quarta-feira, maio 13, 2009

XXX Teaser XXX

(...)
- Tudo bem, querido. Aos diabos! – Claudia deu sorriso e puxou um cigarro.
- E você está morando onde, coração?
- Estou na casa de uma amiga travesti, lá na Santa Cecília.
- Em nome de Deus! Hahaha!
- O que foi? – perguntou contrariada, soltando fumaça pelo nariz, enqaunto guardava o maço na bolsa.
- Calma, meu bem. Acho os travestis engraçados, só isso. Fico imaginando como deve ser morar com um.
- É normal, se você quer saber. São gente como qualquer outra. O foda é o preconceito. Mas são gente finíssima.
- Não duvido. Só acho curioso – acendi um cigarro também – Pois bem, arrume suas malas e vamos morar comigo. O que acha?
- Tem certeza? Assim tão rápido?
- Olha, tudo pra te ver todos os dias! Tudo, extremamente tudo! – ergui minha voz assim como ergui meu cigarro.
- Que assim seja! – ela também ergueu seu cigarro.

Não havia achado meu whisky nem o resto das compras. Que se dane.

Rumamos para a Santa Cecília num ônibus lotado. Ficamos em pé durante todo o trajeto e me pus atrás de Claudia, encoxando sua bundinha redonda. Eu não me agüentava de alegria. Às vezes me beliscava, me ria, me tudo. Mordia sua nuca sem o mínimo pudor e ela dava um gemidinho sem se preocupar com o olhar dos outros passageiros. Eu estava a ponto de uma erupção de tesão, erupção de lava aquecida com paixão, amor e desejo. Eu era um vulcão ambulante, pronto para explodir com tudo a minha volta. Descemos há cinqüenta metros do prédio onde morava o travesti. Ela perguntou se eu queria subir e eu educadamente me recusei acendendo um cigarro. Fiquei observando o trânsito, as pessoas estranhas que passavam e o tempo passava. E ela não descia. Comecei a imaginar milhões de coisas. Talvez o travesti enfurecido pela saída brusca da amiga tenha feito Claudia como refém, ou dado facadas em seu lindo colo, ou entorpecido ela com éter ou ainda mais: trancado minha mulher num banheiro fedendo à vaselina e cheio de rastros de drogas! Fiz cara de nojo ao ver um travesti passar e cuspi no chão. Comecei a andar de um lado ao outro, acendi outro cigarro e pus as mãos no bolso. Cocei a cabeça e puxei um pouco do meu cabelo. “Cala a boca, cérebro idiota dos infernos”, eu murmurava. Avistei um boteco caindo aos pedaços e sai correndo até lá.

- Um conhaque com limão!

O atendente me olhou com cara de mosca cagada e pegou a garrafa de Dreher. Cortou o limão lentamente e o espremeu no copo. Um gota de limão voou no olho do infeliz.

- Caralho de limão! – gritou o atendente, abrindo a torneira, buscando água para aliviar o incômodo ácido.

Olhei impaciente para o lado de fora e a Claudia ainda não havia descido. “Caralho, cérebro idiota, talvez ela tenha muitas roupas, maquiagens, chapéus, vibradores, discos entre outras coisas pra arrumar”, pensei enquanto voltava ao balcão. O atendente ainda coçava o olho e o meu copo continuava com umas gotas de limão e mais nada. Peguei a garrafa e servi uma dose. Peguei a outra banda do limão e a espremi. O drink estava pronto. Quando levantei o copo, o atendente puxou um pano e o ergueu.

- Ei! Ei! O que é isso? Eu sirvo as doses aqui, camarada! – perdigotos voavam a esmo, como uma chuva de granizo em meu rosto. Me irritei.
- Eu peço uma dose, e você demora! O que custa eu servir aqui a minha própria dose?
- Eu sirvo as doses aqui!
- E daí? Não estou falando nada contrário a isso! Estou apenas dizendo que preciso da dose rapidamente e tive que me servir! Tirei um pedaço de você? Você serve a dose de uma forma especial?

O atendente parou por alguns segundos e ficou me encarando. De repente, jogou o pano em minha cara. Atitude infantil. Peguei a dose, dei uma gole rápido e joguei o resto na cara dele.

- Desgraçado! Desgraçado! – pulava e gritava como um macaco com pimenta no rabo – Meu olho, seu miserável, filho duma puta!
- Vai tomar no seu cu! – revidei, aproveitando sua cegueira momentânea e dando o fora daquela pocilga.

Cheguei perto do prédio do travesti e fiquei parado na esquina, observando de longe o movimento dentro do boteco. Nada aconteceu. Nem sinal do mocorongo. Acendi outro cigarro e nada da minha mulher chegar. “Puta que me pariu!”, rosnei enquanto andava em círculos. Senti um toque no meu ombro direito. Não podia ser a mão da Claudia. Era pesada e passava uma sensação de morte iminente. Me virei.

- Campeão, ta afim de uma diversão essa noite? Boceta na cara a noite toda! Vinte conto pra entrar, quatro latinhas de Brahma pra beber! É só entrar ali – apontou para um puteiro sujo chamado Gengis Khan American Bar.
- Gengis Khan? Hahaha! Puta merda, só me faltava isso mesmo! – exclamei em meio a risadas.

O gorila que me abordou era um negro imenso, mãos gigantes, como meu ombro já havia sentido, e uma cicatriz na fronte, devia ter sido alguma facada de raspão. Ele me olhou confuso, coçou o queixo e franziu a testa.

- O que tem o nome do lugar, campeão? – me questionou ainda com a mão no queixo.
- Nada, cara, nada. Só achei engraçado.
- Bem, se quiser, entra lá. Diversão garantida, falou?
- Falou, mas eu passo. Já tenho mulher. Agradeço de verdade.

Ele deu de ombros e voltou para a entrada do puteiro. Respirei fundo e me deparei com o que havia dito segundo atrás: “já tenho mulher”. Meu Deus, há poucas horas eu não me imaginava mais feliz. Me via em alguns meses como um mendigo, igual os que queria chutar e botar fogo. E agora tenho minha mulher. A vida era cheia de surpresas e eu, um moleque me esbaldando com o presente numa manhã de natal.


Tive uma idéia. Corri para a entrada do prédio e nada. Apertei todos os botões de interfone, de todos os apartamentos. Em alguns segundos, várias vozes começaram a responder.

- Sou eu! – gritei com a mão na boca, abafando minha voz.

Algumas pessoas perguntavam “eu quem?”, porém alguém que devia estar a esperar por um cara de voz embargada, abriu a porta do prédio sem a mínima cerimônia. Dei uma risada e pensei no que fiz: “sou um gênio!”. Fui de porta em porta tocando as campainhas. Peguei um papelzinho que estava no bolso de minha camisa e fingi ser uma referência de endereço.

- Pois não? – era uma mulher descabelada, de roupão de banho, que havia atendido a porta.
- É aqui que mora a Claudia? – perguntei olhando para o papelzinho.
- Claudia? Não, você tocou no apartamento errado – respondeu me olhando com desconfiança. Ela só não desconfiou que um de seus seios saltou do roupão. 

Tentei olhar nos olhos dela, mas não resisti e mirei minha vista nos seus mamilos. Ela percebeu a investida dos meus olhos e percebeu sua nudez. Bateu a porta na minha cara. Pude ouvir ela praguejando contra tudo e todos lá dentro. Dei uma risada e fui para a porta ao lado.

A abordagem era sempre a mesma, e nada da Claudia. Eu desanimava toda vez que uma mulher ou homem atendia. Eu queria que um travesti atendesse, para dar um murro na cara dele, ameaçá-lo de morte caso chegasse perto de minha mulher de novo. Resgatar a pobre Claudia do cárcere do banheiro e voltar triunfante para o meu apartamento, trazendo minha donzela em segurança. Já estava no quarto andar e nada de travesti, nada de Claudia, nem cárcere privado e socos na cara. O que me tranqüilizava é que o prédio não tinha elevador, o que faria eu ver a Claudia descendo pelas escadas. No quinto andar, no segundo apartamento, toquei a campainha impaciente.


- Já vai! – gritou uma voz de mulher.

A porta se abriu e pra minha frustração, outra mulher. Como mandava o script, fiz a pergunta sobre a Claudia. Quando me preparava para dar as costas me desculpando pelo incômodo, a mulher pediu para eu entrar. Interrompi meu movimento de saída e olhei para dentro do apartamento. Claudia estava com uma toalha enrolada na cabeça, e outra enrolada em seu corpo.

- Querido! Me desculpe a demora! Fui tomar um banho enquanto a Gisele arrumava minhas coisas. Ela estava dobrando minhas roupas. Pensei que não ia demorar tanto, e acabei atrasando. Entre!
- Tudo bem, coração. Licença – limpei meus pés no capacho de entrada e adentrei o apartamento.

Cumprimentei Gisele com um beijo e sentei no sofá. “Que bom, o traveco não está aqui”, pensei. O mulherão entrou na cozinha e ouvi barulho de copos. 

- O quê você bebe, Evandro? – perguntou Gisele, aos gritos.
- O que temos aí? – e me direcionei para a cozinha.

Gisele era uma mulher atraente, com seios fartos, pernas fortes, e um rabo redondo, perfeito. “Que a Claudia me perdoe, mas que mulher gostosa!”, pensei enquanto olhava para as pernas da moça. Ela tinha vodka no congelador e umas latas de cerveja.

- As cervejas ainda estão gelando. A vodka está geladinha! Gosta de caipiroska? – me perguntou com voz suave e sedutora.
- Eu amo caipiroska. Você sabe fazer? Qualquer coisa, eu faço. Não se incomode!
- Não, não. Você está no meu apartamento e vai beber a minha caipiroska.
- Tudo bem, tudo bem.


Voltei à sala e perguntei à Gisele se podia fumar no apartamento. Ela consentiu e eu saquei um cigarro. Acendi e relaxei no sofá. O amor da minha vida se arrumando lá no quarto e uma gostosa na cozinha fazendo um drink pra mim. A vida não podia ser melhor. Minutos depois, o cigarro chegava na reta final e a gostosona chegava com o drink.


- Caramba, você caprichou! Com canudinho e tudo mais! – me levantei olhando com afinco para os seios da moça. E por olhar somente para os seios, errei na hora de pegar o copo, tocando em sua mão.
- Opa! Hahahaha! Aqui está o copo, xuxu!
- Me desculpe, me desculpe. Eu sou um distraído! – dei uma risada tímida e uma bicada na bebida – Deliciosa! Docinha? Como você faz isso?
- É só tirar uma parte branquinha do limão, aqui é o que deixa amargo. É rapidinho e a caipiroska fica doce.
- Vou anotar esse truque!


A Claudia demorava para se arrumar. Eu ouvia o barulho do secador no quarto trancado e me conformava. Gisele foi ao quarto onde estava Claudia e trocou algumas palavras com ela. A moça era uma ótima anfitriã. Além de uma ótima conversa, ela cruzava e descruzava as pernas sem parar e isso foi me atiçando. Cruzei minhas pernas quando senti a ereção chegar. Fiquei sem graça e mantive as pernas cruzadas. Seus seios imploravam por uma bata, algo mais espaçoso. Naquela blusinha não respiravam. Me impressionei com as pernas fortes e torneadas da moça e comecei a sentir um calor danado. Tentei apreciar o apartamento, a decoração de bom-gosto, a televisão maravilhosa de LCD. Uma bandeirinha do São Paulo Futebol Clube. Nada tirava minha atenção dela. Eu queria levantar, mas meu pau estava duro como uma pedreira inteira, prestes a desmoronar. Ela continuava firme à minha frente. Quando ela olhos para um lado, derrubei um pouco de caipirinha no chão. Ela teria que ir para a cozinha buscar um pano.


- O pano fica na pia da área de serviço. Ele está torcido – me instruiu apontando para a cozinha.
- Pega lá, meu bem. Não sei nem onde fica a área – tentei negociar.
- Deixa de ser bobo, essa apartamento é um ovo. Você sabe onde fica a área de serviço.

Bufei. Blasfemei em pensamento. Ela começou a dar risadas. A desgraçada já havia percebido. Dei um profundo suspiro e pensei em minha avó, gorda, cheia de varizes, com um biquíni extremamente pequeno, dançando algum hit da Bahia. Não funcionou como de costume. Talvez eu não tenha me concentrado direito na cena bizarra. Pensei em todas as ereções que ocorriam naquele momento, em todo o mundo. Do quarto de motel mais vagabundo ao palácio mais suntuoso. A minha ereção era a mais vulgar, a mais desnecessária, a mais estúpida. Levantei de lado e virei rapidamente as costas para ela. Fiquei de frente com a parede e com o sofá. Enfim um quadro pra me salvar.


- Belo quadro, Gisele – o quadro era horrível. Parecia que o pintor havia dado o cu e logo em seguida pintado aquele lixo.

- Meu tio. Um grande artista. Me deu quando eu era moleque.

“Moleque?!”, pensei erguendo as sobrancelhas. Lembrei que tinha um travesti naquela história. Ele não estava ausente! Gisele era na verdade um Antônio, ou José ou Valdir! E eu impressionado com todo aquele corpo anormal, e nem percebi que a amiga da Claudia era um travesti asqueroso. Malditos transexuais! Senti vergonha de mim mesmo, e quando percebi, meu pau estava novamente em stand-by. Virei com todo orgulho para Gisele.

