terça-feira, março 31, 2009

Que Saudades Disso!

Quase deixei o bule cair na pia. Bem, ao menos seria na pia. Mas o café estava bom, seria um desperdício deixar ir pelo ralo um êxito raro como aquele. A caneca estava cheia assim como a vista do meu apartamento: cheia de perdição e luzes piscando. Fiz cara de pirraça mesclada com descaso e alcancei meus cigarros. O computador já estava ligado, e na tela alguma notícia idiota que encontrei em algum portal idiota. Sempre tenho momentos onde esvazio a cabeça e fico procurando por notícias excêntricas, sei lá, vai entender. Eu não me entendo mesmo.

Em meio aos pigarros, acendi um cigarro e voltei a minha caixa de e-mails. Em menos de dez minutos chegaram quatro e-mails novos. Não, não quer dizer que eu seja um cara procurado. Eram apenas anúncios de sites de contrabando, de leilões via internet e essas merdas virtuais. Até que abri o quarto e-mail. 


achei que aquela coisa do verve earth fosse mais uma das inutilidades de internet
mas ainda assim, resolvi fuçar e me dei com teu blog


gostei muito! 

Diabos, me agitei na cadeira, matei o café ainda quente e repousei o cigarro no cinzeiro. Ergui minha postura e respondi a mensagem.

babe, vou pegar um tempo pra me esbaldar com tanta coisa boa no seu blog e flickr!! 
 
e que bom que gostou! 
passe mais vezes!
 
beijo

Queria ser mais esnobe, mas a verdade é que não podemos deixar escapar um elogio. Ainda mais de um ser tão misterioso que assinava seus e-mails com um simples 'M'. O mistério evaporou quando olhei o endereço dela. O nome era Marisa. Perfeito. Voltei às minhas notícias bizarras. 

NOIVA BRIGA E PASSA NÚPCIAS NA CADEIA

Diabos, o quê eu tinha a ver com aquilo? Mesmo assim cliquei no link. Dei risadas, muitas risadas. Maldito artigo curto. De repente uma notificação do meu messenger: Marisa Lemos quer te adicionar. Me ajeitei novamente na cadeira e logo aceitei o convite. Aguardei ela aparecer on-line entre meus contatos. Aguardei. Dois minutos e nada. Voltei para as notícias.

CARTÃO POSTAL É ENTREGUE COM 47 ANOS DE ATRASO NOS EUA

Eu fico pensando se fosse um cartão postal do World Trade Center enviado em 2000 por uma garota caipira  aos seus pais no Alabama. Em 2047 eles iriam se perguntar: que porra de torres gêmeas são essas? 

Arrotei e arrotei novamente. A Marisa ainda não havia aparecido e eu fui correndo pra cozinha encher minha caneca novamente. Voltei e pigarreei. Ela estava on-line. Estalei os dedos da mão e comecei a conversa. Uma garota inteligente de vinte anos. Linda, designer de mão cheia e especialista em literatura russa. Eu sou um cara que conversa sobre tudo, e quando começam a se aprofundar num assunto, fujo pra outro assunto similar. Assim aconteceu toda vez que ela enveredava para conversas sobre Dostoiévski, Turguêniev e todos os 'kis' e 'evs' da gélida Rússia. Puxei a sardinha pro meu lado e falei de um 'ki' que conheço muito bem: Bukowski. Ela torceu seu nariz virtual e eu dei o dedo do meio para a tela. Tudo bem, ela era linda. 

- Estava afim de tomar um café, babe - digitou a doce Marisa.
- Onde? - digitei olhando no relógio do Windows.
- Num lugar que seja neutro, meio termo.
- Onde você mora, coração? - constatei que já eram onze da noite.
- Vila Madalena. E você?
- Vila Mariana.
- Que tal Paulista?
- Pra mim tá bom. Daqui uma hora te encontro onde?
- Perto do Milo tem um ponto de ônibus, um pouco antes de virar na Angélica. Me espere ali, ou eu te espero ali, sei lá.
- Pra mim tá bom. Qualquer coisa te ligo - respondi dando uma indireta. Ela cairia na minha armadilha?
- Ah sim, anote meu telefone - respondeu Marisa, caindo na minha armadilha.

