou aptidão para desvios bruscos e chocou-se contra meu ombro. Olhei pra trás e olhei para seu rosto. As rugas havia tomado conta de sua face, mas havia uma jovialidade inegável em seu sorriso.

- Desculpa aê - disse Peninha estendendo as mãos para mim, em cumprimento.
- Opa, fica tranqüilo - disse eu, estendendo minha mão aceitando as escusas dele.
- Tô um pouco desorientado, saí há pouco tempo da prisão. Matei um homem ali naquela esquina - disse, apontando para a esquina da rua dos Estudantes com a rua Galvão Bueno - mas hoje não mato mais ninguém, tô velho.
- Por que você matou?
- Dedo-duro tem que morrer.
- Ah sim...

Jéferson Peninha continuou suas narrativas, em pé, com um copo de cerveja nas mãos (que ele conseguiu da nossa mesa após fazer uma mágica incrível), sempre fazendo questão de mostrar um estilete enferrujado que segundo ele, era pra jogar no pescoço de vacilão. Mas na verdade o que vacilava era seu equilíbrio, que vez em outra falhava, fazendo-o balançar um pouco para o lado oposto ao meu. E balançando como um João Bobo, ele apontou para o prédio Regente Feijó:

- Tenho uma filha que mora ali! No quinto andar, pode procurar, ela é "modela". Esteve em Madri... você tem que ver os armários que saem juntos dela! Cheia de guarda-costas!
- Mas você não fala com ela? - perguntou minha amiga, Tálita.
- Ela não quer saber mais de mim! - respondeu fazendo com as mãos um gesto de desprezo.
- O que importa é a saúde - eu disse tentando amenizar a situação.
- Mas eu já fui o maior traficante aqui da região! O Glicério todo era meu! - disse com orgulho estampado no fechar do olhos e com semblante austero.
- Até a polícia pegar né? - Thiago, outro amigo meu. lançou.
- Me deduraram! Eu andava tranqüilo pelas ruas, sempre com um "oitão" na cintura e uma PT na bota! Sempre andava com um sobretudo preto e botas. Eu fazia a polícia dar marcha ré! Aqueles "cascavél", carro preto, vermelho e branco. Eles me olhavam com a mão nos bolsos e recuavam!
- Caralho! - eu exclamava pra passar algum interesse (apenas a Tálita prestava alguma atenção, enquanto o Thiago começava a ceder para o álcool).
- Matei o dedo-duro. Fiquei preso por catorze anos, seis meses e oito dias no Carandiru. Pavilhão 9. Ali só tinha bandido fodido. - contou, mostrando o antebraço riscado por uma cicatriz de estilete - Quase morri lá, algumas brigas. No pavilhão 6 estavam os "estrupadores", menininhas, mocinhas, "mulherzinhas", só os protegidos. Se fosse no meu pavilhão, passava o estilete na barriga! - continuou contando, agora levantando a camiseta e mostrando a barriga cortada por faca, centímetros acima do umbigo.

Continuávamos bebendo a cerveja, enquanto as pessoas de outras mesas nos fitavam, parecendo pensar qual seria o motivo da gente dar tanta trela para um mendigo. E meio às suas histórias, cortavamos as narrações com comentários breves, ou expressões monossilábicas. Às vezes me distraia com o clima fervilhante do bar, que estava lotado de trabalhadores, bandidos e putas. Observei um negro com uma touca branca de lã, que eu jurava ser um muçulmano. Mas logo dispensei minha concepção ao vê-lo esfregar a mão por debaixo da saia de uma puta, rindo com um cigarro repousado ao lado da boca. O Peninha mais tarde me disse que ele é conhecido como Chocolate e é um dos piores bandidos da região. Assim está melhor. Peninha detalhava cada história com uma malandragem que eu havia sacado: quanto mais tempo ele nos tomava, mais cerveja ele tinha pra mendigar da nossa mesa. Ignorei a malandragem amadora dele e continuei observando as pessoas. Em meio à exaltação de risadas despreocupadas de uma sexta-feira, que nem a chuva que caía maliciosamente estragava, uma mulher se destacou como uma chama em meio às cinzas. Não por sua alegria. Não havia sorriso no rosto dela, mas havia uma angústia assombrosa em seu rosto. Rosto que era de uma beleza poucas vezes vista, com incrível harmonia de espaço entre os boca, nariz, olhos, sobrancelhas. Seu cabelo loiro despencava em cachos teimosos, teimavam em ser belos. Ela se estendia na possível altura de um metro e setenta e cinco centímetros, exibindo curvas caprichosamente colocadas numa silhueta inebriante. Anéis adornavam seus dedos longos e elegantes, dedos estes que pegaram o celular que tocava. Ao falar, consegui ver seus dentes perfeitamente alinhados e brancos como nuvens de um dia ensolarado. Sua fisionomia orgulhosa foi substituída por uma que emanava uma mistura de raiva e decepção. Deus, quem a decepcionaria? A beleza dela me enjoou como um doce comido em excesso e logo voltei minha atenção para o Peninha e sua boca sofrida cheia de dentes tortos.

- Já matei muita polícia!
- Mas eram maus, não eram pais de família, né? - perguntou Tálita
- Siiiim, siiim, eram maus, filhos das putas! - respondeu imediatamente

Peninha olhou para o Thiago, apertou seu braço:

- Esse aqui ía lutar bem na cadeia!
- Quê isso... - Thiago disse tímidamente com cabeça baixa e sorriso vago.
- Hahahaha! Ía ser mocinha na cadeia! - Tálita se exaltou
- Não, não! Do meu lado não! Se ele tiver comigo, ninguém mexe nele! - Peninha interrompeu, erguendo o rosto, com ar de proteção.

Jéferson Peninha continuava alcançando memórias dos mais profundos abismos de sua mente. E de repente, com olhar soturno, sugerindo uma lembrança amarga, confessou:

- Existe um crime que me arrependo. Só um! - dizia olhando para baixo - Matei uma menina de 12 anos. Ela me pediu de joelhos para que eu não matasse o pai dela: "Por favor! Não mate meu pai!". Eu peguei a menina e coloquei a arma em sua cabeça. A polícia já estava lá embaixo, com um megafone o coronel gritou: "Peninha, se renda!". Eu atirei na menina e joguei o corpo dela do quinto andar. Negociei com a polícia e entreguei as armas. O coronel pessoalmente colocou o grampo nas minhas mãos e me levou. Paguei a fiança com a grana que tinha do tráfico e o cigano estava solto de novo!