- Vou até lá pegar o pano e limpar essa porcalhada que fiz! – anunciei alegre e satisfeito com minha condição sexual restabelecida.

Caminhei até a cozinha, meio enojado, meio aliviado e alcancei o pano de chão. Quando virei as costas, Gisele estava à minha frente. Com um semblante tendencioso, olhou diretamente nos meus olhos e piscou um olho. Eu girei o pano transformando-o em um chicote improvisado, como fazem os atletas em vestiários, e me coloquei em posição de ataque. Se ela desse um passo em falso, eu a chicotearia com o pano enrolado. Mirei aquela reserva de silicone que ficava em seu busto e estava decidido a deformá-los à base de chicotadas.

- Vai com calma, querido... Você sentiu tesão, não? Por que não me toca? Vai ver o que é uma mulher durinha!
- Pela cruz de Cristo! Você não é mulher, porra! Se tentar algo, vai levar uma chicotada!
- Por que o medo? Só porque eu tenho isso? – Gisele abriu a braguilha da calça e libertou uma enguia gigantesca. Pelos meus cálculos, tinha um metro de comprimento. Mole.
- Guarda essa merda, seu veado! Guarda essa merda!
- Ou então? Vai chupar essa merda? – enquanto falava, manipulava aquele pedaço de cipó gigante.
- Cara, fica na sua com essa merda. É sério, eu to de boa aqui na minha. Essa cozinha é muito pequena pra nós dois! É o último aviso, ou você recua ou pico esse pano na sua rola. Você não vai ter ereção por anos!
- Vem aqui, vem! – e partiu pra cima de mim com aquela lança medieval em riste.

Se tocasse em mim, me furaria a barriga. Lancei o pano com violência, que ricocheteou na virilha dela. Ela deu um grito e virou seu membro pra cima de mim. Eu me esquivei batendo a cabeça num dos armários da cozinha. A manjuba dela tocou no meu braço. Eu gritei e ela gritava também. Peguei uma vassoura que estava parada num vão entre a parede e a geladeira e a ameacei. Ela recuou um pouco e segurou o seu pau. Eu gritei pela Claudia, que prontamente saiu do quarto, correndo e rindo. Eu já estava no corredor do prédio.

- Do quê você está rindo, por Deus?
- Hahaha! Nada, querido. Nada.
- Tem caroço nesse angu! Claudia, me explique essa porra!
- Calma, Vandinho. Era só uma brincadeira! Queria ver qual era sua reação se ela desse em cima de você! Quando ela foi ao quarto enquanto eu secava meu cabelo, propus a brincadeira. Queria ver qual seria a sua reação caso você levasse uma cantada dela... – Claudia explicava enquanto se aproximava lentamente.
- Cantada, coração? Cantada?! Ela colocou aquela jibóia pra fora! Isso não é cantada, pelo amor de Deus! Foi quase um estupro!
- Hahahaha! – Gisele gargalhava com o pau na mão.
- Pela alma de São José, do que você está rindo, seu veado? E que merda é essa? Guarda isso aí! Nem sei como cabe numa calça tão apertada!
- Calma, Vandinho. Já terminei de me arrumar. Leve essas malas pra baixo, por favor – ela me pedia, linda como nunca esteve antes.

Peguei as malas sem lembrar que não havia elevador no prédio. Estava encantado com a sua beleza e ao mesmo intrigado com o traveco que permanecia balançando aquela terceira perna, sem nenhum pudor ou respeito. Filho da puta. Uma maleta estava debaixo do meu braço direito e as outras duas, em cada mão. Fui com uma certa dificuldade me equilibrando nos degraus da escada.  
(...)

quarta-feira, abril 01, 2009

Presentes

o presente é um presente de grego
um cavalo de tróia
uma armadilha barata
e não dou confiança pra ela

tudo que eu tinha que fazer
é pensar nele
pois é ele que está presente
mas prefiro olhar para o futuro
igual minha teimosia em olhar
para aquela que não mer quer
do jeito que quero que me queira

aí olho para trás e remexo velhos baús
rasgo velhas feridas
desejo a velha máquina
que me faria corrigir velhos erros 
fantasio com traças e me atenho à ferrugem
me esbaldando com tesouro que some
assim como somem pessoas
assim como some o sentido das coisas

eu queria abrir o presente e me satisfazer
mas sou insensato
não abro o presente, guardo-o
como um monumento ao meu desespero
como uma homenagem morta ao medo
medo de que os sonhos morram
e os planos esfarelem

se Deus alimenta os pássaros e veste os lírios
só peço a Ele que me faça esquecer 
o ontem e o amanhã

engraçado, há poucos anos eu amava presentes
e amanhã, será que voltarei?
(tá vendo? já tô olhando pro futuro de novo)

terça-feira, março 31, 2009

Que Saudades Disso!

Quase deixei o bule cair na pia. Bem, ao menos seria na pia. Mas o café estava bom, seria um desperdício deixar ir pelo ralo um êxito raro como aquele. A caneca estava cheia assim como a vista do meu apartamento: cheia de perdição e luzes piscando. Fiz cara de pirraça mesclada com descaso e alcancei meus cigarros. O computador já estava ligado, e na tela alguma notícia idiota que encontrei em algum portal idiota. Sempre tenho momentos onde esvazio a cabeça e fico procurando por notícias excêntricas, sei lá, vai entender. Eu não me entendo mesmo.

Em meio aos pigarros, acendi um cigarro e voltei a minha caixa de e-mails. Em menos de dez minutos chegaram quatro e-mails novos. Não, não quer dizer que eu seja um cara procurado. Eram apenas anúncios de sites de contrabando, de leilões via internet e essas merdas virtuais. Até que abri o quarto e-mail. 


achei que aquela coisa do verve earth fosse mais uma das inutilidades de internet
mas ainda assim, resolvi fuçar e me dei com teu blog


gostei muito! 

Diabos, me agitei na cadeira, matei o café ainda quente e repousei o cigarro no cinzeiro. Ergui minha postura e respondi a mensagem.

babe, vou pegar um tempo pra me esbaldar com tanta coisa boa no seu blog e flickr!! 
 
e que bom que gostou! 
passe mais vezes!
 
beijo

Queria ser mais esnobe, mas a verdade é que não podemos deixar escapar um elogio. Ainda mais de um ser tão misterioso que assinava seus e-mails com um simples 'M'. O mistério evaporou quando olhei o endereço dela. O nome era Marisa. Perfeito. Voltei às minhas notícias bizarras. 

NOIVA BRIGA E PASSA NÚPCIAS NA CADEIA

Diabos, o quê eu tinha a ver com aquilo? Mesmo assim cliquei no link. Dei risadas, muitas risadas. Maldito artigo curto. De repente uma notificação do meu messenger: Marisa Lemos quer te adicionar. Me ajeitei novamente na cadeira e logo aceitei o convite. Aguardei ela aparecer on-line entre meus contatos. Aguardei. Dois minutos e nada. Voltei para as notícias.

CARTÃO POSTAL É ENTREGUE COM 47 ANOS DE ATRASO NOS EUA

Eu fico pensando se fosse um cartão postal do World Trade Center enviado em 2000 por uma garota caipira  aos seus pais no Alabama. Em 2047 eles iriam se perguntar: que porra de torres gêmeas são essas? 

Arrotei e arrotei novamente. A Marisa ainda não havia aparecido e eu fui correndo pra cozinha encher minha caneca novamente. Voltei e pigarreei. Ela estava on-line. Estalei os dedos da mão e comecei a conversa. Uma garota inteligente de vinte anos. Linda, designer de mão cheia e especialista em literatura russa. Eu sou um cara que conversa sobre tudo, e quando começam a se aprofundar num assunto, fujo pra outro assunto similar. Assim aconteceu toda vez que ela enveredava para conversas sobre Dostoiévski, Turguêniev e todos os 'kis' e 'evs' da gélida Rússia. Puxei a sardinha pro meu lado e falei de um 'ki' que conheço muito bem: Bukowski. Ela torceu seu nariz virtual e eu dei o dedo do meio para a tela. Tudo bem, ela era linda. 

- Estava afim de tomar um café, babe - digitou a doce Marisa.
- Onde? - digitei olhando no relógio do Windows.
- Num lugar que seja neutro, meio termo.
- Onde você mora, coração? - constatei que já eram onze da noite.
- Vila Madalena. E você?
- Vila Mariana.
- Que tal Paulista?
- Pra mim tá bom. Daqui uma hora te encontro onde?
- Perto do Milo tem um ponto de ônibus, um pouco antes de virar na Angélica. Me espere ali, ou eu te espero ali, sei lá.
- Pra mim tá bom. Qualquer coisa te ligo - respondi dando uma indireta. Ela cairia na minha armadilha?
- Ah sim, anote meu telefone - respondeu Marisa, caindo na minha armadilha.

Mandei o meu pra ela, só pra compensar o favor e fui para o banho. Liguei o Tim Maia e o seu incrível monumento recional ao soul. Aquele baixo profundo de 'Imunização Racional' me fazia balançar a cabeça enquanto escolhia alguma calça decente. 

Uh, uh, uh, que beleza! - cantavam as backing vocals do velho Tim.

Em quinze minutos eu já estava dentro do elevador. Peguei o ônibus para a Pompéia e segui o caminho todo pensando no que ía dar. Tenho a estranha mania de pensar no pior, esperar pelo pior, assim não me decepciono. Comecei a prever o fracasso. Ela não gostaria de mim, eu provavelmente falaria um monte de merdas e ela iria me dispensar mais cedo. Tava bom assim. 

Uh, uh, uh, que beleza... - agora eu que cantava baixinho enquanto o ônibus cruzava a Paulista em alta velocidade.

Cheguei no local combinado. Fazia um frio de assustar. Coloquei minhas mãos nos bolsos da jaqueta de couro e andei a procurá-la. Passei por uma garota empacotada em seu sobretudo. Nem olhei para ela e segui o caminho. Quando estava na frente do Milo procurando por ela na fila imensa que se formou à frente da casa de rock, recebo uma mensagem no celular.

"Era você o cara barbudo de jaqueta de couro que passou aqui nesse instante?"

Dei meia volta e apertei meus passos. Diabos, era a garota empacotada.

Cheguei ao ponto de ônibus e lá estava ela sentada, olhando para a frente. 

- Marisa? - perguntei enquanto guardava meu celular no bolso.
- Sim! Você é o Fernando? - respondeu ela com dentes perfeitamente alinhados.
- Sou eu! Caramba, nem desconfiava que fosse você! Desculpa, coração.

Peguei-a pelas mãos e dei um beijo em seu rosto. Rosto branco e gelado. Ela usava luvas nas mãos. Achei legal, embora não tenha sentido nenhum calor do corpo dela, nem no rosto e nem nas mãos. Fomos beber na Bela Cintra e enquanto caminhávamos, pensava que poderíamos ter nos encontrado no metrô Consolação. Seria mais fácil, mais claro. Resumimos nossa conversa à noite gelada e a algumas personagens que cruzavam nosso caminho, como o mendigo que me pediu dinheiro (eu sou o grande para-raios de mendigos). Paramos no Exquisito! e ao entrar, olhei para a Funhouse no outro lado da rua e lembrei das minhas putarias. Balancei a cabeça e entrei no lugar. Povo muito moderninho pro meu gosto, igual na Funhouse. Fiz minha cara de superioridade, sorri para o atendente que retribuiu o sorriso. Sentamos numa mesa junto à parede e pegamos o menu. Eu estava um tanto incomodado e olhava para todos os lados, toda hora. 

- Eu amo cachaças! - disse Marisa com risada infantil.
- Eu também amo cachaça!
- Nãaaao, babe! Eu digo aquelas artesanais!
- Ah sim... eu gosto muito também, em nome de Deus! - disse em meio à risadas.
- Ai não me fale em Deus, eu não acredito nele - desconversou com cara de bacalhau (coisa que nunca vi na vida).
- Desculpe cortar seu tesão, babe.
- Hummm não cortou não...

Sem a mínima intenção, descobri que ela queria algo mais que cachaça. E as cachaças chegavam, uma atrás da outra, sempre de um estado diferente. Uma era capixaba, que foi a melhor, diga-se de passagem. Outras três de Minas e claro, apareciam de São Paulo e Goiás. Bebíamos num gole só, e comecei a ficar alegre. Enquanto coçava minha cabeça, olhava para ela, tão doce e tão bêbada. 

- Fê, vamos sair daqui, estou trêbada, hahahaha!
- Claro, coração, deixa eu pedir a conta... - respondi sentindo dores no bolso.
- Eu pago tudo, babe, deixa comigo!
- Que tal racharmos? É mais justo - disse eu apenas para parecer um cavalheiro.
- Tá certo, babe!

Pagamos a conta e ela levantou de uma vez. Fiz cara de piedade quando ela segurou na cadeira da mesa ao lado para se apoiar. Coloquei o braço dela em volta de meu ombro e fui carregando-a, meio arqueado, graças a baixa estatura da doce e ébria garota. Decidimos rumar para algum bar ali na Pamplona, onde depois dela se recuperar, poderíamos entrar na DJ Club e curtir o final da noite. No caminho, ela dizia ser lésbica e que queria fazer sexo com um homem, só que o penetrando com aquelas cintas que têm um pinto de borracha acoplado. Arqueei minha sobrancelha direita e me afastei um pouco. Ela deu uma longa gargalhada e apertou minha bunda. 