Mandei o meu pra ela, só pra compensar o favor e fui para o banho. Liguei o Tim Maia e o seu incrível monumento recional ao soul. Aquele baixo profundo de 'Imunização Racional' me fazia balançar a cabeça enquanto escolhia alguma calça decente. 

Uh, uh, uh, que beleza! - cantavam as backing vocals do velho Tim.

Em quinze minutos eu já estava dentro do elevador. Peguei o ônibus para a Pompéia e segui o caminho todo pensando no que ía dar. Tenho a estranha mania de pensar no pior, esperar pelo pior, assim não me decepciono. Comecei a prever o fracasso. Ela não gostaria de mim, eu provavelmente falaria um monte de merdas e ela iria me dispensar mais cedo. Tava bom assim. 

Uh, uh, uh, que beleza... - agora eu que cantava baixinho enquanto o ônibus cruzava a Paulista em alta velocidade.

Cheguei no local combinado. Fazia um frio de assustar. Coloquei minhas mãos nos bolsos da jaqueta de couro e andei a procurá-la. Passei por uma garota empacotada em seu sobretudo. Nem olhei para ela e segui o caminho. Quando estava na frente do Milo procurando por ela na fila imensa que se formou à frente da casa de rock, recebo uma mensagem no celular.

"Era você o cara barbudo de jaqueta de couro que passou aqui nesse instante?"

Dei meia volta e apertei meus passos. Diabos, era a garota empacotada.

Cheguei ao ponto de ônibus e lá estava ela sentada, olhando para a frente. 

- Marisa? - perguntei enquanto guardava meu celular no bolso.
- Sim! Você é o Fernando? - respondeu ela com dentes perfeitamente alinhados.
- Sou eu! Caramba, nem desconfiava que fosse você! Desculpa, coração.

Peguei-a pelas mãos e dei um beijo em seu rosto. Rosto branco e gelado. Ela usava luvas nas mãos. Achei legal, embora não tenha sentido nenhum calor do corpo dela, nem no rosto e nem nas mãos. Fomos beber na Bela Cintra e enquanto caminhávamos, pensava que poderíamos ter nos encontrado no metrô Consolação. Seria mais fácil, mais claro. Resumimos nossa conversa à noite gelada e a algumas personagens que cruzavam nosso caminho, como o mendigo que me pediu dinheiro (eu sou o grande para-raios de mendigos). Paramos no Exquisito! e ao entrar, olhei para a Funhouse no outro lado da rua e lembrei das minhas putarias. Balancei a cabeça e entrei no lugar. Povo muito moderninho pro meu gosto, igual na Funhouse. Fiz minha cara de superioridade, sorri para o atendente que retribuiu o sorriso. Sentamos numa mesa junto à parede e pegamos o menu. Eu estava um tanto incomodado e olhava para todos os lados, toda hora. 

- Eu amo cachaças! - disse Marisa com risada infantil.
- Eu também amo cachaça!
- Nãaaao, babe! Eu digo aquelas artesanais!
- Ah sim... eu gosto muito também, em nome de Deus! - disse em meio à risadas.
- Ai não me fale em Deus, eu não acredito nele - desconversou com cara de bacalhau (coisa que nunca vi na vida).
- Desculpe cortar seu tesão, babe.
- Hummm não cortou não...

Sem a mínima intenção, descobri que ela queria algo mais que cachaça. E as cachaças chegavam, uma atrás da outra, sempre de um estado diferente. Uma era capixaba, que foi a melhor, diga-se de passagem. Outras três de Minas e claro, apareciam de São Paulo e Goiás. Bebíamos num gole só, e comecei a ficar alegre. Enquanto coçava minha cabeça, olhava para ela, tão doce e tão bêbada. 

- Fê, vamos sair daqui, estou trêbada, hahahaha!
- Claro, coração, deixa eu pedir a conta... - respondi sentindo dores no bolso.
- Eu pago tudo, babe, deixa comigo!
- Que tal racharmos? É mais justo - disse eu apenas para parecer um cavalheiro.
- Tá certo, babe!

