sexta-feira, julho 16, 2010

Uma Foda Empatada

São Paulo é uma maldita cidade tropical. O calor é só um ingrediente picante dentro do caldeirão infernal que essa selva falida reúne. Poluição, ar seco, muito barulho e cheiro de sovaco sofrido. Mas quando o frio assalta o clima, ele vem como um arrastão carioca. Se na segunda-feira você praguejou contra o calor, pode ser pego de surpresa no dia seguinte ao acordar. Você acorda inconsciente de madrugada atrás de um edredom ou cobertor para aliviar a brisa gelada que se abriga no escuro. Hoje é um dia desses. Acordei e já era uma da tarde, com o nariz gelado e tossindo ainda mais que o comum. Quando fui dar a mijada matinal, mal encontrei meu pau entre os pentelhos e adivinhem só: errei a mira e acabei molhando o chão. Toquei a descarga e fui procurar um pano de chão, mas lembrei que todos estavam deploráveis e jogados na lavanderia, esperando a minha misericórdia, quando eu os lavaria. Bem, após todo o trabalho desgraçado para limpar o banheiro, olhei para o calendário na cozinha e agradeci aos céus por hoje ser primeiro de maio, o dia internacional do trabalho. Sempre me perguntei o motivo dos trabalhadores descansarem justo no dia que homenageamos o labor. Hoje eu não me questiono, apenas relaxo. Quando faz muito frio, eu pareço um maldito inglês das músicas dos Kinks. Preguiçoso, bêbado e rejeitado. E para mim, o modo mais prazeroso de descanso é me recolher em meus pensamentos, bebendo até adormecer. Geralmente escolho um repertório triste para o frio e hoje não foi diferente. Os Kinks, que para mim foram melhores que os Beatles e os Rolling Stones, lideraram a minha parada pessoal de sucesso. Assim como um marujo britânico e barbudo em algum bar de má fama na zona portuária, me postei a beber e raciocinar sobre temas diversos. Fiquei juntando peças da minha vida, mas vi que o quebra-cabeça estava bem incompleto por sinal. ‘Sunny Afternoon’ começou a tocar e me identifiquei totalmente com a letra. O sentimento de perda e falta de orientação me assolou e assombrou. Acendi um cigarro e estou aqui estático:

My girlfriend run off with my card
And gone back to her ma’ and pa’
Telling tales of drunkenness and cruelty


Tá certo que a Bárbara não fugiu com meu cartão, mas eu realmente não sei o que ela vai dizer aos pais sobre mim. Talvez algum papo sobre eu ser um grande bêbado, mas cruel? Talvez eu seja bem cruel comigo mesmo, mas tenho sido um bom amante. Mas não um bom companheiro, seja lá o que isso signifique. Eu sempre canso as minhas namoradas, eu sempre sou acusado de não ter ambições, mas com todos os diabos, eu não nasci para ambicionar, para passar por cima das pessoas em prol de meus objetivos. Sei lá, acho que não me vendi para o capeta e pago o preço com essa vida pacata e miserável. As mulheres são realmente farinha do mesmo saco. Se um homem não pode garantir estabilidade financeira, a mulher descamba para outro. Malditas sarnas do demônio. Estou bem aqui sozinho, aliás, acho que já estou começando a divagar demais. Estou bêbado.

O telefone tocou. Era o Maulin, um bom camarada porém muito estressado. Ele chegou ontem lá pelas oito da noite e só saiu às duas da madrugada após ser enxotado por mim, segundo seu relato. Quando bebo acima do suportável, tenho o péssimo costume de expulsar as pessoas de minha casa. Acredito que a Bárbara irá relatar isso aos pais dela. Que ela vá para o inferno, antes que eu me esqueça. Maulin vai aparecer mais tarde pra gente terminar as duas caixas de cerveja que sobraram aqui. Isso se eu não acabar com tudo antes.