- Diabos, quero ver ela gargalhar quando eu colocar meu pau na xoxota dela - pensei com o segundo sinal de malícia que apareceu em minha cabeça naquela noite.

 Chegamos ao bar Verdinho e Marisa estava mole, se arrastando pelas paredes. Encontrei um velho amigo no bar e um monte de desconhecidos com ele. 

- Onde vende cocaína nessa porra? - perguntou Marisa à atendente do balcão.
- Caralho man, tira essa mina daqui, olha o que ela perguntou! - me alertou Vinícius, meu amigo.
- Tô saindo fora, fica de boa.

Peguei ela o colo e sai andando pela Pamplona. Ela gritava muito e eu já constrangindo, coloquei-a no chão e perguntei, como se perguntasse à uma criança:

- O que você quer, coração?
- Vamos para minha casa!
- Mas você mora na Vila Madalena, e eu não tô afim de andar até lá. 
- Vamos de taxi!
- Quero ver alguém aceitar débito nessa hora ainda.
- Deixa que eu pago, tenho grana em algum lugar.

Chamamos um taxi e ela começou a usar um sotaque de Pernambuco.

- Sinhô motorista, mi lévi pra Vila Madalena?
- Claro que levo, hahahaha! - respondeu o taxista em meio a risadas.

Elas estava realmente chapada, e tudo o que eu fazia era dar um cafuné de leve. Estava temendo que ela vomitasse no meu colo. Eu estava bêbado, mas acho que minha preocupação cortou a brisa.

Chegamos ao prédio dela e ela, trôpega, se arrastou como uma aleijada trêmula até a porta do seu prédio. 

- Peraí, bichinho... a chave está aqui. Não si aperreie, bichinho - continuava em seu sotaque pernambucano.
- Olha só, babe, eu já vi a chave. Dá aqui - falei colocando a mão na bolsa dela.
- Mas tá cheinho de chave aí, tu num vai achá a certa, bichinho.
- Por Deus, babe, pare com esse sotaque.
- Tá, tá, eu paro - e começou a soluçar.

A cena era triste e cômica: Marisa tentava de qualquer jeito enfiar a chave na trava, mas como um michê drogado, não acertava o buraco. Ela começou a riscar a porta. E eu a ficar impaciente. Puxei a chave da mão dela e abri a porta.

- Maria! Maria! - ela chamava pela zeladora - Maria! Ligue o elevador!

Maria apareceu injuriada, com o cabelo todo amarrotado. Quando me viu, arrumou o cabelo de qualquer jeito e me deu boa noite.

- Marisa, bêbada de novo!
- Só que hoje tô trazendo um homem pra casa e não uma mulher! Hahahaha! - sussurrou alto no ouvido de Maria.
- Você curou a Marisa, hein? - me cutucou Maria com uma risadinha debochada.
- Ela só precisa de um chá de picão pra ser curada hahahaha! - respondi olhando nos olhos dela. 

Maria deu um sorrisinho e se ligou que eu transaria com ela. Fechou a cara e foi ligar o elevador. Entramos no elevador e Maria gritou:

- Cuida dela, hein?
- Pode deixar, coração!

Chegamos no apartamento dela. Extremamente clean, moderno, com móveis de última moda, notebook na mesa, maconha na mesa, caneca de café vazia na mesa. Era uma moderninha. Era uma bêbada também. Ela se sentou no sofá e lá ficou. Tirei os sapatos dela e levei-a para a cama. Ela começou a rir, deu um salto e alcançou um LP do Chico Buarque. Malandro. Colocou a primeira faixa e A Volta do Malandro começou a rolar solta pela atmosfera confortável do quarto dela, que contava com pisca-piscas de natal como decoração. Ela começou a dublar o Chico, se retorcendo na cama, balançando seu pequeno quadril. Quando a segunda faixa "Las Muchachas de Copacapana" se iniciou, com aqueles arranjos tropicais, comecei a mentalizar trompetes tocando sozinhos em meio a abacaxis e uma Carmem Miranda sóbria, porém graciosa. Quando abri os olhos, Marisa estava em pé na cama, duplando Ney Matogrosso e sua voz excepcionalmente feminina. O som era excelente, as caixas davam tudo de si, e eu comecei a me atentar para a performance da boneca de porcelana inebriante. Ela imitava a Carmem Miranda, e tinha um sorriso que pelos deuses, conseguiu me tirar do sério. Quando me vi, estava derretido entre os lençóis de sua cama. Estava presenciando a melhor performance de todos os tempos e ela era particular para mim. Ney Latorraca e sua voz rasgada, debochada, começou a terceira faixa do disco, "Hino da Repressão". Aquela levada de tango empolgava, e ela dublava perfeitamente, com gestos firmes e um sorriso que vira e mexe aparecia. Ela abriu uma garrafa de vinho chileno e comecei a beber. Ela dava uns goles e me devolvia a garrafa. Eu bebia mais e mais. Até que enfim, a pilha dela acabou e ela deitou. Fiquei sentado ao lado dela, observando cada movimento dela. 

- Foda-se, vou tirar minha roupa - gemeu Marisa, com aquele sorriso revestido de malícia.
- Fique a vontade, babe. Eu fecho os olhos. 

Fechei os olhos, e ela foi tirando toda a roupa. Ficou debaixo do edredon, enquanto eu ainda vestido, matava a garrafa de vinho. Fiquei constrangido por ela estar bêbada. Me senti um aproveitador dos infernos. 

- Fernando, me foda agora! - gritou Marisa deslisando sobre o colchão, dando risadinhas e me mordendo.
- Você está bêbada, não rola, babe. Amanhã você vai me expulsar daqui na base da porrada e não quero que o povo nas ruas me vejam sendo enxotado daqui. Tenho classe, coração.
- Cala a boca, meu! Vem me comer! Todo mundo diz que eu sou foda, que eu sou foda, que eu sou foda, mas ninguém tem coragem de me foder!
- Será por causa do seu jeitinho blasé?
- Blasé o caralho!
- É blasé sim. Você precisa de mais porres como esse!
- Tá bom, então me fode, Fernando!

Peguei ela com medo de que quebrasse de tão frágil que era e comecei a beijá-la. Mordi a nuca dela, puxei seus cabelos, joguei-a com força em seu travesseiro. Tirei minha roupa e me enfiei embaixo do edredon. Ela tinha seios médios, perfeitos para colocar a boca, cabiam numa boa taça de champanhe. Sua bunda era redondinha, e à cada apertada que dava nela, mais excitado ficava. Meu pau estava flamejando e a boceta dela oferecia o alívio. Busquei uma camisinha em minha jaqueta e com pressa, me protegi. A primeira estocada.

- Ahhhhh que saudades disso! - gritou Marisa fechando suas pernas em volta de minhas costas.
- Hahahaha! Você gosta de cobra, não de aranha! - sussurrei essa sacanagem homofóbica no ouvido dela.
- Não tire por nada essa cobra daqui!

Ela sorria, levantava os braços e a Zizi Possi interpretava a canção de Chico, "Sentimental" com tanta paixão, que quase gozei. Tá bom, eu me liguei mais nas expressões de prazer da bonequinha de porcelana. Depois de um tempo alternando posições, ela travou suas pernas com tanta força que gritei:

- Ai caralho, que merda do diabo!
- Não goze por nada... me dê seu pau, Fernando.
- Mas eu tô te dando, olha ele aí dentro de você...

Ela fez uma cara de impaciência e saiu da posição que estávamos. Tirou a camisinha do meu pau e o colocou em sua boca.

- Bem melhor que uma boceta, né? - desafiei sem êxito.

Ela não respondeu. Se concentrava no trabalho do sexo oral. Ficou por dez minutos passando sua língua em meu pau até que num momento puxei seus cabelos.

- Tira a boca que eu vou gozar!

Ela não tirou.

- Estou falando sério, tire da boca, eu vou gozar, e já não aguento mais!

Ela continuou.

- Diabos, que se foda!

Gozei litros de porra na boca dela. Ela engolia tudo. Eu ouvia cada golada que ela dava enquanto minha perna estremecia. Ela secou meu pau e caiu no colchão. Peguei ela no colo e joguei água no rosto dela. Fiz ela lavar a boca (por Deus, eu a beijaria posteriormente) e ela ainda caminhou à privada para mijar. Foi andando como um demônio errante e intoxicado até à cama. Deitou como um anjo. E roncou como Belzebu. Fiquei acordado a madrugada inteira preocupado se ela vomitaria, se morreria afogada com o próprio vômito. Nesse momento, o som já se dissipara e o silêncio estava com sua bunda gorda e estúpida sobre a situação. Ela acordava de vez enquando, me beijava e pedia pra eu dormir. 

- Tô bem assim. Agora por Cristo, durma. 

A manhã chegava e eu me levantei para fumar um cigarro. Tomei o resto de vinho que restara e me arrumei. Ela ainda protestou.

- Fique aqui, vamos almoçar juntos, pleeeease...
- Não, não. Preciso dormir na minha cama. Vou indo nessa. 

Deixei o cigarro cair no lençol da cama dela, o que abriu um generoso buraco. Dei uns tapas para apagar o mini-incêndio enquanto olhava para o rosto dela. Ela dormia e sem roncos agora.

Ela levantou, colocou um shortinho, uma blusinha e um chinelinho. Foi toda pequenininha até a porta da casa e me deu o último beijo.

- Fica aí, meu... 
- Não, babe. 

Me senti desejado por uns minutos e depois esse sentimento passou. Pensei que minha cama estaria me aguardando e foi só nisso que pensei até chegar em casa. O sol raiava de forma idiota e eu suava como um porco toda cachaça que bebi. O vento remexia meu cabelo e apagava meu cigarro. Eu praguejava pelo dia e agradecia pela noite.

sexta-feira, março 27, 2009

Apenas uma Forca

nem tudo o que arquitetamos, vira concreto
nem tudo que almejamos, vira vista
nem tudo que desejamos, vira fogo

tudo o que me resta é você e um flash de um momento bom

e quem sou eu nisso tudo? quando tudo é você quem escolhe?
quem sou eu no meu corpo, se todo o calor do meu peito
é você quem inflama
quem sou eu afinal, se tudo em mim lembra você?

minhas mãos me lembram seus cabelos
minha boca me lembra a sua
os meus olhos, a sua alma
porque eu realmente vejo sua alma
brilhante

qual é o meu espaço? se você ocupa tudo?
quem é você, afinal?
amor ou desilusão?

diabos, pareço o jovem Werther de Goethe
e eu achava que não seria mais assim
ao invés de pistolas para me matar por esse amor
enforco aquilo que julgava ser o mais sincero em mim
apenas pra estar perto de você

eu te amo

segunda-feira, março 23, 2009

Coração com Neurônios

Pra quê correr atrás? Pra quê acelerar o coração? Pra quê aumentar a ansiedade que me sufoca, literalmente, todos os dias? Pra quê se apaixonar? Pra quê sentir a delícia da novidade? Pra quê dar risada e mostrar nos olhos tanta admiração? Pra quê sonhar em começar um nova história? Pra quê conhecer? Se apresentar? Chamar? Gritar? Abraçar?

Tantas perguntas e uma só resposta: pra confirmar que somos humanos.

Queria ser um alienígena travesti, ao menos não me sujeitaria à isso tudo. Eu não quero enganar ninguém mais. Prometi a mim mesmo que aquela a quem escolher amar, será amada de verdade. Pra valer. Estou me impressionando com a firmeza dos meus pensamentos, com andar da carruagem. Mas eu estou com medo de uma coisa, ou melhor, algumas coisas. Um medo digno de congelar a barriga e acelerar ainda mais o meu coração. A cada trago que dou em um cigarro, uma silhueta desfila pelo ar materializada pela fumaça. Risadas. Risadas de centenas de pessoas se unem em uma só. E qual é o motivo? Pra lembrar que sou humano e desejo passar por todo o processo que já passei diversas vezes? Começo-meio-fim? Fim? Fim?

Além de acelerado, é burro!

Por Deus, o que tiver que acontecer, acontecerá. E dessa vez vou lembrar que o cérebro não bate no peito e que o coração não tem neurônios.

quarta-feira, março 18, 2009

Eu Sou o meu Herói Preferido

A vida pode ser medida pelo grau de segurança que você tem. Não, não é papo político. Não estou reivindicando mais polícia nas ruas, muito menos exército nas favelas.

Você é seguro de si mesmo?

Se alguém te provoca, você é seguro o suficiente para replicar o insulto? Quando te jogam um piano nas costas e pedem pra você carregá-lo por quilômetros, você encara? Ou as pernas tremem e você cai, sendo esmagado em seguida pelo piano?

Tudo depende da sua segurança, da confiança que você tem em si. Da tranquilidade de saber que você tem a si mesmo pra se defender e recorrer a si mesmo para solucionar seus próprios problemas. Você dá conta de bater de frente com o mundo? Aguenta a pressão?

O mundo é mau, eu sei, você sabe. Mas quão mau ele é? Qual é o seu limite para suportar a maldade? E quando esse limite passa, como você reage?

Precisamos confiar mais em nós mesmos. Cerrar punhos e correr contra o adversário. Precisamos de amor próprio. Precisamos do amor dela ou dele. Mas antes de tudo, progredir, amadurecer e depois de encontrar seu próprio amor, poder se apropriar do amor de outra pessoa. Afinal, como você pode dar algo que é seu, mas que você não encontra? Pode prometer algum agrado sem tê-lo em mãos? Beijar, abraçar, querer bem é bom demais. Mas escolher alguém para viver até o fim é complicado. Fica uma dica: encontre seu amor e depois entregue-o.