De repente uma discussão sobre crimes afinçáveis se estabeleceu. O Edu que estava na mesa conosco, discordou de algo que o Peninha falou. O nosso amigo das ruas ficava ameaçando lançar a "cigana voadora" no pescoço de Edu. A "cigana voadora" consistia em lançar de forma certeira o estilete enferrujado na garganta do oponente. Tálita comentou em alta voz que se não matasse pelo corte, mataria pelo tétano. Peninha sorriu e apontou para ela:

- Você é inteligente! E bonita! Podia ser "modela"! Se fosse "modela", seria seqüestrada. E eu seria o primeiro a seqüestrar!

Todos caíram na risada. Jéferson Peninha ficou indignado com a cerveja e disse que sairia pra buscar cachaça, porque cerveja não funciona com ele. Aparentemente seriam os últimos momentos dele conosco naquela noite, ainda mais quando nos disse:

- Não entrem no crime. A vida do crime não compensa.

Mas embora ele tenha saído, às vezes voltava pra comentar algo, para dizer quem era quem naquele bar. Pra cerrar nosso cigarro. Pra apontar alguma mulher gostosa que passava pela calçada tumultuada.

- Você viu os peitos daquela morena? Nossa vou chupar eles! - disse Peninha com sorriso excitado.
- DUVIDO! - disse eu para atiçá-lo a fazer a merda, para ver o circo pegar fogo.
- Duvida? Então tá bom! - respondeu se dirigindo à morena.

O que aconteceu depois não deu pra ver, pois ele a seguiu até entrar num bar.

Jéferson Peninha é uma figura odiada por garçons e amada por jovens daquele cenário. Mas perambula como uma alma penada pelas calçadas daquela região, flutuando como uma leve pena, uma peninha de um imundo pombo. Sujo, esquecido e aflito por lembranças que ele não sabia se eram histórias ou estórias. Lembro da última coisa que ele me disse:

- Porra! Fui deitar ali no banco da praça e os "urubu" mandaram eu sair de lá! Barrrrrrbaridade!

domingo, dezembro 30, 2007

A Luz e os Quatro Sentidos

De repente Maulin se apegou à luz. Não gritem "glória a Deus", cristãos. Nem exultem, muçulmanos, com seus escandalosos "Alá é grande", e muito menos vocês budistas, com sua empolgação recatada. Não se trata de iluminação religiosa. Maulin fixou sua face na direção daquela lâmpada de 60wtz que brilhava discretamente acima dos sofás. Agnes, amiga de tempos, iniciou seu repertório de censuras:

- Céus Maulin, você vai torcer o pescoço se não parar com isso!

Silêncio. Sem falar, sem ouvir, sem tocar, sem cheirar. Apenas olhar. O incrível é que ele não apenas olhava, mas se rendia a um estranho ritual silencioso, intimista e isolado. Totalmente boquiaberto. Ele em sua 'brilhante' catarse, enquanto ela se afogava em extática raiva. Acostumada a ter atenção. De repente essa maldita luz, essa eletricidade incandescente e nada dele acordar da hipnose.

- Thomas Edison, eu te esfaquearia por ter inventado essa porra! Eu estupraria sua alma, seu desgraçado!

Agnes não se continha e caminhava pela sala, com a cabeça girando, puxando metade dos cabelos pra cima e coçando freneticamente a outra metade. Maulin permanecia com os pés firmes, postura vacilante, e algumas gotas de suor desfilavam por sua fronte. Agnes se aproximou com um salto desajeitado e com a boca quase engolindo a orelha de abano do desligado amigo. Com dedo em riste, vociferou:

- Diabos! Você está aí há pelo menos 40 minutos! Vamos lá bonitão, quero ver se você é tão determinado!

Saiu correndo para o quarto e trouxe um livro de Fante. Abriu-o na metade e com rosto desfigurado pela raiva e provocação ameaçou rasgar o livro:

- Vamos lá sua mariposa filha da puta! É o Pergunte ao Pó! Vou rasgar seu livro preferido! Eu vou rasgar! Eu vou rasgar!

Maulin continuava inerte em sua misteriosa atração. Agnes tentou rasgar o livro pela metade, mas sua força limitada lhe convenceu que o livro devia ser rasgado minuciosamente. Página por página, a epopéia de Arturo Bandini ganhava o chão. Maulin permaneceu sem nenhum movimento. Apenas reconheceu auditivamente o som do papel rasgando. Em sua mente, ele se inquietou um pouco. Mas não podia se mexer. A audição:

- Que porra de papel rasgando é esse? - pensava Maulin

Enquanto isso, Agnes injuriada pela omissão de sentimentos por parte de seu amigo, correu atrás da caixa de charutos Montecristo, número 2, que Maulin havia comprado para acompanhá-lo em seus momentos de solidão na sacada do apartamento, junto à noite reveladora de mistérios.

- Cadê, cadê? Agora ele me paga, maldito ignora... achei!

Agnes voltava saltitante, triunfante. Agora ele despertaria dessa farsa idiota.

- Hey cabrón, le gusta fumar puros? E se eu colocar esse porcaria aqui dentro?

E começou uma cena no mínimo curiosa: esfregava diversos charutos em sua vagina, mas esfregava com afinco, quase uma "masturbação cubana". Ela cortava os charutos e os acendia, baforava um pouco e os arremessava contra a janela e contra as paredes. Uma camada azulada de fumaça se instalava abaixo do teto, enquanto Agnes era toda euforia, com dois charutos na boca, uns cinco na calcinha e outros dois esmagados pelos seus pés tamanho 37. Ela era uma mulher alta, cabelos ondulados e castanhos, assim como eram seus olhos. 37 anos, assim como era o tamanho do pé. A cara era de um desgaste descomunal, graças a anos de frustrações e bebedeiras como escapatória. Havia largado as drogas, mas todas as substâncias químicas haviam comprometido seu modo de pensar e reagir a certos imprevistos da vida. Ela estava rumando para a plataforma da loucura e Maulin era o único ser que se locomovia na Terra que podia suportá-la, dando moradia à ela.