--------------------------------------------------------------------

Nelson foi despertado pelo telefone que tinha um toque muito alto. Pulou do sofá de dois lugares completamente manchado por todos os líquidos imagináveis e correu para atender a chamada.

- Pois não – Nelson atendeu o telefone tentando desenrolar o fio do aparelho.
- Nelson, é o Maulin. Mudança de planos. Temos duas opções: ou vamos ao Tchê jogar uma sinuca e beber ou você vem pra cá.
- Pra cá onde?
- Meu apê. A Agnes não está se sentindo muito bem, está meio tonta. Nem vai rolar deixá-la aqui sozinha. E ela disse que prefere ir ao Tchê a ir na sua casa.
- Você não engravidou a desgraçada, né?
- Pelo amor de Deus, Nelson, vai se foder... Você sabe que não existe nada entre eu e aquela drogada.

Agnes era uma mulher alta, cabelos ondulados e castanhos, assim como eram seus olhos. Trinta e sete anos, assim como era o tamanho do pé. A cara era de um desgaste descomunal, graças a anos de frustrações e bebedeiras como escapatória. Havia largado as drogas, mas todas as substâncias químicas haviam comprometido seu modo de pensar e reagir a certos imprevistos da vida. Ela estava rumando para a plataforma da loucura e Maulin era o único ser que se locomovia na Terra que podia suportá-la, dando moradia a ela.

- Sei. Bem, essa Agnes é fresquinha, hein? Só porque aqui é um pouco sujo? E não quero ir ao Tchê. Não dá mais pra fumar lá, e você sabe que sinuca e rock sem cigarro não rola. Maldito José Serra e essa lei anti-fumo. Aguarde a lei anti-sexo, man. Aguarde! – Nelson levemente embriagado sempre deixava aflorar seu lado esquerdista.
- Ei, ei! Não vai começar com essas porras de discursos! E então? Vem pra cá?
- Tá certo. Deixa eu me recuperar dessa dorzinha de cabeça e já saio daqui. Inté.
- Inté.

Nelson foi até a cozinha para comer algo e olhou para as caixas de cerveja. Pensou que teria que levá-las na mão. Praguejou um pouco e cortou um pedaço da peça de queijo que estava na geladeira. Abriu um pão francês e ao passar manteiga nele, pensou que deveria ter colocado o queijo dentro. Bocejou e comeu o pão com um pouco de café velho esquentado no micro-ondas. Após a pequena refeição, trocou de calça e colocou uma camisa xadrez. Amarrou o cadarço do tênis e foi até a cozinha para pegar as caixas de cerveja. Flagrou uma barata perto do fogão e pulou em cima dela, fazendo o sangue branco e viscoso do inseto se espalhar por um longo raio de alcance.

- Deus eterno! Maldita barata desgraçada! – praguejou Nelson enquanto pegava um pano de chão, sujo e deplorável para variar.

Nelson limpou a carnificina e jogou o pano no lixo. Lavou as mãos e colocou as caixas de cerveja a frente do elevador. Trancou a porta e desceu até o térreo.