Tudo isso depende da sua segurança. Da confiança que você tem em si. Seja seu próprio super-herói. Defenda a si mesmo e depois defenda os outros.

Diazepan

Uma lacuna de ar em meus brônquios, após um banho pra me renovar após uma chuva devastadora.

Pânico.

- Liga pra minha mãe! Vai logo!

O ar vai acabando, acabando. Tudo adormece, os braços, as mãos, a nuca, as orelhas. Tudo estremece como um formigueiro remexido.

- Preciso descer, preciso andar um pouco!

As pessoas passam horrorizadas ao ver a cena: um homem batendo no peito, olhando para baixo, curvado, vencido pelo medo da morte. As pernas dormentes ameaçavam não obedecer, o tempo passava e nada acontecia. Apenas o coração ameaçava explodir a cada minuto que passava. Nenhum suor. Ergo o rosto e vejo no interior de um carro em movimento o rosto assustado de minha mãe. Entro correndo (ou me arrastando, não sei) e me acomodo. As pernas não param de balançar.

- Cara, eu já passei por isso, é sério. Todos esses sintomas são ansiedade, isso é crise de ansiedade. Fica tranquilo, cara.
- Não consigo, na boa. Meu rosto tá ficando dormente, minha boca!

São Paulo estava num temporal maldito e o trânsito correspondia às expectativas. Parado como um monumento. Monumento à desordem, ao caos, à desconsideração com o povão. Em quinze minutos chegamos ao hospital. Tive que descer do carro no meio do trânsito e caminhar um quarteirão até o hospital. Eu sabia que não chegaria tão cedo até lá. A ponta das orelhas estava dormente e um lapso de desmaio tomou conta da minha cabeça. Puxei o ar e continuei andando. Chegamos ao hospital e corremos direto para a doutora que observava tudo com uma frieza confortadora. Cada palavra calculada dela amenizava meu desespero. A pressão estava boa. O coração acelerado, mas nada demais. Diazepan para acalmar e quinze minutos para que o remédio fizesse efeito. Gel de eletrocardiograma no meu peito e o resultado: nada de incomum. Apenas uma elevação que deveria ser observada para desencargo de consciência.

Sai do hospital aos tropeços por causa do tranquilizante.

Bem-vindo ao maravilhoso mundo da ansiedade.

domingo, agosto 24, 2008

Faz meu Tipo

eu não sei se são crises
é morte
é lá e cá
ela está aqui dentro, aí dentro, fora de tudo
a música foi roubada por ela
as risadas das ruas
a confiança da segunda-feira
a noite de um valente
o levantar de um desempregado

idiota, você existe
eu sei que rasteja
atrás de um negligente
de um fraco
do corpo que repousa na lona

te abraço e o convite vem
convite à dança
de uma banda de alucinados
ébrios errantes em notas desorganizadas
danço com a morte
e ela não me causa espanto
se me tocar, te abraçarei
e se me deixar voltar para casa
caminharei traçando planos
e dormirei em paz

pois inevitável é
iminente, já não sei

se eu danço com a vida?
todos os dias me faz companhia
pode não ser a mais bonita das damas
mas faz o meu tipo

vida, sou tarado por você

quarta-feira, agosto 20, 2008

Menino-Homem

quando o homem percebe
"esse é o meu erro"
e quando percebe também
"essa é a solução"
e ainda mais quando percebe
"eu tenho preguiça"
quem poderá adentrar o abismo?
quem endireita a coluna do homem
estufa seu peito e o empurra?

todo começo de ano letivo
era uma nova escola
novos rostos, mesmas coisas
coisas de menino-homem
vigiar, conversar, tentar ser melhor
erguer a vista e se apresentar à sala
"meu nome é tal, estudava em tal escola"
ah! como o caminho até a carteira era longo
olhares veteranos de meninos-homens
meninas-mulheres
que dois dias depois mexiam no meu cabelo
"queria ter um cabelo desses"
meninas-mulheres de cabelo crespo
ensebados em inveja e curiosidade

o recreio começava e não tinha dinheiro para o lanche
pedir para um colega? nem pensar
passar vontade, esse era o estilo de vida

jogar bola, driblar e ser derrubado
levantar e aceitar a provocação
covardia, esse era o estilo de vida

voltar à aula com a testa suada, barriga vazia
mente sem ânimo, "garoto, você é muito burro"
passar em branco, esse era o estilo de vida

voltar para casa, coluna curvada, pisando em folhas secas
esperar o jantar, comer e depois brincar
ser moleque, esse era o estilo de vida

quem pode voltar e endireitar?
quem poderia alertar o menino-homem?
"não faça isso, não faça aquilo"
nem um anjo do Senhor poderia fazê-lo

eu poderia ser melhor, se tivesse a receita
mas a minhas mãos grandes e finas
não sabiam nem tocar um piano
ontem não existia glória
hoje muito menos
mas amanhã, o que espera?

vai ter com a formiga, ó preguiçoso
hoje eu entendo o provérbio
a advertência
mas quem pode erguer o menino-homem?
quem pode fazê-lo dançar
conforme a dança magnífica dos anjos?
o vai e vem de asas causa nauseas

ora, somos humanos
meninos ou homens
somos peste, a origem do arrependimento
o asco das rochas, a vertigem das árvores
somos apenas isso, humanos

super-homem? nietzsche, você estava louco
o que não me mata, me debilita
jamais me fortalece
posso emprestar de ti essa loucura?

e quem poderá endireitar
aquilo que foi criado para morrer?
passos e mais passos
quando o menino-homem olha para trás
diabos, não há pegadas!
apenas aves de rapina maliciosas
inventando desdém

idiotas, pensam que me enganam?

você lembra?
passar em branco, esse era o estilo de vida
ainda é

domingo, agosto 03, 2008

Existo, Logo Morro

penso, logo existo
Descartes, sua bicha, você tinha razão
mas será que o excesso de existência
provocará explosão?

será que a cabeça inflada
por considerações e cogitações
anulará minha existência
com tanta existência?

de tanto existir, esqueço de viver
por isso que a máxima prevalece
muitos são os que existem
poucos são os que vivem

muitos pensam demais
poucos agem de verdade
o coração tremula o punho
e contra o cérebro vocifera
o cérebro altivo olha com desdém
e despreza

pensa, existe, considera, pesa na balança
mede o buraco e passa ao redor
abraça o passado e despreza o futuro
e despreza

a roda da vida parou
porque resolvi existir
porque resolvi pensar
porque não sei agir
não sei sorrir
e nunca mais chorei
por você
por eles
por mim

o homem que existe, não chora
porque esquece
mas aquele que vive, sorri
porque lembra
lembra sem pensar
lembra pra esquecer

sim Descartes, sua frase tem verdade
mas você esqueceu
não sei se por falta de tinta ou por falta de voz
existo, logo morro.

sexta-feira, julho 18, 2008

Quero Viver

eu quero viver
ou queria
ver meu time campeão
ver netos no sofá
receber um diploma
ser reconhecido

eu quero envelhecer
eu queria chegar lá
eu quero casar
eu quero caçar
mas tenho medo
dos meus sonhos

eu quero acreditar
fechar os olhos
relaxar um pouco
mas eu não sei
eu não consigo
parar de pensar

eu quero amar pra sempre
eu queria você pra sempre
vocês todos pra mim
queria ser desapegado
odiar o materialismo
repudiar a vaidade

eu estou com medo
porque eu sou jovem
porque tenho a perder
porque sou materialista
porque almejo
porque desejo
porque eu quero

quero viver
ou queria

terça-feira, junho 17, 2008

A Morte e a Minha Morte

eu não tinha coragem, ó morte
mas a senhorita a tem sobrando
senhorita sim
virgem, mal-amada, amarga e enegrecida
virgem por desgraça
mal-amada por opção
amarga por vocação
e enegrecida por consequência

não havia sofá ou uma cadeira para teu agrado
mas a senhorita cá está, em pé
em minha casa, meu lar, meu refúgio

exala cheiro de falta de estrada
falta de caminho
falta de ar
em ti vejo o último abraço
meus lamentos
e minhas últimas pretensões

desgraçada mãe da saudade
deixe que eu faça um último apelo
ninguém nunca goza de tempo
algumas últimas palavras
víbora banhada em desalento

amigos, divulguem o que criei;
amor, você foi a única;
mãe, queria ter aproveitado você
bem mais do que uma simples infância;
pai, queria ter entendido você;
irmãos, eu os amo de verdade.

ao resto, deixo a fiel descrição do rosto da morte:

(expirei)

Você e Eu Somos

você é meu jesus cristo
aquele que vai voltar
você é meu nirvana
aquilo que vai me dispersar
você é minha reencarnação
que me colocará num corpo melhor

eu te amo mais do que a compreensão
da sua indiferença azulada poderá entender
eu te amomais que a importância que você dá
pra atos de uma alma nula e nublada
chorona e apagada
cega a tropeçar

eu sou areia quente nesses pés de pequena
eu sou vento que lança fina areia
eu sou fumo marrom ou sou cinza fumaça
eu sou o que você queria ser na juventude
eu sou seu fracasso

você é minha vida
eu sou sua morte
você é cor
eu sou morte
você é brilhante
eu sou morte
caralho, tudo é vermelho

ao diabo com o amor, meu amor

quarta-feira, junho 04, 2008

Pré-morte

Envelhecendo, eu estou envelhecendo
E o meu peito não é mais aquele de outrora
É negro, frio e doente
Antes eu corria, sorria, brilhava
Meus vinte e poucos anos não são dignos de presunção
Quando eu tinha oito anos, pensava nos meus dezoito
Servindo o exército e comendo maça no sofá
Meus dezoito anos já passaram
E eu servia uma mulher e comia a maçã podre da vida
Eu não sei o que fazer
Eu me prendi demais às vaidades
Eu não sei escapar
Bem, eu sei o que fazer
Preciso escapar
Então o lamento é outro:
Não sei escapar

Sou um covarde
Um fracasso coberto de vaidades
Vaidades filhas de putas
Vaidade, tudo é vaidade

Eu nunca mais vou correr
Eu nunca viverei na época em que deveria ter vivido
Eu não vejo lugar para mim nesse mundo
Eu queria poupar o mundo de minha existência
Mas sou covarde demais para recepcionar a morte

quinta-feira, março 06, 2008

Vista para o Matagal

Passei em branco. Nada daquelas histórias de comer mulher em ônibus de viagem. Só fósseis ambulantes travestidos de idosas, crianças sapecas atrapalhando meu sono e claro, trôpegos trabalhadores, esparramados por diversos assentos. Longe do luxo dos ônibus de leito ou semi-leito, estava eu num ônibus com o revestimento dos assentos rasgado, nenhum sinal de cinto de segurança, aliás, não havia sinal de segurança em lugar algum.

O banheiro era o resumo de todos os meus pesadelos e a porta não podia fechar, pois se isso ocorresse, a mesma ficava trancada, fazendo o motorista exausto parar no acostamento e se dirigir aos fundos do veículo, para aplicar um macete que abria milagrosamente a porta. Havia um aviso estampado: "não feche a porta", mas do que adiantava? Dois terços dos passageiros eram analfabetos e o resto era tímido demais para cagar de porta entreaberta, sob risco de alguém flagrar o momento mais íntimo entre o ser humano e o seu corpo: a limpeza do cu. O medo de cagar com tamanho desconforto ocasionou momentos terríveis, quando os passageiros, sob as torturas do esfíncter, aliviavam-se em meio aos peidos mais nauseantes. O quê aquele povo comia? E eu matutava comigo mesmo: "se o peido tem apenas 1% de enxofre, que é o que faz ele ficar fedido, imagina o percentual desse povo! 10% no mínimo!". Mas meus pensamentos dissipavam no ar, como os inconvenientes peidos.

Não sou nenhum fresco, mas tive que colocar a mochila virada para o lado da frente e dormir abraçado à ela. Já tive experiências negativas demais ao confiar nos proletários sofridos da nação. Fodam-se eles. Que cortem infinitas toneladas de cana-de-açúcar, que peguem doença de Chagas e que continuem morando em casas de pau-a-pique. Honestos? O caralho. Fora o cheiro de sovaco com cachaça que permeava minhas narinas. Nada contra a cachaça, mas puta merda, passa um sabão de pedra nessa caverna cabeluda... Mas a verdade é que passei em branco novamente. Já contabilizo dezenas de viagens de ônibus, e seja leito, semi-leito ou pau-de-arara, sou um fracasso em todas as modalidades.

Más experiências à parte, eu desembarquei na rodoviária de São Silvestre do Campo. A bucólica região não é tão atraente. Sabe aquele papo de vida no interior? Então, tô fora. A rodoviária insignificante só ganhava algum significado quando uma telha caía em alguma velha. Bem, foi o que disse o motorista para um dos caipiras que saía do ônibus.