- Satisfeito? Montecristos are burning! Tcharararan!

Dançava indiferente, inconscientemente ao som de sua adaptação para "London's Burning" do Clash.

As narinas de Maulin detectaram o doce aroma do fumo cubano sendo consumido sem dó, sem limites. O olfato:

- Que porra de charuto é esse queimando? - pensava Maulin

Ele continuava sem se mexer, incapaz, confuso por não saber, por não poder olhar o que estava acontecendo. Apenas luz, aquela deliciosa e atraente luz.

Agnes não se dava por vencida. Cachoeiras de suor lhe desciam pelos cabelos, inundando sua camisola rosada de cetim adornada com pequenas flores opacas e coloridas. Sentou numa cadeira, tentou se controlar, mas seus pés mexiam sem parar, e isso a intrigou ainda mais. Ao invés de pensar em se controlar, em entender o motivo da misteriosa atração, Agnes pensava em algo valioso que ela pudesse destruir, algo que o tirasse daquela situação bizarra.

Inesperadamente, Agnes pulou excitada, correndo pelo corredor que levava aos quartos. Enquanto corria a pequena distância, deixava os dedos das mãos riscarem as paredes. Pulou na cama e a atravessou chegando ao outro lado do quarto, onde no canto, perto do banheiro, uma pequena adega de vinhos permanecia a guardiã do sabor perfeito e original. Adega linda, climatizada, temperatura ideal. Deus salve a tecnologia! Mas Agnes não se importava com isso. Bebia vinho barato, com sabor parecido com o do vinagre. Bebida maldita que nos transporta à pior das ressacas. Mas Agnes não queria classe. Queria beber. E nunca deu bola para a pequena adega. Maulin sempre se gabava de ter comprado um vinho francês chamado Romanée- Conti, safra de 1992 e que custou a bagatela de mil e duzentos reais.

- Maulin, Maulin, essa merda de vinho vai ser um ótimo acompanhamento pra minha refeição!

Saiu correndo como uma bruxa malévola, enchendo a casa com sua gargalhada sarcástica. Em segundos estava na cozinha. Abriu um dos armários e alcançou um miojo de frango caipira. Acendeu uma das bocas do fogão e colocou nela uma panela com água. Enquanto a água fervia, Agnes dava pequenas risadas, coçando a todo momento sua cabeça. A água demorava pra ferver, então ela decidiu agilizar o "jantar". Procurou nas gavetas um saca-rolhas e o encontrou na segunda gaveta. Deixou o pequeno instrumento ao lado da garrafa de vinho. Foi até a porta da cozinha, olhou de relance e viu Maulin, ainda parado, como mosquitinhos na lâmpada em dia de calor. A água começou a exibir as primeiras bolhas e Agnes enfurecida pela visão que acabara de ter, lançou a massa crua na água. Quatro minutos depois e a refeição estava pronta. Ligou o som da sala e o disco que estava no deck era o novo do Wilco, Sky Blue Sky. Apertou o play e viu que a função "random" estava ativada. A primeira música a tocar foi "Hate it Here". Voltou a cozinha e pegou o prato de miojo e a garrafa de vinho. Minuciosamente inseriu a ponta saca-rolhas na rolha da garrafa e lentamente girou a chave. Prendeu a garrafa entre suas coxas flácidas e puxou com força o instrumento. Não abria. Na quarta tentativa, ouviu o barulho de vácuo sair e festejou com uma talagada generosa. Ela começou a rir, enquanto olhava Maulin parado ao lado do sofá, boquiaberto e paralisado. Seu rosto - pensou Agnes - é tão lindo, jovial, com uma camada de barba que dá uma certa masculinidade. Mas é um idiota - continuou Agnes - parado, olhando para a lâmpada. Ela chupava os fios de macarrão, fazendo um ruído terrível, e o caldo respingava na garrafa, na mesa, no chão.

- Meu bem, que vinho maravilhoso! E eu só bebendo São Tomé! Preciso de um trabalho, pra comprar coisas desse tipo!

Bebia em meio à gargalhadas, que a faziam engasgar. Logo se recuperava com tosses e continuava a cena, cheia de luxúria no olhar. A garrafa chegava à metade e no som, o Wilco continuava a tocar, agora com a música 'Shake it Off'. O álcool ludibriava seus sentidos e a voz e guitarra de Jeff Tweedy permeavam sua mente. Logo se pôs em pé e iniciou uma dança sensual, em volta do corpo estático de Maulin. Imitava uma guitarra com a garrafa quase vazia. Se emaranhava nos braços do amigo, esperando um afago, um carinho. Mas era em vão. Ela estava completamente bêbada, uma deplorável figura coberta de suor. Buscou algumas velas e as acendeu em volta dos pés do pobre coitado.

- Agora você parece uma imagem de macumba! Hahahaha! Tem até vela em volta, Má! Não é demais?

Dançava de forma delirante pela sala, gritando incontáveis "saravás". E dava mais risadas.

- Querida estátua, brindarei sua doce imagem com o último gole. Ainda bem que você está com esse bocão aberto! Hahahahaha! Se não eu ía abrir na base da porrada! Ouviu? Na base da por-ra-daaa! Hahahahaha!

Caiu no chão ao tropeçar em si mesma. Levantou rindo e amaldiçoando as próprias pernas. Alcançou a garrafa e despejou o doce e valioso líquido na boca de Maulin. Ele não apresentava reação aparente. Mas um comichão em sua bochecha o fez balançar o pé, que não foi percebido pela sua ébria amiga. O paladar:

- Que porra de vinho é esse na minha boca? - pensava Maulin

Agnes se levantou aos trancos e barrancos, com passos vacilantes. Ergueu os punhos para o céu e soltou algumas blasfêmias. Colocou a mão direita nos olhos enquanto a mão esquerda repousava no quadril. Nada parecia funcionar. Maulin era irredutível em sua atração mágica. O Wilco continuava tocando no som, na bucólica 'You Are my Face'. Ficou desanimada com os arranjos melancólicos e desligou o aparelho, puxando o fio da tomada. Do nada, a embriagada mulher soluçou, estalou os dedos e se agitou:

- Aha! Música! Os discos dele! - pensou Agnes com expressão de euforia, com olhos acesos e inquietos.