--------------------------------------------------------------------

Eu não reclamo dessa vida que tenho. Eu simplesmente trabalho para pagar esses momentos. Não vejo beleza nenhuma na vida de família. Convidar outros casais e seus filhos para um churrasco em minha casa. Eu não consigo me colocar no lugar desses homens. Eu não me imagino com um filho sequer, tendo que educá-lo para a vida. Provavelmente um filho meu se transformaria em um tipo de maníaco, um bandido, um cafajeste odiado pelas mulheres. A Bárbara não queria ter filhos, era isso que eu gostava nela. Mas após alguns meses de relacionamento, tenho certeza de que, se despertasse nela um sentimento materno, com certeza eu não seria o eleito para plantar espermatozóides alucinados por um óvulo dela. Eu lhes digo: ela terminou o namoro com uma repulsa tão grande em relação a mim, que tudo o que eu fazia despertava ódio nela. O meu jeito de andar, o meu jeito de fumar um cigarro, o meu jeito de contar piadas. Ela me desprezou e com certeza vai me esquecer em um par de semanas. Malditas mulheres. Se aquele lance de Adão e Eva fosse verdade, as desgraçadas então deveriam ser amaldiçoadas. Era pra serem nossas auxiliares e agora querem tomar nosso lugar de líderes. Olha, pra ser sincero eu gosto muito das mulheres, mas acho que tenho um sério problema com elas. Acho que elas pedem muito e eu tenho pouco a oferecer. Os amigos são diferentes. Eles querem beber com alguém, falar sobre a vida com alguém, eles querem debochar de alguém e essas coisas eu tenho de sobra a oferecer. Agora se me pedirem dinheiro, será o mesmo que pedir alguma esmola para um mendigo. Simplesmente não faz sentido pedir dinheiro para mim.

Malditas caixas de cerveja, o plástico que as envolve está rasgando, vou ter que empilhá-las, só que preciso de uma mão livre para fumar.

Acho legal o apartamento do Maulin. Tem uma pequena sacada para fumar e olhar para o céu. E o Maulin é um cara esperto pra caralho. Mas o trabalho de gerente comercial está deixando ele de cabelos em pé. Está muito estressado, se queixando muito de tudo, e ainda tem a Agnes para tirá-lo do sério.

Eu não entendo o porquê daquele miserável dar abrigo a ela. A mulher é um furacão de problemas. Nos anos noventa ela era uma porraloca que vivia de bar em bar, de balada em balada causando problemas, perturbando as pessoas com sua voz fina e levemente fanha. Sua presença sempre causava transtornos, mas como na vida nada é unanimidade, sempre existiam pessoas que andavam com ela, se drogavam com ela e bebiam com ela. Ela esteve presa algumas vezes, esteve em clínicas de reabilitação também, enfim, era a palavra problema encarnada. Ela finalmente saiu dessa vida porque envelheceu. Um dia acordou e sentiu que brincar de ser jovem era ridículo. Quando olhou ao seu redor e só viu amigos de vinte e poucos anos para conversar, Agnes sentiu falta de pessoas experientes, pessoas com conteúdo. À medida que você envelhece, é natural perceber a falta de malandragem nas pessoas mais novas. E ela abandonou seus círculos juvenis de amizade e falhou miseravelmente em ingressar em grupos mais maduros de amigos. Ela era uma eterna garota de vinte-e-poucos-anos e sendo dessa forma, vivia criando intrigas infantis com adultos de cabeça feita. Hoje em dia, ela rejeita seus amiguinhos e é rejeitada por seus amigões. Maulin é o único homem maduro que de alguma forma misteriosa suporta seu jeito. Eu tenho quase certeza de que Agnes tem uma queda fodida por ele, mas ainda careço de provas mais concretas.

--------------------------------------------------------------------

Nelson chegou à porta do prédio e falou com o porteiro através do interfone. Após a confirmação com Maulin, a porta se abriu. Nelson o cumprimentou mas o velho porteiro nem virou o rosto. Ele sabia que a noite seria de perturbação e reclamações dos apartamentos ao redor de Maulin. Subiu o elevador e chegou à porta do apartamento. O prédio tinha quatro apartamentos por andar e era muito bem situado, ficando em Perdizes. Tocou a campainha.

- Entra aê, porra! – era Maulin gritando da cozinha. Ele preparava alguns frios para serem petiscados.
- Maulin, seu bosta, a porta está trancada!
- Agnes, porra, você trancou a porta! Que mania do caralho! Vai lá abrir!
- Já vou! – Agnes enrolava uma toalha em seus cabelos molhados.

Depois de três minutos, Nelson já havia aberto uma lata de cerveja quente e havia acendido um cigarro.