- Cuidado com as telhas dessa porra. Tem hora que parece que chove concreto quando venta! Uma velha morreu nessa brincadeira! Hahahaha!

o motorista se tornava cada vez mais evitável com um bafo de café que se misturava ao bafo proveniente do estômago, fazendo uma junção que me dava a idéia de como seria o cheiro se um dia eu quisesse fazer café dentro de um banheiro enquanto eu cagasse. Comparações à parte, eu encaixei um cigarro entre meus lábios e demorei pra acendê-lo. Tanto demorei que ao retirá-lo depois da primeira tragada, o papel do filtro grudou como se fosse colado aos meus lábios, e ao retirá-lo, levou junto um filete do meu lábio inferior. Praguejei. Xinguei a mãe de Deus e o padroeiro da cidade, São Silvestre (que pra mim não passa de uma maratona de fim de ano). O calor era insuportável e para tentar amenizá-lo, me movimentei a fim de sair daquele antro de caipiras sofridos e rastejantes. Perambulei pela avenida principal e de cada dez estabelecimentos, sete eram igrejas evangélicas. E todas cheias. Povo idiota do caralho. Minha mala começava a pesar à medida que o cansaço dominava minhas pernas. Parei num bar.

- Campeão, me vê uma Brahma gelada.
- Não temos Brahma, só Malta.
- Tem outro bar por aqui?
- Não sei... - respondeu o atendente gorducho com olhar de desdém, evitando favorecer a concorrência.

Bem, prefiro evitar essas cervejas sofridas. Levantei minha mala e caminhei apressadamente. Era três da tarde, mas o Sol esqueceu de diminuir o calor e raiava como se fosse o meio-dia. Meu cabelo estava oleoso, e eu suava como um porco sofrido, e isso me deixa nervoso. O vento chegou com tudo, bagunçou meu penteado, jogando os fios pra direita, esquerda e pra frente. Larguei a mala e arrumei o penteado. Chutei uma pedra média para a rua, ela rolou com velocidade e quase acertou a frente de um carro em movimento. O motorista mostrou o dedo pra mim e tremulou o punho esquerdo. Retribui o gesto inicial e mandei ele tomar no cu. Ele passou reto. Entrei num segundo bar.

- Brahma, campeão!
- Só Skol.
- Tá, tá, me vê uma.

O atendente abriu a geladeira abaixo do balcão e retirou uma garrafona de Skol. Meus olhos brilharam.

- Dois e vinte. Tem que pagar antes.
- Caralho, você corta o tesão da coisa, man! - murmurei puxando a carteira do bolso.
- É foda, eu sei.
- Toma. E me vê um maço de Lucky Strike branco - disse entregando uma nota de dez reais.
- O que é isso?
- É um cigarro!
- Nunca vi!
- Caralho! Sério? E o que você tem aí?
- Esses aqui - apontou para o expositor de marcas acima do caixa.
- Putz, me vê um Dallas então - era o menos pior.

Balancei negativamente minha cabeça e abri o plástico do maço. Acendi o cigarro que cheirava mal. Cigarro bom você sente pela fumaça. Pelo menos o Dallas é de alguma indústria conhecida. Pedi mais duas garrafas e após finalizar a terceira, estava um pouco tonto. Acenei em despedida para o atendente que ergueu a mão num gesto negligente.

- Caipiras idiotas - disse em voz baixa.

Eu precisava de um hotel barato. Vaguei pelas ruas estreitas do centro e numa banca de jornal perguntei por um hotel. Indicaram-me o hotel Coronel Risotto. Que porra de nome era aquele? Devia ser um idiota. Os pássaros voavam rente à minha cabeça e eu não gostava disso. Cheguei à entrada do hotelzinho. Avaliação: menos duas estrelas. Era um pulgueiro fodido, com uma atendente descabelada que tomava sorvete naqueles potinhos plásticos.

- Pois não?
- Eu quero um quarto.
- Prefere com vista pra rua ou não.
- Qual é a diferença?
- Se o senhor gosta de movimento, a vista da janela que dá pra rua é melhor.
- E os outros quartos não têm janela?
- Têm sim, mas tudo que o senhor vai ver é mato.
- Me vê um desses aí, o do mato.
- Vinte e cinco reais.
- Puta merda, não vale nem cinco reais essa bosta - pensei franzindo a testa.

Entreguei o valor com relutância.

- Quarto doze. Café da manhã é servido ali atrás das oito da manhã até às dez - disse a mulher apontando para a cozinha imunda e escura.
- Tá certo.

Subi as escadas até o primeiro andar. Abri a porta do quarto e até que não era ruim. Uma escrivaninha de madeira, uma cama grande e dura, uma televisão protegida por travas. Um telefone também estava lá ao lado de um cardápio para o "serviço de quarto". Olhei para o cardápio e o joguei na escrivaninha. Sentei na cama e tirei meu tênis. Me dirigi ao banheiro que à primeira impressão estava em ordem. Peguei a toalha dobrada acima da privada e a estendi sobre o box. Tomei um banho longo, de água gelada, lavando o corpo e a alma. Me enxuguei e fiquei de cueca. Olhei pela janela e sim, era só mato, um vasto matagal. Acendi um cigarro e parei em pé, pensando na vida. Precisava de uns dias nessa cidade. O meu chefe em São Paulo deve estar em seu carro, encarando o trânsito caótico, os motoboys malandros que arrancam retrovisores. Mas meu chefe é gente boa. Me deu uma licença de uma semana devido ao estresse. Um colega de trabalho me tirou do sério ao entrar na minha sala e ficar falando da vida dos outros.

- Cara, você ficou sabendo que o Golveia...
- Sai daqui, viado bocudo de merda! - gritei lavantando-me bruscamente, indo pra cima dele.

Peguei-o pelo colarinho e o tirei da sala aos pontapés. Ele foi se queixar ao chefe, mas meu chefe sabia que ele era um puxa-saco fofoqueiro.

- Alberto, o quê tá rolando contigo? - disse o chefe com toda reserva possível.
- Esse cara, me tira do sério...
- Você precisa de descanso.
- O foda é arrumar tempo pra descansar.
- Que tal uma semana? Depois do pagamento, você fica uma semana descansando. O que acha?
- Como assim?
- Uma licença, Alberto. Olha os seus olhos, vermelhos! As olheiras, a fisionomia... Cara, você está mal.
- Eu sei. Aceito a licença, chefe.
- Maravilha. No dia seis você já está de folga, beleza?
- Perfeito. Valeu mesmo.

E lá estava eu, de licença, tentando amenizar o estresse. Até que estava funcionando. Coloquei uma bermuda, uma camiseta do Sonic Youth e saí para dar uma olhada na cidade à noite. São Silvestre do Campo é uma cidade com seus quinze mil habitantes e o movimento da noite se concentrava, como em toda cidade do interior, na praça que fica no centro. Jovens e mais jovens se amontoavam em volta de um carro com porta-malas aberto, tocando hits de rádio. Todos os garotos usavam boné, e comiam churros. As garotas, mais gostosas impossível. Com roupas simples, passavam longe da sofisticação de São Paulo, mas o corpo delas não perdia em nada para as urbanas paulistanas. Elas circulavam de braço em braço, deixando os garotos atiçados, no tesão da juventude. Latinha de cerveja nas mãos, a vida não precisava de mais nada. E como em toda cidade de interior, eles tinham um detector de forasteiros. Cheiravam a modernidade da capital em cada 'turista' e obviamente detestavam. Tenho certeza que é o receio de que cheguemos na cidade deles e roubemos as mulheres deles. Cabaços. Caipira é foda. Para evitar confusão, ou olhava para baixo ou para frente, sem atentar para os meus lados. Qualquer olhar em falso e uma briga poderia rolar. Entrei numa cantina italiana que tinha uma placa que anunciava em letras garrafais: "A MELHOR LASANHA DA REGIÃO". Bem, não lembro de ter visto outro lugar que vendesse lasanha, mas tudo bem. Pedi uma à bolonhesa e uma coca-cola. Demorou uns trinta minutos pra chegar.

- Até que enfim! - disse com sarcasmo típico de cliente chato.
- Desculpe, senhor! - respondeu a garçonete, sem graça.

A calça jeans justa naquela bunda redonda me deixou faminto e num impulso maníaco, devorei a lasanha que era muito boa. Poderiam colocar naquela faixa algo como "A MELHOR LASANHA DO INTERIOR". Era muito boa, assim como era a bunda da garçonete. Pedi a conta e ela me entregou. Sete reais. A vida era um sucesso. Não cobravam os dez por cento de serviço. Ela merecia uns quinhentos reais por aquele rabo. Coloquei meu número de celular no papel da conta, junto ao dinheiro. No papel escrevi "me liga, coração - Alberto". Ela olhou para mim, deu um sorriso e pediu desculpa pela demora da lasanha. Pegou o papel da conta e o espetou num ferrinho pontudo. Nem olhou para o meu convite.

- Biscate gostosa - pensei ao me levantar.

Saí da cantina e comprei um latinha de cerveja. Acendi um cigarro e suspirei. Nada melhor que um cigarro após encher a pança. Levantei minha cabeça e avistei um banco de praça. Um bêbado dormia no chão ao lado. Cheguei ao banco em meio aos olhares hostis dos caipiras. Olhei para o chão e terminei minha cerveja. Lancei o filtro do cigarro no chão e fiquei mais uns cinco minutos. Me levantei lentamente e a praça continuava no fervor das risadas, provocações e xingamentos. Um garoto vomitava nas escadas da igreja matriz. Sob reprovação dos olhares dos idosos e dos santos imóveis na fachada da igreja, o garoto saiu cambaleando, caindo sentado e adormecido, vencido pela cerveja. Pobre diabo.

Voltei para o hotel e subi as escadas após acenar para a mulher da recepção. Cheguei no quarto e tirei a camiseta. Atentei para uma mancha de infiltração na parede e dei uma risada. Olhei pra TV, ela olhou pra mim e virei de costas (não assisto TV desde quando tiraram Thundercats da grade de programação, quando eu era moleque). Acendi um Dallas e deitei com o cinzeiro na barriga. Pensei em diversas coisas, em São Paulo, nas garotas simples e gostosas dessa cidade pequena, na lasanha também. Fechei os olhos e o símbolo do Lucky Strike apareceu em meio à escuridão.

- Maldita cidade pequena - rosnei olhando para o céu.

E enquanto olhava fixamente para um furo na parede, uma gritaria no matagal me chamou a atenção. Apaguei a luz e fui para a janela.

- Pára Sérgio! Você não vai me comer! Não dá! - uma garota falava baixo, mas com firmeza.
- Vai porra! A gente namora há séculos, caraio! - um rapaz suplicou em voz baixa e tensa.
- Mas não dá, eu sou virgem... - disse a garota quando foi interrompida.

O rapaz encaixou um soco preciso na boca dela. A garota rolou pelo mato alto, fazendo ruídos. Eu ouvi barulho de galhos secos quebrando.

- Serginho, o que você está fazendo?!
- Hoje você vai dar pra mim! Foda-se! - disse o rapaz apontando para a cara da garota.
- Por favor, amor! Sou virgem! Não faz isso!

Ouvi barulho da fivela do cinto. Ela se debatia freneticamente, aos gritos. Somente o hotel estava por perto, e todos os hóspedes do hotel (outros três forasteiros) escolheram o lado da janela pra ficar. Ele deu mais um soco nela, agora na nuca e a ameaçou:

- Mais um grito e eu te mato, sua puta!
- Serginho, por favor! Eu sou virgem... Não faz isso! Vamos casar, vamos casar! - implorava aos prantos, num choro terrivelmente aflito.
- Cala a boca! Você tá louca, Gisele? Eu não quero casar pra te comer! Eu quero te comer agora!
- Ai meu Deus, me ajuda! - dizia ela de quatro, com a bunda virada para o rapaz.
- Cala a sua boca! Você tá com medo de perder a virgindade, sua puta? Você me chupa toda a noite! Qual é o problema de dar essa buceta?!
- Não! A buceta não! - a garota gritou se debatendo.
- Ah! Então quer no cuzinho? Hoje eu vou te comer, seja por onde for!
- Não, não! Socorro!

Eu assistia a cena com olhar maligno, com vontade de ajudar, mas ao mesmo tempo excitado. O rapaz cuspiu no cu da namorada e no próprio pau e enfiou sem piedade, nem imaginando a dor que estava causando à garota. Começou a bombar violentamente e ao mesmo tempo, xingava a pobre vítima, que nesse momento chorava baixo, suplicando roucamente ao seu Deus. Deus não foi salvá-la. Talvez tentasse ajudá-la, me usando, mas eu sou preguiçoso demais para ser um instrumento de Deus. O rapaz finalmente suspirou e caiu em cima da garota, que gemia de dor.

- Que cu gostoso! Vai acostumando, que agora vou comer todo dia esse cuzinho, até você tomar vergonha e dar essa buceta pra mim!
- Seu monstro! - sussurrou com voz trêmula.

Gozei também. Naquela altura do campeonato, se eu não fosse interromper aquele estupro, eu me masturbaria. E foi o que fiz. Gozei no chão do quarto e deitei na cama, com o pau amolecido. Alguns minutos de descanso e voltei à janela. O rapaz havia ido embora, e a garota estava lá, deitada na mesma posição. Pensei que ela estivesse morta, sei lá, mas ela conversava com seu Deus:

- Meu pai, por quê? Por que não me ajudou?

Compadeci-me de sua ignorância e de seu desespero. Somente os grilos cantavam em alegria e os morcegos emitiam seu som insuportável. Imaginei o terror do estupro, o medo que ela deveria sentir naquela hora, sozinha e sem ajuda. Desprezada no chão, suja de terra e com o rabo gozado. Dei um murro na parede e coloquei a cueca e a bermuda. Camiseta no corpo e lá estava eu, correndo pela recepção. Dei a volta no quarteirão e vi que o matagal era protegido por arame farpado. Rastejei no chão e ao me levantar do outro lado, a camiseta prendeu no arame. Puxei com força e ela rasgou. Não me importei e corri pelo mato.