Todos aqueles vinis empoeirados, guardados naquele baú de palha envernizada, lacrados por um pequeno cadeado. Claro que se alguém desse uma martelada naquele cadeadinho, poderia violar facilmente o baú valioso. O cadeado era um emblema, que passava a idéia de que ali dentro do baú, havia algo de valor inestimável. Agnes correu até a cozinha, batendo o calcanhar violentamente contra o chão (fato que rendia diversas reclamações dos vizinhos do andar abaixo). Voltou novamente triunfante, com um martelo de bater bife. Mas nas mãos de Agnes, o simples martelo se transformou numa espécie de Excalibur. A espada que iria libertar todos! Se hesitar, voltou ao quarto, à base do calcanhar. Com olhar maligno 'trucidou' o pobre cadeado, e ele não ofereceu muita resistência, caindo na terceira martelada. Abriu o baú ao som de sua risadinha endiabrada. Vislumbrou discos realmente empoeirados, poeira que se misturava com gotas de suor que caíam das maçãs do rosto de Agnes.

- Oh! Velvet Underground! Beatles! Alan Parson's Project? Não sabia que ele gostava dessa joça! Hahaha! Agora ele acorda!

Saiu correndo com dezenas de vinis nas mãos, saltitando como sempre, com seu calcanhar pesado. Despejou os vinis na mesa de jantar, feita em madeira maciça e os enfileirou desordenadamente ao longo da extensão da mesa.

- Quem eu destruo primeiro, amorzinho? Sonic Youth!

Crash! Menos um 'Daydream Nation' no mundo.

- Próximo! Vamos ver, vamor ver... Beach Boys!

Crash! Menos um 'Pet Sounds' no mundo.

- Agora Miles Davis! Tchau neguinho!

Crash! Menos um 'Kind of Blue' no mundo.

À medida que os vinis era estilhaçados sob marteladas, alguns destroços se chocavam com a pele de Maulin, que permanecia parado, fitando a lâmpada. E Agnes era implacável em seu ofício tenebroso, dando ao martelo algo mais nobre que bifes para bater. Os estilhaços voavam sem parar contra o pescoço de Maulin até que uma ponta afiada espetou sua bochecha. O êxtase de Agnes continuava enquanto dúzias de discos era covardemente estouradas. O tato:

- Que porra de fagulhas são essas me cortando? - pensava Maulin

Após quebrar os 184 discos da coleção do amigo, Agnes deitou em meio às pontas de vinil e começou a rolar aos prantos, enquanto o corpo era dilacerado:

- Meus Deus do céu! Olha pra mim, desgraçado! Me dá atenção, só um pouco! Preciso te contar algo! Estou apaixonada por você, Má! Pare de olhar pra essa luz desgraçada!

De repente Maulin sentiu seus nervos pinicarem, em todo o corpo. Começou a tremer, a pular, mas curiosamente mantinha o rosto voltado para a lâmpada. Ele começou a correr em volta da mesa, tremendo, saltitando, como se algo quisesse ser expulso de seu corpo. Agnes observava incrédula os movimentos de seu amigo. Levantou bruscamente e correu atrás de uma vassoura. Encontrou um rodo. Segurou firme no instrumento de limpeza e desferiu golpes contra a nuca de Maulin. No oitavo golpe, Maulin gritou:

- Apaga a luz, biscate do caralho!

Agnes alcançou o interruptor e fez o que deveria ter feito desde o início. A luz se apagou e Maulin piscou. Caiu rapidamente no sofá e levantou na mesma velocidade, segurou o rodo com firmeza e em seguida o lançou longe. Chutou as velas que estavam acesas ao seu redor. Segurou o pescoço da amiga com força e levantou a outra mão para acertá-la na boca. Nesse pequeno espaço de tempo, Maulin observou a cena "lúgubre". A luz da lua atravessava a porta da sacada da sala e exibia vultos de uma batalha. Ele acendeu o abajour e caiu de joelhos: charutos partidos pela metade, a garrafa de Romanée-Conti caída com macarrão por cima. Pontas de vinil por todas as partes (algumas rasgaram seu joelho ao cair no chão). A mão dele continuava firme, presa ao pescoço de Agnes. Ela por sua vez começou a se contorcer e, num relance, vomitou abundantemente no peito de Maulin. Imediatamente ele se jogou para trás, encostando suas costas no chão e se cortando ainda mais.

Sua visão ainda não estava boa e começou a esfregar os olhos. Arrastou-se até o banheiro, molhou o rosto. Parecia que estava em plena ressaca. Deitou em sua cama, que estava intacta e desejou a morte. Depois de três horas descansando a vista, acendeu a luz e notou que a pequena adega estava aberta. Fechou os olhos ao notar que o Romanée-Conti estava ausente. Ensaiou um choro, mas nada saía. Olhou ao lado o baú violado, com capas de discos pelo chão, invadindo o corredor. Não podia ser possível. Foi cambaleando, morrendo de dor de cabeça até a sala e viu Agnes deitada, rendida ao sono. A sala estava semi-destruída. Nenhum aparelho de som, televisão ou de DVD havia sido destruído. O computador estava intacto também. Mas ele não entendia nada, o que ocasionou tudo aquilo? Maulin só lembrava de muita luz. Clarões e mais clarões. Ele fechava os olhos e ainda uma bola de luz se exibia. Foi para a sacada com um pedaço de charuto que achou junto ao seu pé e o acendeu. Sentou em uma cadeira e cruzou as pernas. Alguns carros passavam, a lua estava prateada e desafiadora no céu. Baforou algumas vezes enquanto uma brisa brincava com seus cabelos. Queria dormir mas não conseguia, até que o dia raiou e nem um bocejo surgia em sua boca.

- Céus, o que aconteceu? Vou ligar pro médico.

Eram oito e meia da manhã e Maulin ligou para o doutor Schillo.

- Alô, por gentileza, o doutor Schillo?
- Doutor Schillo acabou de chegar, senhor. Quem gostaria? - respondeu a recepcionista com voz fanha e sonolenta
- Diga que é Maulin.
- Um momento por gentileza.

A nona sinfonia de Beethoven tocava em tons monofônicos.