Pagamos a conta e ela levantou de uma vez. Fiz cara de piedade quando ela segurou na cadeira da mesa ao lado para se apoiar. Coloquei o braço dela em volta de meu ombro e fui carregando-a, meio arqueado, graças a baixa estatura da doce e ébria garota. Decidimos rumar para algum bar ali na Pamplona, onde depois dela se recuperar, poderíamos entrar na DJ Club e curtir o final da noite. No caminho, ela dizia ser lésbica e que queria fazer sexo com um homem, só que o penetrando com aquelas cintas que têm um pinto de borracha acoplado. Arqueei minha sobrancelha direita e me afastei um pouco. Ela deu uma longa gargalhada e apertou minha bunda. 

- Diabos, quero ver ela gargalhar quando eu colocar meu pau na xoxota dela - pensei com o segundo sinal de malícia que apareceu em minha cabeça naquela noite.

 Chegamos ao bar Verdinho e Marisa estava mole, se arrastando pelas paredes. Encontrei um velho amigo no bar e um monte de desconhecidos com ele. 

- Onde vende cocaína nessa porra? - perguntou Marisa à atendente do balcão.
- Caralho man, tira essa mina daqui, olha o que ela perguntou! - me alertou Vinícius, meu amigo.
- Tô saindo fora, fica de boa.

Peguei ela o colo e sai andando pela Pamplona. Ela gritava muito e eu já constrangindo, coloquei-a no chão e perguntei, como se perguntasse à uma criança:

- O que você quer, coração?
- Vamos para minha casa!
- Mas você mora na Vila Madalena, e eu não tô afim de andar até lá. 
- Vamos de taxi!
- Quero ver alguém aceitar débito nessa hora ainda.
- Deixa que eu pago, tenho grana em algum lugar.

Chamamos um taxi e ela começou a usar um sotaque de Pernambuco.

- Sinhô motorista, mi lévi pra Vila Madalena?
- Claro que levo, hahahaha! - respondeu o taxista em meio a risadas.

Elas estava realmente chapada, e tudo o que eu fazia era dar um cafuné de leve. Estava temendo que ela vomitasse no meu colo. Eu estava bêbado, mas acho que minha preocupação cortou a brisa.

Chegamos ao prédio dela e ela, trôpega, se arrastou como uma aleijada trêmula até a porta do seu prédio. 

- Peraí, bichinho... a chave está aqui. Não si aperreie, bichinho - continuava em seu sotaque pernambucano.
- Olha só, babe, eu já vi a chave. Dá aqui - falei colocando a mão na bolsa dela.
- Mas tá cheinho de chave aí, tu num vai achá a certa, bichinho.
- Por Deus, babe, pare com esse sotaque.
- Tá, tá, eu paro - e começou a soluçar.

A cena era triste e cômica: Marisa tentava de qualquer jeito enfiar a chave na trava, mas como um michê drogado, não acertava o buraco. Ela começou a riscar a porta. E eu a ficar impaciente. Puxei a chave da mão dela e abri a porta.

- Maria! Maria! - ela chamava pela zeladora - Maria! Ligue o elevador!

Maria apareceu injuriada, com o cabelo todo amarrotado. Quando me viu, arrumou o cabelo de qualquer jeito e me deu boa noite.

- Marisa, bêbada de novo!
- Só que hoje tô trazendo um homem pra casa e não uma mulher! Hahahaha! - sussurrou alto no ouvido de Maria.
- Você curou a Marisa, hein? - me cutucou Maria com uma risadinha debochada.
- Ela só precisa de um chá de picão pra ser curada hahahaha! - respondi olhando nos olhos dela. 

Maria deu um sorrisinho e se ligou que eu transaria com ela. Fechou a cara e foi ligar o elevador. Entramos no elevador e Maria gritou:

- Cuida dela, hein?
- Pode deixar, coração!