- Tem alguém aí? Você pode me ouvir? Onde você está? - gritei desesperado.
- Aqui! Eu tô aqui... - respondeu a garota com o braço levantado e trêmulo .

Corri até onde a voz estava e a cena foi terrível. Acendi meu isqueiro e vi uma cena pavorosa. Ela estava roxa, com mechas de cabelo arrancadas e jogadas em suas costas. Seu rosto era uma mescla de lágrimas e terra. O cheiro era terrível: esperma, cu, boceta e suor. Chorei.

- Quem foi o filho da puta que fez isso com você?!

Ela não respondia, só choramingava.

- Vamos, diga porra!

Ela continuava choramingando, reclamando de dores terríveis. Eu sabia quem era o bastardo, mas eu preferia disfarçar, afinal, não queria que ela soubesse que eu poderia ter evitado aquela situação toda. Levei um susto ao ver luzes, muitas luzes e uma gritaria ensandecida vindo de vários homens. Consegui ouvir uma frase em meio à gritaria.

- Parado aí, filho da puta!

Era a polícia, três policiais apontando suas armas para mim. Levantei meus braços.

- Peraê, amigo! Eu tô socorrendo ela! Ela foi estuprada!
- Ah é? Cala a sua boca! Algemem esse filho da puta! - ordenou o delegado.
- Calma aí! Eu fui socorrê-la, porra! - gritei apontando para a garota.
- Ei, ei! Mão pra cima, caralho! - ordenou um dos policiais que chegou perto de mim com a arma apontada para minha cabeça, começando a me revistar.
- Puta merda, o que vocês estão fazendo? Socorram a garota!
- Cala a porra da boca! Não me diga o que fazer! - gritou o outro policial, me acertando um bom soco no fígado.

Caí no chão e lembro de ter sido chutado, pelo corpo inteiro. Desmaiei.

Quando acordei, estava numa cela com mais vinte e três presos que confabulavam sobre mim.

- Olha lá o estuprador! E nem é da cidade! - um preso negro e banguelo disse.
- Eu não estuprei ninguém, filho da puta! - gritei enquanto notava que minha calça estava aberta.
- Vou enfiar minha pica na sua garganta, seu safado! - outro me ameaçou.

Um policial chegou nesse momento e deu uma porrada na grade da cela.

- Cala a boca aê, caralho! Alberto, venha pra cá! - me chamou enquanto abria a cela.
- Eu disse pra vocês que não estuprei ninguém, caipira cuzão! - gritei já no lado de fora da cela.
- Se voltar pra cá, te como, seu viadinho! - alguém me ameaçou.

Mostrei-lhes o dedo do meio e caminhei junto ao policial para dentro da sala do delegado. Enquanto andava, senti que estava sem cueca. Sentei numa cadeira velha e de perna vacilante, que ficava em frente à mesa do delegado.

- Seu filho da puta! Você vem para cá, pra nossa cidade, pra 'estrupar'? - o delegado lançou olhar cínico para cima de mim.
- Eu não estuprei ninguém, senhor delegado. Eu estava socorrendo a garota, pois o meu quarto de hotel ficava de frente para aquele matagal. Eu vi a gritaria e saí correndo! Pergunte à recepcionista!
- Ela disse que não lembra de ter visto você no hotel naquele horário - disse com sorriso de deboche e um cigarro entre os dentes amarelo-escuro.
- Puta que pariu, só o que me faltava isso... - reclamei colocando as duas mãos entre meus cabelos.
- E você pode me explicar isso? - me jogou um saco, onde se encontrava minha cueca, cheia de esperma da minha masturbação proibida.
- É minha cueca! Ué? Não posso ter batido uma punheta durante o dia?
- Você não me engana, rapaz. Olha isso aqui! - lançou uma conta de restaurante. Aquela conta onde coloquei meu número de telefone, lá na cantina.
- Céus! Era a garçonete? Puta merda!
- Então você sabe quem é a garota?
- Agora sei! Quando fui socorrê-la, não deu pra ver o rosto dela!
- Sei, sei. Não acredito nessa história toda... Pra mim é lenda sua.
- Que mané lenda! Eu quero falar com meu advogado! - disse me levantando.
- Ei, ei! Sossega aê, porra! Senta aí se não vai apanhar! - disse o delegado apontando pra mim - Vamos averiguar isso tudo, mas por enquanto vai ficar na cela!
- Eu não volto pra lá, eu quero meu advogado! Você sabe o que é exame de esperma? Examine e verá! E a garota? Perguntaram pra ela?
- Cala a sua boca, sabichão! Eu sei o que fazer e por enquanto é te colocar na cadeia! Ah! E a garota disse que não sabe quem a 'estrupou'!
- Mas sabe que não fui eu! Maldito seja, maldito seja! - disse erguendo o punho direito, enquanto dois policiais me seguravam.

Levei dois murros, um em cada lado do rosto e fui retirado da sala, carregado por dois policiais. Enquanto caminhava entre os guardas, um senhor com seus setenta anos de idade levantou-se da cadeira de espera da delegacia e se dirigiu a mim com uma arma.

- Filho de uma puta! Nunca mais vai 'estrupar' ninguém! - gritou apontando a arma para mim.
- Mas não fui... - fui interrompido pelo tiro da arma do velho.

Os dois policiais tentaram segurá-lo, mas o velho conseguiu atirar. No meu pau. Gritei olhando para o sangue saindo da minha calça.

- Velho filho da puta! Maldito seja! - gritei apontando para o velho.

O delegado saiu da sala correndo e viu a cena.

- Levem o rapaz para o hospital! Medeiros! Coloque o velho na cela, já!

Fui levado às pressas para o hospital que ficava a um minuto dali. Desmaiei no carro. Três dias depois, acordei numa sala de hospital precária e o delegado estava à beira do leito.

- Rapaz, você está bem. Levaremos você para São Paulo. A garota disse que não foi você. Desculpe pelo inconveniente, mas precisamos prezar pela segurança dessa cidade.
- Eu estou bem? Cadê o doutor?
- Um momento.

O delegado voltou com o doutor.

- Doutor, como está meu pau?
- Bem, ele precisou ser amputado, devido ao tiro - disse o médico olhando para o chão.
- Santo Cristo! Mentira! Mentira! - gritei me debatendo.
- Não tente se levantar, senhor Alberto. O senhor está em recuperação! - exclamou o doutor estendendo a mão em direção ao meu pau ou ao que sobrou dele.
- Delegado, você é um miserável! Se não fosse o mal-entendido, nada disso teria acontecido! É isso que vocês fazem às pessoas que querem ajudar?
- Não é bem assim... - respondeu o delegado constrangido pelos meus gritos.
- Eu vou processá-lo! Pode esperar! Pode esperar!

Gritei por mais alguns minutos até que eles, sem paciência, se retiraram. Chorei olhando para os curativos na região íntima e lembrei dos curativos que estavam naquele mesmo lugar, mas num tempo distante, após uma cirurgia de fimose quando eu tinha quatro anos. Me levantei cuidadosamente e caminhei rumo ao corredor. Olhei ao redor e não havia ninguém. Parecia que o pronto-socorro estava vazio. Andei vagarosamente até uma outra sala.

- Prefiro morrer a viver sem meu pau - sussurrei.

Cheguei na outra sala, onde havia apenas um paciente cheio de tubos, dormindo. Avistei uma mesa e um bisturi acima dela. Segurei o bisturi e cortei a garganta do paciente adormecido. Um corte preciso, de um extremo ao outro. Depois desferi vários golpes de bisturi em seu peito, fazendo brotar um chuveiro de sangue em sua roupa. Limpei o sangue no lençol do leito e ganhei o corredor novamente. Lentamente me aproximei da recepção e uma mulher estava de costas, sozinha, sentada numa cadeira. Surpreendi a coitada com um murro em suas costas. Ela deu um grito agudo e caiu no chão. Cortei sua garganta também. A mesma precisão cirúrgica. Eu era bom nisso. O assassino sem pica. Enchi as costas dela de furos. Mais chuveiro, mais sangue. Dei uma risada e me levantei. Os pontos da minha região pubiana soltaram e começou a aparecer focos de sangue na minha calça larga de hospital.

- Foda-se! Não sou mais ninguém.

Lembrei do que um amigo meu, o Eduardo, disse um dia:

- Man, o homem sem grana é um apenas um pênis.

Eu já não tenho grana. Agora não tenho pênis. Logo não sou nada. Dei outra risada.

- Du, você fará falta lá no inferno! - falei em voz moderada, enquanto lipava o bisturi no vestido da moça.

O sangue jorrava cada vez mais na minha calça, e eu começava a sentir uma fraqueza. Minhas pernas tremulavam e eu sentia uma tontura horrível. Voltei ao corredor, aos tropeços, e encontrei outra sala. Um dos pacientes dormia, mas o outro estava com os olhos abertos, soturnos, mirando a parede. Ele me avistou.

- Ei! O que você tá fazendo, rapaz?
- Cala a sua boca, maldito!

Me aproximei do paciente que dormia e cortei sua garganta. Corte fácil, o rosto era pequeno, foi rápido. Mais furos no peito. Mais chuveiro, mais sangue.

- Minha Nossa Senhora! Socorro! Socorro! Me ajudem aqui! - gritou o paciente desesperado, batendo no suporte de soro.
- Cala a boca, caralho! - ordenei enquanto me dirigia a ele.
- Sai daqui! Sai daqui, desgraçado!

De repente a porta se abre com violência. Era o delegado com a arma apontada para mim.

- Largue o bisturi, Alberto!
- Então me dá sua arma! Quero morrer! - respondi ao delegado, enquanto eu segurava a cabeça do paciente que estava desesperado.
- Sem chance, rapaz! Largue o bisturi!
- Você vai me matar? Me mata!
- Você está louco! Solte esse bisturi!
- Delegado, seja sincero - o paciente tentava se debater e sem querer o cortei no queixo - você viveria sem seu pau?
- Eu não sei! Mas largue o paciente!
- Não! - gritei e comecei o corte da garganta, esperando um tiro fatal.

O delegado não pensou duas vezes e atirou duas vezes, no meu braço.

- Desgraçado! Atira na minha cabeça! - praguejei me contorcendo de dor.

O delegado chutou o bisturi e deu um chute na minha perna.

- Vai pra cadeia, moleque!
- Não, por favor, me mata agora! Diz que foi legítima defesa. Matei três pessoas aqui, você será o herói!
- Você tem razão, desgraçado - disse o delegado apontando a arma pra minha cabeça.
- Obrigado. Você me devia essa - agradeci sorrindo, olhando para cima, para o rosto do delegado.
Ele fechou os olhos e atirou. Meus miolos voaram por todos os lados. O paciente com o queixo cortado fazia o sinal-da-cruz em meio ao desespero.

No dia seguinte, lá em São Paulo, meu chefe segurava um jornal e comentava junto ao funcionário puxa-saco e fofoqueiro:

- Puta merda! O Alberto não só estuprou com assassinou pessoas em série! Caralho!
- É chefe, ainda bem que o senhor deu a licença pra ele, hein? Já pensou?
- Já pensei o quê?
- Já pensou se ele tem esse surto aqui na empresa? Estupra a recepcionista e esfaqueia a gente?
- Pensando por esse lado...

terça-feira, fevereiro 26, 2008

Gelo, Porra e uma Iguaria Bizarra

Sobrancelha arqueada e testa franzida. A fumaça entrava maliciosamente, cheia de curvas, pelas narinas de Alfredo. "Deve haver um lugar pra mim nessa cidade", pensava o homem sinistro que aparentava - pelas rugas profundas e olheiras escuras - bem mais que seus vinte e sete anos. Os dentes não eram radiantes como na infância e ele pensava nisso enquanto esfregava os dentes da frente com o dedo indicador. Olhou para o chão e alcançou o maço caído, dedilhou o interior da embalagem e encontrou um cigarro. Engatilhou o coitado na boca e o acendeu rapidamente. A janela de vidro estava fechada, e ficou assim por alguns instantes, enquanto Alfredo repousava sua testa no vidro e a fumaça se elevava, encobrindo a sua vista com uma espessa e irritante neblina, afinal, a vista estava perfeita aquela noite.

- São Paulo não costuma ser tão bela nesse horário, aliás, que céu! Dá pra ver estrelas! - falou impressionado, enquanto afastava a névoa com as mãos.

Soltou um pouco de fumaça pelo boca e nariz ao mesmo tempo e deu uma cusparada. Olhou o trajeto do cuspe em queda livre até que o mesmo se partiu em dois, se chocando contra o telhado de uma casa à frente do prédio. Fumou o cigarro até queimar o dedo, até o gosto do fumo ficar insuportável. Lá na rua, um carro não respeitou o cruzamento e quase carregou uma moto pela avenida.

- Por Cristo, que filho de uma puta! - murmurou enquanto lançava o filtro pela janela.

Foi até o banheiro e lá na banheira havia água e gelo, muito gelo envolvendo garrafas de vodka e de cerveja. Coçou a cabeça e fitou por alguns segundos - olho fixo - a tampa vermelha de uma garrafa de Smirnoff. Até que sacudiu a cabeça num despertar repentino e se curvou para retirar uma garrafa verde de Heineken. Apoiou a parte de baixo da tampa na quina da pia de granito e bateu com força no topo da garrafa, fazendo a bela tampa soltar da garrafa, como uma magia. E a magia acabou quando a graciosa tampa desfaleceu ao lado da privada. Grande destino, tampa. Caminhou como uma marcha para a morte, olhando para os detalhes de infiltração na parede do corredor. Apagou a luz.