- Olá Nelson! – Agnes simulava uma voz aparentemente despretensiosa e esnobe, com um ar de leve superioridade e pouco entusiasmo, como se tivesse mil coisas a fazer.
- Opa, como vão as coisas? – Nelson deu um rápido beijo no rosto dela e seguiu direto pela cozinha.
- E esse cigarro aceso aí, Nelson? Velho, vão reclamar logo, logo, por fumar no corredor – Maulin despejava orégano nos cubos de queijo cortados.
- Se demorasse mais dois minutos, eu cagava na sua porta, seu lixo! – Nelson deu um abraço no amigo – Vou colocar as latas no congelador.
- Deixe na geladeira, hoje ta frio pra caramba.
- Você parece um australiano, man. Beber cerveja na temperatura ambiente? Eu vou deixar algumas latinhas no freezer, só pra garantir.

Maulin tinha um computador na sala, ligado ao seu aparelho de som e um jazz no mínimo alegre tocava freneticamente. Nelson se acomodou no sofá e acendeu outro cigarro. Reclamou da demora de Maulin e perguntou a Agnes se estava viva. Não recebeu resposta. De repente aquele jazz alegre se transformou em uma forma psicodélica e progressiva de tocar instrumentos. A bateria era tribal, experimental, era atraente como uma chama. Nelson ficou paralisado durante quatorze minutos, que era a duração da música. Após retumbantes batidas, insinuantes toques de saxofone e até ensandecidas dedadas em harpas, ele pulou do sofá e despertou de seu transe.

- Maulin! Que som é esse, pelo amor de Deus?!
- Art Blakey! – gritou Maulin com a boca cheia de salame.
- E ele toca exatamente o que?
- A bateria. A banda chama The Jazz Messengers.
- Puta que pariu! Isso que é som! – Nelson já havia se levantado e se postado junto à porta da cozinha.
- Esse cara é sensacional mesmo. Muitos bateristas do rock têm ele como referência. O cara é foda.
- Depois me lembre de te mostrar um músico etíope que achei. O cara é demais, de verdade. Música bem feita, sem frescura. Chama-se Mulatu Astatke.
- Caralho, onde você encontra essas coisas?
- Nesse caso foi num filme.

Os dois se juntaram na sala e começaram a discutir sobre música. À medida que as bebidas eram consumidas, as conversas começavam a descambar para um lado mais pessoal. Agnes se assentou no tapete da sala e ficou cutucando a unha do dedão do pé. A presença dela não os inibiu e eles continuaram falando mal de mulheres e citando suas bocetas, bundas e peitos. Ela apenas sorria, em silêncio, concentrada em suas unhas.

- Velho, a Clara era muito gorda! Como você conseguiu meter naquela bunda? – Maulin dava risadas, exibindo dentes cheios de casca de amendoim.
- Meter na bunda era fácil, o foda era meter naquela boceta velha. Mas sabe aquele papo de que as gordinhas têm mais tesão? Pura verdade. A garota era insaciável. E chupa muito bem por sinal.
- Olha, ela pode até me prometer orgasmos múltiplos com uma boa chupada, mas eu passo essa! Ela é muito gorda!
- Agora você me sentir mal – Nelson olhou pra baixo fazendo cara de menor abandonado.
- Cara, que Deus tenha misericórdia do teu pau, porque você não tem! Hahaha!
- Já chega desse papo. Ou quer que eu te lembre da Miss Jibóia?
- Do que você ta falando, Nelson. Você já comeu traveco, porra – Maulin abocanhou mais alguns amendoins.
- Mas eu não escondo isso de ninguém. Agora você estava se gabando de ter pego a melhor da balada, parecia uma miss Brasil e acabou sendo enrabado! Hahahaha!
- Ela não me enrabou porra nenhuma, Nelson! Corta essa! Ela tentou, mas não conseguiu – Maulin falava enquanto se levantava para buscar mais uma cerveja.
- Sei, sei. Miss Jibóia! Hahaha!
- Deixa ele, Nelson – Agnes se intrometeu.
- Você fica na sua, coração – e apontou o dedo para ela com ar de reprovação.
- Seu grosso, comedor de gordas – sussurrou com sorriso sarcástico.
- É melhor você ficar quietinha se não você vai começar a me chamar de comedor de loucas também.
- Você tem pau pequeno, Nelson. Por isso que come traveco.
- E o que tem a ver o cu com as calças?
- Você não me engana, seu pica mole.
- Mais uma palavra e além de comer gordas e travecos, vou comer seu cuzinho.