- Dr. Schillo, pois não? - atendeu o doutor com voz grave e desinteressada
- Fala esquilo! Como andam as coisas lá na árvore? Hahahaha!
- Maulin, você sabe que eu detesto essa piada de esquilo! Vai marcar algum exame?
- Não, doutor. Quero saber se o senhor pode me explicar o fato de eu ter ficado horas hipnotizado, olhando pra uma lâmpada.
- Hã?
- Isso mesmo, como uma mariposa. Fiquei por horas fixado numa lâmpada, inconsciente! E a droga da Agnes destruiu tudo que eu tinha de valor, tentando me despertar!
- Como assim? Ficou fixo na lâmpada?
- É, parado, em pé, por horas!
- Olha Maulin, você "tá" inventando estória...
- Doutor, se quiser, passe aqui no meu apartamento e veja a merda que aconteceu!
- Tudo bem, Maulin, no fim do dia eu passo aí.
- Obrigado, doutor.

O dia passou lentamente e Agnes permanecia em meio ao vômito, deitada. Maulin não sabia o que fazer até que no começo da tarde cochilou, mas acordou a tempo de ouvir a campainha.

- Quem é? - perguntou Maulin, se desviando de cacos de vinil.
- Sou eu Maulin, doutor Schillo.

Maulin deu uma risada, ao ouvir o nome dele e abriu a porta. O doutor Schillo cumprimentou o paciente e entrou com cuidado. Estranhou o cheiro e a visão.

- Santo Deus! O que aconteceu aqui? - perguntou o doutor, com a mão no nariz.
- Eu não sei! Quando saí do meu "êxtase", a Agnes estava me batendo com um rodo na nuca. E eu vislumbrando um clarão que me atraía. Pedi pra ela apagar a lâmpada. Quando ela o fez, cai no sofá e fui pra cima dela. Mas ela vomitou em cima de mim e caiu no chão.
- Santo Cristo...
- Agora essa vadia destruidora fica aí dormindo na bebedeira dela enquanto eu fico aqui calculando os estragos que ela fez! Mas me diga: o que é isso? Que atração é essa?
- Olha Maulin, eu nunca presenciei um caso semelhante, mas existem casos na Europa de pessoas que passaram pelo que você passou.
- Sei, e o que seria isso? - perguntou Maulin intrigado com os discos no chão.
- Deixe-me pegar um livro aqui - falou o doutor enquanto se curvava em direção à sua mala.

O livro dizia:

"A atração é atribuída a uma desordem no sistema de localização do inseto, que o induz a esbarrar ou a circular em volta de uma fonte luminosa".

- Hã? Eu sou um inseto?
- Hum... não. Mas você teve uma desordem no sistema de localização. Você simplesmente perdeu noção do tempo-espaço e se apegou a uma lâmpada. A medicina não explica isso. Não há estudos sobre esse caso...
- Caramba, mas eu não lembro de ter ficado desorientado - interrompeu Maulin com voz irônica
- Maulin, não estou lhe chamando de louco, mas é o que acontece com os insetos, oras! Ou você já viu vacas rondarem uma lâmpada? - completou o doutor com tom de deboche.
-Tá, tá. E o que fazer?
- Bem, primeiro você deveria limpar essa pocilga, acordar sua amiga branquela...
- Como assim? Branquela? - novamente Maulin interrompeu
- Oras, olha como ela é branquinha!
- Meu Deus Eterno! - gritou Maulin com as duas mãos tapando a boca aberta.
- Ela não é pálida desse jeito?

Maulin correu até Agnes e deu um tapa na cara dela, a fim de acordá-la. Mas foi em vão. A boca de sua amiga abriu e ejetou altas doses de vômito. O cheiro era horrível. O doutor Schillo correu em direção ao corpo de Agnes e mediu o pulso. Abaixou a cabeça e disse em tom fúnebre:

- Ela está morta.

Maulin correu atrás de uma panela, encheu de água e a levou para sala, jogando o conteúdo da panela na face alva de Agnes.

- Acorda! Acorda!
- É em vão, Maulin. Ela se foi.
- Não, isso não pode acontecer. Não está acontecendo! - Maulin rodopiava pela sala exaltado com a mão nos cabelos
- Ela morreu de asfixia! Com o próprio vômito! - gritou o doutor, com a mão ainda em seu pulso.

Maulin sentou no chão e chorou, atônito, com a vista fixa num pedaço de vinil. O doutor chamou a ambulância e tentou consolá-lo.

- Poxa, eu nem sei o que dizer.
- Só me diga uma coisa: o que aconteceu comigo?
- Eu não sei! Não faço a mínima idéia! Preciso estudar isso, mas é difícil, não é da minha área. O fato está mais ligado à neurologia. Mas vou agilizar uma equipe, vai ser interessante descobrir isso.
- Céus, preciso de um trago - disse Maulin, se dirigindo à sacada.

Os homens da ambulância chegaram rapidamente e retiraram o corpo de Agnes. Maulin chorava copiosamente ao observar sua amiga ir embora daquela forma.

- Por que ela não apagou a luz?! Por quê?! Problemática desgraçada! Burra, estúpida! Era só ter apagado a luz!

Correu pelas ruas até um bar. Pediu um whisky ao atendente. Despejou uma nota de cinco reais no balcão e bebeu a dose em um gole. Pediu outra dose e a bebeu da mesma forma. Na oitava dose, com a cabeça girando e o corpo em frangalhos interagiu com um velho, mosca de bar:

- Não fique assim, filho. O que aconteceu? - perguntou o velho
- Eu me fixei à luz e graças a isso, minha amiga morreu.
- Como? Sua amiga morreu porque você se apegou à luz?
- Sim, enquanto eu estava firme na luz, ela encheu a cara e morreu.
- Mas porque você não a levou pra luz enquanto havia tempo, rapaz?
- Esquece. Ela morreu com classe. O porre fatal mais caro que conheci.
- Malditos jovens confusos. Pros diabos! - disse o velho mudando de cadeira.

Maulin tomou mais 7 doses e não suportou a força das bebidas e desmaiou, caindo aos pés de uma mesa de bêbados. Alguns olharam e não se manifestaram. Maulin permaneceu ali, desmaiado na sujeira, indiferente aos olhares das pessoas. De repente, ele vomitou.

sábado, dezembro 22, 2007

Nota mental

"Eu sou curioso por demais, questionável por demais, animado por demais para poder aceitar uma resposta esbofeteada. Deus é uma resposta esbofeteada e grosseira, uma indelicadeza contra nós os pensadores - apenas uma proibição grosseira e esbofeteada contra nós: vós não deveis pensar!"