- Merda de infiltração - sussurou - um dia dou um jeito nessa porra.

Deu um gole generoso em sua cerveja meio-amarga e seguiu até a sala. Olhou para os rasgos do sofá e sentou no infeliz móvel de couro fajuto. Cruzou as pernas e olhou para o teto.

- Esse sofá - falou com desânimo incontestável - um dia compro um de couro legítimo.

Soltou um peido e com certa dificuldade, ergueu-se e rumou para a janela. No meio do caminho, olhou para o toca-discos. Voltou-se para o aparelho de som e abriu o protetor de acrílico. Levantou o braço do aparelho e aproximou o seu rosto da agulha e ficou alguns segundos olhando para cada detalhe.

- Seja lá quem diabos inventou essa porra, ele é um gênio.

Devolveu cuidadosamente o braço ao suporte e abriu sua caixa de discos. Passou os dedos por várias capas. Fechou os olhos e continuou o passar de dedos.

- Pronto! Este aqui. Vejamos...

Era Highway 61 Revisited, do Bob Dylan.

- Bob, essas sua camisa é um sucesso... quem será esse cara atrás dele, com uma câmera fotográfica nas mãos? - disse Alfredo passando a mão com carinho pela capa de papelão do LP.

Cuidadosamente tirou o vinil do plástico de proteção e caprichosamente o instalou no prato giratório. Levantou o braço do aparelho e o disco rodou, como um pião nas brincadeiras de sua infância amarga. Suavemente, despejou a agulha sobre o disco e o ruído inicial, fetiche de qualquer apreciador de um bom som, serpenteou pelo ar, entrando pelos seus ouvidos, fazendo-o sorrir timidamente. A harmonia perfeita de 'Like a Rolling Stone' flutuava em sua introdução magistral, até que Alfredo sentou no chão e ensaiou um choro.

- Pai...

Levantou-se e ergueu o braço até agarrar um maço novo de Lucky Strikes. Violou o lacre e cheirou o conjunto de cigarros novos. Cheiro de chá fresco. Retirou um Lucky e com classe o colocou na boca, fazendo-o girar de uma extremidade à outra. Acionou o isqueiro e baforou uma coluna de fumaça. A Heineken estava acabando. Enquanto Dylan cantava, ele voltava ao banheiro ou melhor, à banheira.

How does it feel
To be on your own
With no direction home
Like a complete unknown
Like a rolling stone?


- Pode crer, Dylan! Sozinho, man, sozinho! - gritou erguendo e cerrando o punho direito.

Abaixou as calças e mijou olhando pra trás, mirando as garrafas. Selecionou a Smirnoff e desrosqueando a tampa, sentiu seu pau ficar duro. Olhou para ele e acariciou o membro por alguns segundos. Começou uma punheta lenta, jeitosa, enquanto dava goles na vodka gelada. Sentou-se no chão do banheiro e começou a pensar na ex-cunhada.

- Por que não comi aquela gostosa?!

E ficou lentamente segurando seu pau, num vai-e-vem sensual e precavido. Queria prolongar o prazer, nada de punheta precipitada de adolescente. Fechou os olhos e vislumbrou sua ex-cunhada Gisele, de quatro, com aquele rabo escultural em sua cara, oferecido como oferenda valorosa, pronto pra ser penetrado, centímetro por centímetro, cada um dos dezessete centímetros de seu pau dentro do cu apertado dela.

- Na praia, quando eu a flagrei pelada no quarto, enquanto se trocava... puta merda! Ela nem reclamou, nem gritou... Deu uma risada e eu, cabaço, pedi desculpas de pau duro! BURRO! - gritou Alfredo, aumentando a intensidade dos movimentos da masturbação.

Acalmou os nervos com mais dois goles da vodka e novamente estava aproveitando cada pensamento, cada fantasia com a Gisele, a ex-cunhada gostosa. Gotas de suor deslizavam sem cessar de sua cabeça e em poucos minutos seu peito exibia manchas vermelhas, enquanto a cabeça do pau estava lambuzada pelo líquido seminal pré-ejaculação. A densidade dos gemidos se alternavam com o baile das formas que a fumaça do cigarro projetava. Ele não aguentava mais. Levantou-se e num urro de alívio, gozou com abundância poucas vezes vista. Gozou dentro da banheira de gelo.

Após limpar o pau, ele estava completamente relaxado e alegre pela bebida. Abriu mais uma cerveja e Dylan permanecia na sala, com sua voz inconfundível.

Well, I wanna be your lover, baby
I don't wanna be your boss
Don't say I never warned you
When your train gets lost


Ao ouvir a música, olhou para a foto de sua ex-namorada, que também é irmã da ex-cunhada gostosa. Agarrou a fotografia e apertou-a com desespero. Lágrimas rolavam pelo seu rosto e ao limpá-las com raiva, lançou a foto no chão.

- Eu tinha tudo, sua filha de uma puta! Você era tudo pra mim! Maldita!

Cuspiu na foto amassada e correu até a cozinha com seu pau mole balançando. Abriu a geladeira e a fechou. Velha mania dos tempos de fome, quando de dez em dez minutos, abria a geladeira na esperança de que alguém com bondade suficiente tivesse deixado algum alimento. Era sempre a mesma ilusão. E Alfredo lembrou dessa época. Voltou para a sala e sentou sua bunda desnuda no chão frio e olhou para um quadro, pendurado no centro da sala. Um barco velho e um pescador o empurrando. Uma paisagem incrível ao fundo.

- Carlinhos, meu irmão...

Pegou o quadro e o abraçou. Sentou-se de novo, e como um pai acolhe o filho, acolheu o quadro e o acariciou. De repente, lançou o quadro na parede, fazendo o mesmo se despedaçar em vários pedaços. Viu que havia silêncio na casa. O lado A havia terminado. Virou o disco com cuidado e ouviu a voz de Dylan regredir com seu descaso e inquestionável brilho. Com os olhos marejados, perambulou bêbado até o quarto e encontrou Mariana nua na cama. Ela havia bebido demais, mas se recuperava e recobrava a consciência.

- Fredo, que porra é essa? Tá chorando por quê?
- Me abraça, babe. Só me abraça!
- Mas...

Mariana era uma drogada, sofrida como o Alfredo. Aparenta uma idade bem superior, mas mantinha uma sensualidade honesta e sim, era bem atraente, embora seu braço fosse marcado por manchas roxas, bem distribuídas. Estava bebendo junto ao amigo, mas apagou em meio à gargalhadas.

Alfredo pulou na cama e se encolheu, puxando os braços da amiga para si. Mariana estava confusa e enquanto mirava a nuca do triste companheiro, cedeu à pressão e o envolveu em seus braços.

- Por que está chorando?

Alfredo não respondeu. Apenas se aconchegou. Enquanto se aconchegava, Mariana esqueceu do estado sofrível do amigo, desejando secretamente o seu corpo.

- Fredo, não faça nada do que vá se arrepender...
- Fazer o quê?
- Você sabe...
- Eu não sei de nada, Mari.

Enquanto Mariana desfalecia em constrangimento, seu amigo permanecia encolhido, como um animal acuado, fechado e decidido a permanecer daquele jeito.

- O que você tem, Fredo?
- Dá pra você me abraçar, porra?
- Tudo bem, mas tá muito estranho.

Mariana sentia sua calcinha umedecer. Foram raras as vezes que teve alguma experiência sexual com o amigo. Um sexo oral rápido, mas sempre embriagados. Nada que pudesse lembrar direito. Agora ela estava num pós-porre consciente, poderia conseguir algo.

- O que você está fazendo, Mari?
- Relaxa, Fredo...

Mari levou sua mão até o pau do amigo e começou a masturbá-lo. Alfredo arregalou os olhos, mas logo voltou ao seu ritual soturno de pranto. Mas enquanto suas lágrimas desciam, seu pau subia, de forma estranha. Ela saiu de trás e se postou à frente da triste figura do parceiro até encaixar sua boceta no membro rígido e roxo. Alfredo chorava, mas logo estava executando o vai-e-vem como se fosse uma trepada normal. Gozou dentro dela. Não tanto como na banheira.

Bob Dylan estava firme e forte, como um trovador de interior, cantando os versos de 'Desolation Row'. A melancolia estava no ar e Alfredo lentamente retirava seu pau das entranhas meladas de sua amiga.

- Gostou, Fredo?
- Vá se foder.
- Como assim?
- Já conseguiu o que queria, certo?
- Você é louco...

Alfredo se levantou com porra escorrendo pela extensão de seu pau, descendo até ao saco, agarrando-se nos pêlos escuros. Adentrou o banheiro e abriu outra garrafa verde de cerveja. Deitou sem cerimônias na banheira, em meio aos cubos de gelo e algumas garrafinhas que sobraram. Tremeu muito e arrepiou-se de um extremo ao outro. Deu um grito de insatisfação e cerrou os olhos.

Mariana levantou-se da cama e deu passos apressados em direção ao banheiro.

Right now I can't read too good
Don't send me no more letters no
Not unless you mail them
From Desolation Row


Alfredo olhou a sombra da amiga cada vez maior. Segurou o secador de cabelos e o ligou.

- Não, porra! Não! - gritou Mariana começando uma corrida.

Lá da sala, o solo desconcertante de gaita rolava solto. Era o fim do disco. Era lindo.

Alfredo soltou o secador e a lâmpada do banheiro e do corredor piscaram com força. Faíscas voavam para todos os lados, num espetáculo de horror. Mariana aterrorizada, brecou sua corrida e andou rapidamente de costas, tropeçando. Caiu nua, pasma e paralisada.

- Meu Deus do céu! Meu Deus do céu!

A amiga rastejou, tentando levantar-se e, ao conseguir, correu até a cozinha. Abriu a pequena porta do registro geral de energia e o desligou. Ligou para o 192 e foi ao banheiro desligar o secador da tomada. Voltou à cozinha e ligou o registro novamente. Vestiu uma bermuda cinza e uma camiseta do Queen. Olhou para o estado deplorável do amigo e chorou.

- Fredo, Fredo... esse era o meu lugar, idiota! Eu não tenho nada, ninguém. Pra quê tudo isso? Esse era o meu lugar!

Mariana agachou-se ao lado da banheira e abaixou os cabelos arrepiados do amigo. Os olhos dele estavam arregalados e ela tentou fechá-los, sem êxito. Chorava muito, em plena confusão de sentimentos e lembranças. Foi até a cozinha e pegou uma faca afiadíssima e voltou ao banheiro. Levantou a perna de Alfredo até visualizar a coxa magra do amigo. Passou com destreza a lâmina da faca na parte inferior, que estava dura, graças à abundância de gelo contida na banheira. Conseguiu destacar uma lasca da coxa do amigo e sem pensar duas vezes, colocou entre os dentes. Mastigou a carne doce e dura do companheiro, sem o mínimo sinal de ânsia. Estava ávida pela iguaria bizarra.

A campainha tocou.

Mariana ignorou o alerta que soava da porta e permanecia fatiando a perna de Alfredo e a consumindo, cada vez mais e maiores pedaços.

O enfermeiro tentou a maçaneta e viu que a porta não estava trancada. Com passos curtos e silenciosos, entrou pela cozinha. Olhos para os dois lados e permaneceu caminhando até ganhar a sala. Quando pensou em chamar alguém, Mariana, completamente descontrolada, surgiu à sua direita e o esfaqueou nas costas.

- Mas que diabos... - praguejou o enfermeiro caíndo de joelhos.

Mariana deu mais quatro facadas nas costas do pobre enfermeiro e o deixou na sala, agonizando em seus últimos suspiros. Correu até a cozinha e trancou a porta. Se dirigiu ao quarto e dentro de uma caixa comemorativa do Lucky Strike, apanhou um três oitão. Conferiu o tambor e lá estavam as oito balas brilhantes.

A campainha tocou novamente. Era o outro enfermeiro, que havia ficado na ambulância para retirar a maca.

- Puta que pariu, cadê o viado do Gilberto? - questionava o enfermeiro sobre o seu colega de trabalho esfaqueado.

Mariana pegou um pino de cocaína e arrumou rapidamente uma carreira desleixada. Aspirou com força todo o pó, ficando com rastros brancos no buço e na ponta do nariz. Tremeu e de um suspiro violento. Alcançou a arma e num rápido movimento, colocou o cano apontado para o céu da boca. Apertou o gatilho.

O estrondo da barulhenta arma de calibre trinta e oito, fez o enfermeiro que estava tocando a campainha ligar para a polícia.

Em doze minutos dois policiais estavam na porta, juntos ao enfermeiro, tocando a campainha. Em três minutos de curta paciência, um dos soldados arrombou a porta. Com armas em prontidão, apontadas para a frente, os policiais faziam movimentos bruscos, vasculhando cada canto. Chegaram à sala e um dos policiais contemplou o corpo ensangüentado do enfermeiro esfaqueado.

- Chame uma ambulância - avisou um dos policiais.
- Já temos um enfermeiro vivo aqui - retrucou o outro policial.
- Aquilo ali? - treplicou o policial apontando para o enfermeiro trêmulo e pálido no canto da sala.
- Tudo bem, vou chamar a ambulância.