Chegamos no apartamento dela. Extremamente clean, moderno, com móveis de última moda, notebook na mesa, maconha na mesa, caneca de café vazia na mesa. Era uma moderninha. Era uma bêbada também. Ela se sentou no sofá e lá ficou. Tirei os sapatos dela e levei-a para a cama. Ela começou a rir, deu um salto e alcançou um LP do Chico Buarque. Malandro. Colocou a primeira faixa e A Volta do Malandro começou a rolar solta pela atmosfera confortável do quarto dela, que contava com pisca-piscas de natal como decoração. Ela começou a dublar o Chico, se retorcendo na cama, balançando seu pequeno quadril. Quando a segunda faixa "Las Muchachas de Copacapana" se iniciou, com aqueles arranjos tropicais, comecei a mentalizar trompetes tocando sozinhos em meio a abacaxis e uma Carmem Miranda sóbria, porém graciosa. Quando abri os olhos, Marisa estava em pé na cama, duplando Ney Matogrosso e sua voz excepcionalmente feminina. O som era excelente, as caixas davam tudo de si, e eu comecei a me atentar para a performance da boneca de porcelana inebriante. Ela imitava a Carmem Miranda, e tinha um sorriso que pelos deuses, conseguiu me tirar do sério. Quando me vi, estava derretido entre os lençóis de sua cama. Estava presenciando a melhor performance de todos os tempos e ela era particular para mim. Ney Latorraca e sua voz rasgada, debochada, começou a terceira faixa do disco, "Hino da Repressão". Aquela levada de tango empolgava, e ela dublava perfeitamente, com gestos firmes e um sorriso que vira e mexe aparecia. Ela abriu uma garrafa de vinho chileno e comecei a beber. Ela dava uns goles e me devolvia a garrafa. Eu bebia mais e mais. Até que enfim, a pilha dela acabou e ela deitou. Fiquei sentado ao lado dela, observando cada movimento dela. 

- Foda-se, vou tirar minha roupa - gemeu Marisa, com aquele sorriso revestido de malícia.
- Fique a vontade, babe. Eu fecho os olhos. 

Fechei os olhos, e ela foi tirando toda a roupa. Ficou debaixo do edredon, enquanto eu ainda vestido, matava a garrafa de vinho. Fiquei constrangido por ela estar bêbada. Me senti um aproveitador dos infernos. 

- Fernando, me foda agora! - gritou Marisa deslisando sobre o colchão, dando risadinhas e me mordendo.
- Você está bêbada, não rola, babe. Amanhã você vai me expulsar daqui na base da porrada e não quero que o povo nas ruas me vejam sendo enxotado daqui. Tenho classe, coração.
- Cala a boca, meu! Vem me comer! Todo mundo diz que eu sou foda, que eu sou foda, que eu sou foda, mas ninguém tem coragem de me foder!
- Será por causa do seu jeitinho blasé?
- Blasé o caralho!
- É blasé sim. Você precisa de mais porres como esse!
- Tá bom, então me fode, Fernando!

Peguei ela com medo de que quebrasse de tão frágil que era e comecei a beijá-la. Mordi a nuca dela, puxei seus cabelos, joguei-a com força em seu travesseiro. Tirei minha roupa e me enfiei embaixo do edredon. Ela tinha seios médios, perfeitos para colocar a boca, cabiam numa boa taça de champanhe. Sua bunda era redondinha, e à cada apertada que dava nela, mais excitado ficava. Meu pau estava flamejando e a boceta dela oferecia o alívio. Busquei uma camisinha em minha jaqueta e com pressa, me protegi. A primeira estocada.

- Ahhhhh que saudades disso! - gritou Marisa fechando suas pernas em volta de minhas costas.
- Hahahaha! Você gosta de cobra, não de aranha! - sussurrei essa sacanagem homofóbica no ouvido dela.
- Não tire por nada essa cobra daqui!

Ela sorria, levantava os braços e a Zizi Possi interpretava a canção de Chico, "Sentimental" com tanta paixão, que quase gozei. Tá bom, eu me liguei mais nas expressões de prazer da bonequinha de porcelana. Depois de um tempo alternando posições, ela travou suas pernas com tanta força que gritei:

- Ai caralho, que merda do diabo!
- Não goze por nada... me dê seu pau, Fernando.
- Mas eu tô te dando, olha ele aí dentro de você...

Ela fez uma cara de impaciência e saiu da posição que estávamos. Tirou a camisinha do meu pau e o colocou em sua boca.

- Bem melhor que uma boceta, né? - desafiei sem êxito.

Ela não respondeu. Se concentrava no trabalho do sexo oral. Ficou por dez minutos passando sua língua em meu pau até que num momento puxei seus cabelos.