Friedrich Nietzsche - Ecce Homo

Posso argumentar o dia inteiro com você sobre isso. Quer?

Espiritus Natalinus (é o) Caralhus (e meu) Ovus

"Desejo que seus sonhos se realizem no ano de 2008"

Geralmente essa frase vem junto a um abraço efusivo e um chacoalhar de mão no seu ante-braço. Mas com os diabos: a não ser que eu ganhe na Mega Sena ou que eu roube um banco, meus sonhos não vão se realizar em um ano apenas. Ou essas pessoas têm a prepotência de achar que sabem dos meus planos, se estou à beira de ficar rico? Me deixem, raposas malditas!

Parasitas, falsos cristãos! Só são seguidores do Cristo no fim do ano? Com seus alentos de araque, com seu natal fajuto, com a reunião pífia de familiares que nunca se dão ao trabalho de se ver durante o ano e hipócritamente prezam pela tradição de reunir a família.

Deus, salve o divórcio! Que o menino Jesus com sua rola pequena e singela, salve as separações e anulações! E que os anjos cantem: ADULTÉRIO NAS ALTURAS! DINHEIRO NA TERRA AOS HOMENS DE MÁ VONTADE!

E o espírito de natal silva como uma sucuri, pelas sarjetas e ruas, rumo aos boeiros e esgotos, assim como os reis magos rumavam para Belém, afim de presentear o seu messias.

Apóstolos de Cristo: não cansaram de ler fábulas no Velho Testamento? Tinham que criar as suas também? Sorte de vocês que a tradição impera entre a ignorância e azar o nosso porque Nietzsche ficou lélé da cuca.

Quem nos salvará da manjedoura? Dos peixes e os pães multiplicados? Do mar congelado e trafegável? Quem nos salvará dos demônios de Judas Iscariotes? Ou quem nos salvará da cruz e seus três dias de decomposição?

Cristo ascendeu ao céu, palmas! O cristianismo ascendeu ao Vaticano, palmas! O 25 de dezembro pagão ascendeu à nossa cultura, palmas! E você provavelmente descerá ao inferno, palmas, em pé!

Espirrei sem querer e foi catarro pra todos os lados. Alguém me empresta o Santo Sudário pra eu limpar aqui?

quinta-feira, dezembro 20, 2007

A Dança da Ambição

O universo dança um maldito balé ao som da oitava sinfonia de Mahler. Suavemente se desenrola, abrindo sua maldita sacola de surpresas e lançando ao ar brilhantes diamantes que aumentam nossa ambição, para nos fazer podres hienas, sorridentes, que não sabem do que rir. Apenas mostramos nossos dentes, em sinal de desdém em relação a vida. A neurose espontânea e constante nos embaraça ao nos entrelaçar junto a vida, num nó apertado, como de marinheiro que navega por mares distantes, não distantes da família, mas de seu vício: as ruas. Ruas essas que conduzem largos passos de ninguém. O ninguém que pode ser você, batendo pernas em meio a uma piscina de lama ambiciosa. Aquela ambição brilhante como diamante. Será que tem valor? Seria um zircônio?

Nós não podemos, ó Deus, nós não podemos!

Abre seu peito, incrível mestre platinado. Abre seus olhos, mentor incandescente. Os caminhos não são o que você parece, pupílo, pupíla dos meu olhos. Saiam vapores da madrugada, ganhem suas vias, aqueçam os vermes que se aglutinam e se amontoam em meio à falsa, à zircônica calma de alguns minutos onde ninguém ambiciona. Onde o sono cobre por instantes o vigor do querer.

Te quero, te desejo. Você é minha ambição. O infinito não é mais sem fim, graças a você.

Violinos, dilacerem minhas veias coronárias, obstruam o oxigênio. E o balé que agora meu sangue dança, ainda ao som da oitava sinfonia de Mahler, se torna cada vez mais dramático enquanto a previsão de minha morte se desenha em papéis opacos e obscuros. Ah vida! Como sinto sua falta aqui na terra de ninguém. Aqui na terra de você. Como sentirei falta de vocês, meu amigos.

Até terminar, seremos assim. Não pare a luta, carneiro de ouro. Muitos ainda hão de se prostar diante de sua imagem de distração. Nem vinte mandamentos segurariam um povo tão ambicioso. A ambição de trair, a ambição de conquistar terras de um dono que não conhecem. Nem trinta mandamentos, Deus, nem trinta. E Canaã está distante, EU SOU!

Somos amaldiçoados por um mal que não sabemos de onde veio.

Lúcifer, de onde você surrupiou o mal?

domingo, novembro 18, 2007

Chuva, Whisky, smog e Anotações sobre a vida no litoral

Longe da soturna e efervescente São Paulo, me vejo diante de uma tarde de chuva e relâmpagos em Ubatuba. Sozinho em casa e sem a menor satisfação com essa 'nova vida', sentei numa cadeira no lado de fora da casa e alcancei meu maço de cigarros. Carlton. Os Luckies estão em extinção nessa terra. O atendente do bar Campeão me prometeu Luckies para segunda. Aposto que serão Luckies vermelhos. Tô fodido. Olhei para o céu, a tonalidade do cinza escurece a cada segundo e me traz mais saudade, de São Paulo, daquela camada opaca de poluição que eu costumava ver do vigésimo segundo andar. Pensei num som que poderia ouvir, para me afundar nessa pseudo-depressão que venho desenvolvendo. Mesmo com minha mãe por aqui, não vejo motivos para me integrar nesse novo estilo de vida. O som escolhido foi do Smog. Engraçado, esse nome nos EUA é usado para classificar um tipo de poluição: smoke + fog = smog - o que aumenta a minha saudade de São Paulo. Smog também é um nome pelo qual o grande cantor Bill Callahan é conhecido. Por Cristo, ele me entrega de bandeja toda a conformidade necessária. Essa voz sombria e grave misturada com arranjos mais sombrios ainda me fazem repousar no sofá, ao lado da case de CDs, com uma garrafa de Passport junto ao meu pé. Dou um gole generoso na bebida e observo aqueles mosquitos de fruta planarem sobre o bico da garrafa. Logo pego meu isqueiro e acendo-o, tendando espantá-los. Em vão. Foda-se. Minha testa começa a umedecer graças ao maldito suor, graças ao maldito calor dos trópicos. Dou mais um gole e "Dress Sexy at my Funeral" começa a circular pela sala. Sempre achei os arranjos dessa música muito bons, mas a letra é demais. Quem falaria isso para a sua mulher?