Um dos policiais correu até a viatura estacionada afim de chamar a ambulância. Dentro da casa, Mariana, que havia atirado para cima num acesso de loucura, apareceu na sala, sorrateira e enxergou o policial de costas olhando para os pequenos detalhes da sala, revistando a varanda à procura do homicida. Quando o policial voltou de sua revista, deu de cara com Mariana, descabelada e rindo de forma malévola, apontando a arma contra o policial.

- Calma, minha senhora. Muita calma - o policial tentou amansar.

Mariana sem responder aos apelos, deu dois tiros no peito do policial, que ao cair, olhou para o próprio peito, e apagou. O enfermeiro que havia presenciado a cena, estático, deu um salto e correu para fora de casa, berrando.

- Viadinho de merda! - gritou Mariana ao ver o enfermeiro escandaloso fugir de sua vista.

Ao ouvir os passos na cozinha se aproximando, Mariana não hesitou e apontou novamente o cano para o céu da boca. O policial chegou e apontou a arma em direção à ela.

- Largue a arma! - ordenou o policial.

Mariana acenou em despedida para o policial e apertou o gatilho.

sexta-feira, fevereiro 22, 2008

prazer-fêmea

seios voadores, nenhum instinto materno
apenas bicos ardentes em direção
ao sexo
leite para sustento, não
sustento das fantasias dos homens, sim
e não haverei de descer às suas coxas
e o perigo de suas cercanias
ando pequeno, miúdo por um terreno vívido e fértil
humana clara de alma escura
girei meu corpo por cima do seu
procurando a fonte do cintilante calor
que se emaranhou desde os meus pés até a ponta da cabeça
e vi, de um extremo ao outro, que ali se originava
tesão, paixão, excitação
nas suas mãos lá estão
fabricados, embalados e negligentemente distribuídos
ao seu bel prazer
o seu prazer
dentro do seu prazer
porque você é o prazer-fêmea

sábado, fevereiro 16, 2008

Liso, Escorregadio

Homero estava convencido de que havia efetuado o crime perfeito. Sem pistas, sem o mínimo rastro, ele sorria enquanto vasculhava seu bolso procurando um cigarro solto. Lá estava um Marlboro vermelho, enrugado pelo lugar hostil onde se encontrava. Cigarro aceso, perfeito.

- Preciso dormir - pensou.

Arrastou-se pela cozinha apagando a luz. Bateu a cinza no chão, sem se preocupar com um eventual incêndio, tendo em vista que o chão era revestido por um carpete que por sinal, fazia tempo que não era aspirado. Pó, muito pó. À cada passo, pó. Apagou a luz da sala desabotoando sua camisa azul marinho e ao entrar no quarto, fitou o cinzeiro cheio pela metade - cinzas, gimbas e embalagem plástica do maço - e bateu novamente a cinza.

- Puta merda, que frio! De manhã tá quente, à noite esfria! Eu odeio essa cidade! Vai tomar no cu, São Paulo! - gritou olhando as ruas salpicadas de luzes, pela janela do décimo terceiro andar.

Lançou a camisa na cama e sentou-se para tirar a calça. Coçou a cabeça exausto, olhando para uma lasca que permanecia pendendo em sua escrivaninha. Lançou a calça na parede e a fivela do cinto arranhou a pintura.

- Foda-se!

Pegou o Slanted and Enchanted do Pavement e o colocou cuidadosamente no CD Player. Summer Babe começou a jorrar pelas caixas de som. Ao invés da euforia proposta pela canção (pelo menos ele sempre se animava com ela), Homero olhou melancólicamente para seu guarda-roupas, puxou uma bermuda e uma cueca e se dirigiu ao banheiro.

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As sirenes na rua Bartolomeu de Gusmão não paravam de escandalizar a paz dos moradores da Vila Mariana. Azul e vermelho cintilavam pelas paredes das pizzarias e prédios até que os dois carros destacados para o caso frearam bruscamente na frente de um prédio de tijolos, bem alto por sinal.

- Porra, deve ter uma bela vista lá em cima! - disse Osvaldo olhando para cima e limpando o suor da testa com sua carteira de identificação.
- É, Osvaldo... Como é bom entrar em ação no berço da burguesia! - retrucou Ulisses, com ares de revolta e satisfação.
- Você é um comunista idiota, isso é o que você é. - treplicou Osvaldo, levando um cigarro fumado pela metade à boca.
- E você é um cego. Foda-se você Osvaldo, não vou discutir agora - retrucou ao se dirigir à guarita do prédio - sei que seu cu tá piscando pra que eu me esquente e discuta, só pra você rir, se divertir. Vá se foder.
- Tá bom, tá bom. Mas pára com esse papo de burguesia. Isso me cansa, sabia?
- Depois a gente fala sobre isso.

O dia estava frio. O céu começava a juntar imensas bolas de nuvens negras, porém esse baile celestial era disfarçado pela escuridão da noite. O pizzaiolo largou a massa na mesa de manipulação e saiu envolto em farinha para verificar a ação dos homens que pararam na frente do adorável prédio de tijolos.

- Armando, volta aqui! Temos seis pizzas para entregar! - gritou seu João dos fundos da pizzaria.
- Seu João, a polícia colou aqui na frente, vai entrar no prédio!
- Pro diabo com a polícia! Volte pra massa! Sério!

Armando voltou murmurando alguns palavrões e continuou a manusear a massa pálida de pizza, enquanto se esticava para tentar ver algum movimento. Ele queria um tiroteio, uma perseguição. Mas sabia que seu João é um chefe implacável. Faria pizzas para um exército em meio a um front de batalha. Ele queria dinheiro, muito dinheiro.

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- Porra, vou cagar primeiro! - sussurrou Homero, enquanto procurava uma revista no quarto.

Achou um encarte de ofertas de um supermercado e correu para a latrina. In The Mouth A Desert tocava ao fundo. Ele deixou a porta do banheiro semi-aberta pois essa era a canção preferida dele. Enquanto a bosta escorregava pelo seu cu, ele escorregava pela privada, num alívio incrível. Logo retomou a postura e ergueu o encarte:

- Santo Cristo! O feijão não pode estar custando tanto assim! Sete reais! Maldito governo!

Folheou mais algumas páginas até que, ao chegar na parte de limpeza, jogou o encarte no chão e se limpou. Olhou para o box e não encontrou toalha alguma. Abriu a porta balançando os braços para que o cheiro se dissipasse, e dirigiu-se à pequena área de serviço onde o varal se encontrava. Pegou uma toalha vermelha e deixou a luz da cozinha acesa. Sentou no sofá e ligou para a pizzaria e pediu uma pizza.

- Traz troco pra vinte, beleza? E traz uma Brahma também.

Levantou-se e andou até o banheiro. Abriu o box e em seguida o chuveiro. Enquanto a água descia pelos seus longos cabelos, seus músculos cediam e o estresse parecia descer pelo ralo.

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- Pois não? - questionou o porteiro com solicitude em sua voz.
- Estamos aqui sob autorização judicial para deter o senhor Homero, que reside no apartamento 132 - disse Osvaldo com a mais genuina cortesia.
- Opa! É pra já!

O portão se abriu e os dois policiais adentraram o prédio, mostrando suas identificações para o porteiro, que distraído, permaneceu pasmo pensando no Homero.

- Antônio! Tão atrás de quem? - perguntou Armando, o pizzaiolo, do outro lado da rua.
- Do Homero, aquele cabeludo do décimo terceiro, sabe?
- Ah sim, ele vive pedindo pizza aqui. Aliás, pediu uma de anchova agora pouco!
- É melhor cancelar essa merda! Hoje ele vai ver o sol nascer quadrado! Hahahaha - gargalhava o porteiro com seus poucos dentes e o bigode amarelado de café e tabaco.

Enquanto o diálogo escandaloso entre portaria e pizzaria se prolongava com ironia e humor, os dois policiais penetravam a recepção do edifício. Ulisses apertou o botão do elevador.

- Olha essa recepção! Que móveis! Imagine a casa desse Homero. Deve ser um publicitário endinheirado, com seu carrinho do ano, todo folgado. Maldito! - rosnou Ulisses.
- Caralho, Ulisses, foda-se se ele tem grana! Vamos algemá-lo sem cerimônia e levar o safado pra delegacia. E deixe que os outros se encarreguem dele. Aliás, parece que você nunca lidou com ricos!
- Já lidei sim, e cada vez que lido com um burguesinho, morro de raiva! Eles têm dinheiro saindo pelo rabo, pra quê fazer crime?
- Eles são humanos, porra. Dinheiro não melhora ninguém - respondeu Osvaldo com olhar entediado.
- Eles são uns burros mesmo!
- Pra ter dinheiro nesse país, você tem que ser pilantra, esqueceu disso? Se liga Ulisses, para com essa sua raiva comunista!
- E você, pare com essa sua repulsa pela causa trabalhista!
- Eu não tenho repulsa alguma, eu só não fico recriminando quem tem dinheiro.
- Tá bom, depois a gente conversa sobre isso - desconversou Ulisses, enquanto abria a porta do elevador.

Quando Osvaldo apertou o botão do décimo terceiro andar, eles ouviram passos rápidos, de salto alto. Era uma mulher que abrira a porta do elevador. Entrou no mesmo e com semblante cansado, sorriu gentilmente para os policiais carrancudos.

- Boa noite - ela os cumprimentou, arrumando a franja loira.
- Boa noite - responderam em uníssono.

Enquanto o elevador subia, a dupla disfarçava ao máximo os olhares que permeavam o decote da loira, que permanecia olhando para a porta. O elevador chegou ao sexto andar e ela saiu, com um tchau singelo e o barulho de seus saltos a acompanhando.

- Meu Deus, Ulisses! Você viu ela? Puta que pariu! Eu largaria por alguns minutos essa detenção só pra foder ela rapidinho!
- Cala a boca, Osvaldo! Se concentra que a gente vai entrar em ação agora! - Ulisses repreendeu o amigo passando a mão pela cintura afim de pegar seu revólver.
- Comunista eunuco de merda! Só pensa em igualdade social! Sabe o que você precisa? Uma trepada linda!
- Tá bom, depois a gente fala sobre isso.

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Os vapores da água quente vindos do chuveiro elétrico tomavam o banheiro e graças a esses vapores, Homero escarrava sem parar na parede.

- Essa porra dessa água não fica morna! Ou quente ou fria! Puta merda!

Desligou o chuveiro e envolveu a cintura com a toalha. Sacudiu os longos cabelos e abriu a porta do box. Enquanto saía para se enxugar, pisou no sabonete e escorregou. O banheiro não era grande, na verdade era um tanto apertado, o que complicou a situação de Homero que ao cair, bateu a nuca na ponta do vaso sanitário. O impacto foi forte o bastante, fazendo Homero desmaiar, vertendo sangue da boca. A pulsação acabou e no corpo magro de Homero já não restavam resquícios de vida. O corpo dele ficou derramado junto à porta.

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- Senhor Homero, abra a porta agora. É a polícia! - vociferou Osvaldo.
- Porra, vamos ter que arrombar essa bosta - considerou Ulisses
- É, eu arrombo e você me cobre! - combinou Osvaldo.
- Feito!

Osvaldo tentou quatro vezes até que um chute mais forte fez a porta ceder. Inspecionaram a cozinha e a área de serviço. Nada. Com as armas em prontidão e apontadas para frente, vasculharam a sala, mas como nos outros cômodos, nenhuma novidade.

- Olha a TV do cara! - disse Ulisses fazendo sinal de riqueza com as mãos.
- Cala a boca, porra! - respondeu Osvaldo, morrendo de raiva.

Cada um entrou em um quarto, fazendo movimentos bruscos, abrindo guarda-roupas e novamente não encontrando nada. O cheiro de xampu que o vapor do banheiro alastrava direcionou a atenção da dupla para o banheiro e sua luz acesa. Ulisses acendeu um Camel e friamente bateu na porta.

- Senhor Homero, saia do banheiro, o senhor está preso.
- Ah, que se foda, Ulisses! Me cubra pois vou arrombar! - avisou Osvaldo.

Osvaldo conseguiu destruir a tranca da porta, porém a porta não abria. O corpo de Homero obstruia a entrada dos policiais.

- Homero, eu vou atirar na porra da porta! - ameaçou Osvaldo.
- Peraí! - disse Ulisses afastando seu colega do local.

Ulisses fez força e conseguiu visualizar a perna de Homero no chão. O sangue começava a invadir a entrada do banheiro.

- Meus Deus, o burguês se matou! - gritou Ulisses mordendo o próprio braço.
- Como assim? - perguntou Osvaldo enquanto voltava da sala.
- O miserável! Se matou! Puta merda!
- Vamos ver isso!

A dupla começou a trombar a porta com força, até que em uma batida, o corpo se mobilizou para o lado e a porta foi aberta, num espaço suficiente para entrar de lado. Ulisses entrou primeiro e contemplou o corpo morto e nu de Homero. Balançou a cabeça negativamente e bateu cinza na privada.

- Chame uma ambulância. Seja lá o que for, chame uma ambulância.
- Não parece suicídio, Ulisses.
- Diabos, foda-se. Chame uma ambulância.

O Pavement permanecia cantarolando no CD Player, a faixa era Fame Throwa. Ulisses olhou para a direção do quarto.

- Porra, Osvaldo, desliga essa merda de som. Como podem gostar disso?