- Tira a boca que eu vou gozar!

Ela não tirou.

- Estou falando sério, tire da boca, eu vou gozar, e já não aguento mais!

Ela continuou.

- Diabos, que se foda!

Gozei litros de porra na boca dela. Ela engolia tudo. Eu ouvia cada golada que ela dava enquanto minha perna estremecia. Ela secou meu pau e caiu no colchão. Peguei ela no colo e joguei água no rosto dela. Fiz ela lavar a boca (por Deus, eu a beijaria posteriormente) e ela ainda caminhou à privada para mijar. Foi andando como um demônio errante e intoxicado até à cama. Deitou como um anjo. E roncou como Belzebu. Fiquei acordado a madrugada inteira preocupado se ela vomitaria, se morreria afogada com o próprio vômito. Nesse momento, o som já se dissipara e o silêncio estava com sua bunda gorda e estúpida sobre a situação. Ela acordava de vez enquando, me beijava e pedia pra eu dormir. 

- Tô bem assim. Agora por Cristo, durma. 

A manhã chegava e eu me levantei para fumar um cigarro. Tomei o resto de vinho que restara e me arrumei. Ela ainda protestou.

- Fique aqui, vamos almoçar juntos, pleeeease...
- Não, não. Preciso dormir na minha cama. Vou indo nessa. 

Deixei o cigarro cair no lençol da cama dela, o que abriu um generoso buraco. Dei uns tapas para apagar o mini-incêndio enquanto olhava para o rosto dela. Ela dormia e sem roncos agora.

Ela levantou, colocou um shortinho, uma blusinha e um chinelinho. Foi toda pequenininha até a porta da casa e me deu o último beijo.

- Fica aí, meu... 
- Não, babe. 

Me senti desejado por uns minutos e depois esse sentimento passou. Pensei que minha cama estaria me aguardando e foi só nisso que pensei até chegar em casa. O sol raiava de forma idiota e eu suava como um porco toda cachaça que bebi. O vento remexia meu cabelo e apagava meu cigarro. Eu praguejava pelo dia e agradecia pela noite.

sexta-feira, março 27, 2009

Apenas uma Forca

nem tudo o que arquitetamos, vira concreto
nem tudo que almejamos, vira vista
nem tudo que desejamos, vira fogo

tudo o que me resta é você e um flash de um momento bom

e quem sou eu nisso tudo? quando tudo é você quem escolhe?
quem sou eu no meu corpo, se todo o calor do meu peito
é você quem inflama
quem sou eu afinal, se tudo em mim lembra você?

minhas mãos me lembram seus cabelos
minha boca me lembra a sua
os meus olhos, a sua alma
porque eu realmente vejo sua alma
brilhante

qual é o meu espaço? se você ocupa tudo?
quem é você, afinal?
amor ou desilusão?

diabos, pareço o jovem Werther de Goethe
e eu achava que não seria mais assim
ao invés de pistolas para me matar por esse amor
enforco aquilo que julgava ser o mais sincero em mim
apenas pra estar perto de você

eu te amo

segunda-feira, março 23, 2009

Coração com Neurônios

Pra quê correr atrás? Pra quê acelerar o coração? Pra quê aumentar a ansiedade que me sufoca, literalmente, todos os dias? Pra quê se apaixonar? Pra quê sentir a delícia da novidade? Pra quê dar risada e mostrar nos olhos tanta admiração? Pra quê sonhar em começar um nova história? Pra quê conhecer? Se apresentar? Chamar? Gritar? Abraçar?

Tantas perguntas e uma só resposta: pra confirmar que somos humanos.

Queria ser um alienígena travesti, ao menos não me sujeitaria à isso tudo. Eu não quero enganar ninguém mais. Prometi a mim mesmo que aquela a quem escolher amar, será amada de verdade. Pra valer. Estou me impressionando com a firmeza dos meus pensamentos, com andar da carruagem. Mas eu estou com medo de uma coisa, ou melhor, algumas coisas. Um medo digno de congelar a barriga e acelerar ainda mais o meu coração. A cada trago que dou em um cigarro, uma silhueta desfila pelo ar materializada pela fumaça. Risadas. Risadas de centenas de pessoas se unem em uma só. E qual é o motivo? Pra lembrar que sou humano e desejo passar por todo o processo que já passei diversas vezes? Começo-meio-fim? Fim? Fim?