Dress sexy at my funeral, my good wife
For the first time in your life

Meus pés não param de balançar, graças à ansiedade que permeia minha cabeça. Ontem eu fui surfar (ou tentar surfar), no começo da tarde. Pode parecer incrível no começo, a sensação de liberdade, pensar quem em Sampa o pânico da vida proletária se instaura o dia todo, enquanto eu estou na praia Vermelha, pensando e analisando qual a melhor onda pra pegar. Mas é nisso, no mundo paralelo que gira em São Paulo, é ali que mora o maldito dilema. Essa não é minha vida. Estou roubando miseravelmente a vida, o sonho, as pretensões de muita gente que merecia estar em meu lugar. Estou aqui por acaso. Pra muitos é sorte. Pra mim é azar. Eu não consigo relaxar. Fico calculando, maquinando o modo que verei a Mih, quantos dias faltam, quantos já passaram. Ela mora no meu coração e pensamento. Não há diversão, não há vantagem alguma em ficar longe dela. Não dá certo. Adoro ficar só por algumas horas ou dias, mas adoro a idéia de vê-la pelo resto da vida ao meu lado. Mas não é tão simples assim.

Tomo mais um gole e Smog permanece mexendo nas feridas. Filho de uma puta.

Aos poucos estou ficando bêbado e a sensação é boa. Não me digam que a bebida é a fulga do fraco. Foda-se, estou fraco e não adianta cobrar força. A única força que encontro é quando ouço aquela voz doce e feliz da Mih. Acendo mais um cigarro e mais um gole de whisky desliza por minha garganta. O vizinho carioco passa de bicicleta e nem cumprimenta. Melhor assim. Flamenguista é tudo a mesma merda. A chuva por aqui parou, foi pro mar. Sim, o mar, o cara mais genioso e controverso que existe na Terra. 'Mar na Terra' que contradição. Acho legal passar pela zona pesqueira e ver aqueles homens sofridos, marujos, transportando sua pesca para peixarias. Até pensei em descolar um trabalho nessas peixarias. Aliás, seria legal ficar a noite inteira num barco pesqueiro, sem ouvir nada, só o mar, o genioso:

- Opa! Um peixe!

Aí eu ficaria lá lutando contra aquele maldito ser delicioso. Puxaria a linha, após um grande embate e veria o Robalo, bonitão. dez quilos. Um pescador disse que pegaram um robalo de vinte e seis quilos há dois dias atrás:

- Uns caras pegaram um Robalão de vinte e seis quilos ali no encontro do mar!
- Caralho! Mas vem cá, não é estória de pescador?
- É nada, rapaz! Já venderam ele!
- Imagino que foi bem caro...
- Foi sim, uns duzentos e cinqüenta conto!
- Porra, acho que vou pescar.
- Não é pra qualquer um!
- É, pode crer.

O filho da puta estragou meu sonho de pescar um peixão. Eu sou mais um, tudo bem. É assim em São Paulo também. Ninguém tem rosto, rola, boceta ou alma. Somos um número. Eu sou um número de onze dígitos do meu CPF. Mas sinto saudades da burocracia e frieza do sistema.

Aqui todo mundo se cumprimenta (menos o carioca flamenguista). Destesto isso. Você passa dez vezes pelo mesmo cara e ele te diz 'bom dia', 'boa tarde' e 'boa noite'. Santo Cristo da Silva, um 'bom dia' já basta! Mas não para eles, isso é insuficiente para satifazê-los. Tive o infortúnio de conhecer um traficante de drogas e armas aqui em Ubatuba. E todo dia ele aparece na rua, no Centro, na praia, nas praças, até no bar onde bebo. Maldita fatalidade de cidade pequena. Em Sampa conheço milhares de pessoas e nunca as encontro perambulando pelas ruas. É um milagre achar um conhecido nas ruas de São Paulo. Prefiro assim. Aqui, os mais velhos são corteses. Eu estava bebendo no bar e avistei um caiçara com seus quarenta e cinco anos. Pochete cruzada no peito, bigode farto e músculos, muitos músculos espalhados caprichosamente por todo o corpo. Pensei que se eu arrumasse briga com ele, deveria chutá-lo no peito, uma solada impulssionada com todo o meu peso, e fugir, correr como nunca. Mas de repente o meu suposto adversário me cumprimenta como se eu o conhecesse há anos. Quebrou minhas pernas. Eu com pensamentos ímpios e perversos e ele com sua simpatia natural de quem vive despreocupadamente na praia.

Quando fui a Porto Alegre, Florianópolis, Curitiba, Rio de Janeiro entre outras cidades grandes, me gabava por morar na locomotiva do Brasil. Eles ficavam putos, se defendendo, citando as vantagens de viver como um europeu em Porto Alegre ou por ter o mar para relaxar no Rio de Janeiro. Geralemnte eu mandava todo mundo se foder:

- Sem São Paulo vocês não seriam nada! Fodam-se!
- Mas nós temos praia, brother! - replicava o carioca
- Quem máné brother! São Paulo é a cidade que leva vocês nas costas!

Sempre a superioridade paulistana. São Paulo, a cidade que não para. Sendo sincero, muita da nossa força vem de braços nordestinos, mas quando o assunto é 'crescer', fale com um paulistano. Deviam fazer um adesivo com os dizeres: "Não há prosperidade sem um paulistano", igual àquele da OAB que diz: "Não se faz justiça sem advogados". Da hora. Mas aqui em Ubatuba eles estão pouco se fodendo com sua superioridade. Eles não precisam de prédio, não precisam de carros (todo mundo anda de bicicleta). Nem adiantaria eu me gabar. Aqui eu sou gente, tenho rosto, rola e o CPF não significa muita coisa. Detesto isso. Às vezes abro minha carteira e fico olhando pro CPF, pro RG, pra carteira de habilitação. Eu existo no sistema. Isso é bom! Eu sou um número de onze dígitos andando por uma utopia de felicidade! Caralho, o whisky subiu.

E as bicicletas? Aqui é unanimidade. Todo mundo, ricos ou pobres, tem a sua. Garotas com coxas rígidas e torneadas desfilam pelas ciclovias. Aqui as garotas levam tudo em suas bicicletas. Compras, filhos, cachorro e até o marido (juro que vi isso). Em Ubatuba luxo é ter um teto pra morar, uma prancha, uma amor e uma bicicleta. O resto é pedir demais. O Smog está finalizando a seleção de canções e o whisky está acabando. O céu está abrindo e escurecendo. Minha mãe já chegou e me ofereceu suco de limão duas vezes. Recusei duas vezes. Suco, suco, saúde. E eu aqui bebendo whisky. Sem gelo, puro. Sei que suco de limão com whisky vira Sour Whiskey, mas tô na manha do cowboy, bebendo no gargalo sem gelo, à seco. Foda-se.

Deixo minha vista passear e avisto montanhas, montanhas e mais montanhas. Grilos emitem seu som peculiar e as ruas já têm sua iluminação. Faz tempo que não ouço uma sirene. E tudo o que vejo são castanheiras, bananeiras e todas as outras 'eiras' da natureza. O calor permanece, teimoso, malandro, enchendo meu saco. Acho que são sete horas da noite. Estou seriamente bêbado e acho que vou pro meu terceiro banho.

Erich, Diego, vocês deveriam estar aqui.

Mih, te amo.

Caralho, meu cinzeiro está uma catástrofe. Preciso esvaziá-lo.

Foda-se o banho. A cerca do infeliz do vizinho está estourada e ele nem mora aqui, só na temporada. Hoje à tarde teve arco-íris. Sou paulistano, tudo é monocromático pra mim. De repente vejo um arco exibindo sete cores. Preciso de um oftamologista.

Conheci um surfista de alma pura, cada ato, cada palavra de uma pureza semelhante a de um monge budista. O cara tem trinta e sete anos com cara de vinte e cinco. Planta bananeira no asfalto por dez minutos. Surfa todos os diase como ele diz, tem sempre pensamentos positivos. Embora eu veja uma felicidade escancarada em sua face, nada de "good vibrations" me interessa, só a música dos Beach Boys. Não desprezo pessoas assim, eu as admiro. Como conseguem ver as prezepadas de Deus sob olhar otimista. Pessoas são assassinadas aos milhares e as pessoas ainda dizem que 'Deus é amor'. Precisam daquela cirurgia de catarata. Cegueira demais! E eu olhando o mundo com as lentes da realidade, mesmo que o arco-íris seja preto e branco, me sinto feliz. Mas me entrego à teoria de que a maresia contém substâncias tóxicas. Todo mundo é feliz e cego. Hoje li que o cloreto de sódio (vulgo sal) em excesso, pode ocasionar a cegueira. Acho que o sal marinho vem assolando o litoral. Santo Deus, cocaína, anthrax e agora outro pó: o sal.

Finalizei a garrafa! Fui atender o telefone na sala e ao subir as escadas de madeira pra voltar aos escritos, tropecei trágicamente, de forma mágica, me agarrei ao corrimão e gritei:

- Ê, bêbado!

Ainda há uns dois dedos e meio da bebida que despejei no copo, os últimos goles da fulga. Meus dedos doem em meio a pequenos calos que surgem. Faz tempo que não escrevo com caneta e papel. Só computador. Estou ébrio e as letras não passam de garranchos. Preciso de um equilíbrio perfeito - leia-se Carlton.

O dinheiro aos poucos se esgota, mas dia catorze eu saco a primeira parcela do meu seguro-desemprego. Viva o Brasil! Pagando minhas bebedeiras. Deus salve meu país tropical e claro, o número do meu PIS. Essa grana garante que sem cigarro e whisky eu não fico. Garante também alguns caprichos, como passar na zona pesqueira e comprar um bom peixe. Porra, aqui a sardinha sai a dois reais o quilo. E aqui tem livraria Nobel. Preciso de um novo livro. Estou terminado o "Espere a Primavera, Bandini" de John Fante e me desespero sob a perspectiva de não ter livros pra ler. Estou esperando o lançamento de "Pulp" do Bukowski (a L&PM prometeu o lançamento pro fim deste ano). Diabos, não há mais espaço para gimbas de cigarro no cinzeiro. O cinzeiro parece o ônibus de Sampa às seis da manhã.

Ônibus, aqui são poucos. Acho que o prefeito vê as bicicletas, enxames de bicicletas (qual é o coletivos de bicicletas?) e fica tranqüilo: o povo faz seu transporte coletivo. Pegar ônibus aqui é roubada. É preferível andar a pé que esperer um ônibus num ponto. Os ônibus são amarelos e bonitos. Mas isso não seduz a massa caiçara. Você pega a condução e em cinco minutos está em seu destino. Andar é realmente o bom negócio. Você pode andar pela praia deixando o mar refrescar seus pés. Aí você gira e só vê mar, montanhas cobertas pela remanescente Mata Atlântica. E gente de bicicleta. Aqui você anda oito quilômetros a pé tranqüilamente: o terreno é plano.

De repente você se depara com as ruas de Itaguá, praia badalada infestada de restaurantes chiques. E quando você caminha por lá, caminha numa via crucis, rumo ao calvário da fome. Os restaurantes anunciam na cara dura os pratos sugeridos: Peixe à putanesca, Lagosta à carnavalesca, marisco a cachacesca e todas as 'escas' da gastronomia mediterrânea. O cheiro te eleva à milésima potência da fome numa equação torturante. E eu, malandro que sou, saio sempre com dois e cinqüenta, o suficiente pra beber uma cerveja e rebater o calor. Permaneço com fome. Mas tudo bem, a padaria tem uma ótima coxinha e descobri na zona pesqueira, um barzinho refinado, que vende a fatia do cuzcuz marroquino por três e cinqüenta. Vale cada centavo.

A vida continua, estou me intrometendo no sonho de muitas pessoas, vivendo a felicidade que pra mim é melancolia. São Paulo, continue na luta, crescendo. Em breve estou de volta.