Além de acelerado, é burro!

Por Deus, o que tiver que acontecer, acontecerá. E dessa vez vou lembrar que o cérebro não bate no peito e que o coração não tem neurônios.

quarta-feira, março 18, 2009

Eu Sou o meu Herói Preferido

A vida pode ser medida pelo grau de segurança que você tem. Não, não é papo político. Não estou reivindicando mais polícia nas ruas, muito menos exército nas favelas.

Você é seguro de si mesmo?

Se alguém te provoca, você é seguro o suficiente para replicar o insulto? Quando te jogam um piano nas costas e pedem pra você carregá-lo por quilômetros, você encara? Ou as pernas tremem e você cai, sendo esmagado em seguida pelo piano?

Tudo depende da sua segurança, da confiança que você tem em si. Da tranquilidade de saber que você tem a si mesmo pra se defender e recorrer a si mesmo para solucionar seus próprios problemas. Você dá conta de bater de frente com o mundo? Aguenta a pressão?

O mundo é mal, eu sei, você sabe. Mas quão mal ele é? Qual é o seu limite para suportar a maldade? E quando esse limite passa, como você reage?

Precisamos confiar mais em nós mesmos. Cerrar punhos e correr contra o adversário. Precisamos de amor próprio. Precisamos do amor dela ou dele. Mas antes de tudo, progredir, amadurecer e depois de encontrar seu próprio amor, poder se apropriar do amor de outra pessoa. Afinal, como você pode dar algo que é seu, mas que você não encontra? Pode prometer algum agrado sem tê-lo em mãos? Beijar, abraçar, querer bem é bom demais. Mas escolher alguém para viver até o fim é complicado. Fica uma dica: encontre seu amor e depois entregue-o.

Tudo isso depende da sua segurança. Da confiança que você tem em si. Seja seu próprio super-herói. Defenda a si mesmo e depois defenda os outros.

Diazepan

Uma lacuna de ar em meus brônquios, após um banho pra me renovar após uma chuva devastadora.

Pânico.

- Liga pra minha mãe! Vai logo!

O ar vai acabando, acabando. Tudo adormece, os braços, as mãos, a nuca, as orelhas. Tudo estremece como um formigueiro remexido.

- Preciso descer, preciso andar um pouco!

As pessoas passam horrorizadas ao ver a cena: um homem batendo no peito, olhando para baixo, curvado, vencido pelo medo da morte. As pernas dormentes ameaçavam não obedecer, o tempo passava e nada acontecia. Apenas o coração ameaçava explodir a cada minuto que passava. Nenhum suor. Ergo o rosto e vejo no interior de um carro em movimento o rosto assustado de minha mãe. Entro correndo (ou me arrastando, não sei) e me acomodo. As pernas não param de balançar.

- Cara, eu já passei por isso, é sério. Todos esses sintomas são ansiedade, isso é crise de ansiedade. Fica tranquilo, cara.
- Não consigo, na boa. Meu rosto tá ficando dormente, minha boca!

São Paulo estava num temporal maldito e o trânsito correspondia às expectativas. Parado como um monumento. Monumento à desordem, ao caos, à desconsideração com o povão. Em quinze minutos chegamos ao hospital. Tive que descer do carro no meio do trânsito e caminhar um quarteirão até o hospital. Eu sabia que não chegaria tão cedo até lá. A ponta das orelhas estava dormente e um lapso de desmaio tomou conta da minha cabeça. Puxei o ar e continuei andando. Chegamos ao hospital e corremos direto para a doutora que observava tudo com uma frieza confortadora. Cada palavra calculada dela amenizava meu desespero. A pressão estava boa. O coração acelerado, mas nada demais. Diazepan para acalmar e quinze minutos para que o remédio fizesse efeito. Gel de eletrocardiograma no meu peito e o resultado: nada de incomum. Apenas uma elevação que deveria ser observada para desencargo de consciência.

Sai do hospital aos tropeços por causa do tranquilizante.

Bem-vindo ao maravilhoso mundo da ansiedade.