Agnes hesitou um pouco e considerou por alguns segundos o fato de Nelson poder cumprir sua ameaça. Ele estava bêbado e poderia fazer qualquer loucura. Ela também estava bêbada e começou a rir.

- Vai tomar no olho do seu cu, seu cuzão.
- Agora você vai ver!

Nelson se jogou em Agnes e enfiou a mão em sua calça de lycra. Ela dava pequenas risadinhas até quando ele conseguiu dar uma dedada no cu dela.

- Chega, chega! Eu fico calada! Hahahaha!
- Esse é um aviso, coração! Da próxima vez eu chupo seu rabo e meto nele – o tom de Nelson foi sensual e o seu olhar, maligno.

Maulin estava cagando enquanto essa pequena putaria acontecia.

- E a Bárbara, cadê ela? – Maulin perguntou enquanto enxugava suas mãos na camiseta.
- É, a Bárbara já era. Terminamos ontem. Ela é uma puta ingrata! – Nelson estava claramente alterado pelas cervejas.
- Bem, sei lá, é a vida, amigão. Elas sempre nos dão uma punhalada pelas costas – Maulin se juntava ao time dos bêbados e deixava a boca falar por si só.
- Vocês dois são uns desgraçados! A Bárbara só queria uma vida normal, ela não pode ser culpada por querer isso! – Agnes novamente se intrometia na conversa.
- Maulin, diz pra ela que eu vou comer o cu dela, diz! Diz pra ela, porra!
- Calma Nelson, calma Agnes. Vocês dois são mesmo uns putos, derrubaram a cerveja no tapete! – Maulin se levantou e rumou até a cozinha.
- Sua vaca, hoje eu vou gozar no seu rabo, pode escrever o que to dizendo - Nelson falava quase sem som.

Agnes apenas olhava para Nelson com um olhar levemente vesgo, um sorriso de canto e fazendo sinal positivo com a cabeça. Maulin tentou absorver o máximo de cerveja com o pano e voltou para a lavanderia. Agnes levantou-se e foi até o computador para trocar de música. ‘Evil Woman’ do Black Sabbath começou a rolar e Nelson captando a mensagem que Agnes tentou passar pra ele, a juntou nos braços.

- Você não ta mais pra crazy woman do que evil woman, sua puta. Hoje eu vou te possuir, ta me ouvindo?
- Vai comer ela, Nelson? – Maulin novamente chegou secando as mãos úmidas em sua camiseta.
- Se ela não sossegar o facho dela, vou dar surra de pau mole nela - dizendo isso, Nelson soltou Agnes e a empurrou rumo ao sofá.
- Só pode ser de pau mole mesmo, seu comedor de baleias! Hahaha!
- Sai daqui, sua vaca! – Nelson apontou para a porta, a expulsando do apartamento.
- Ei Nelson, aqui não é sua casa! Se quiser, você saia fora! – Maulin se exaltou lembrando da noite anterior quando foi enxotado bêbado do apartamento do amigo.
- Eu ficarei, pelo bem da nação! – respondeu Nelson com a mão erguida, apontando para cima, como se estivesse declarando a independência de algum país.

Os ânimos se acalmaram e eles voltaram a conversar civilizadamente. Maulin acendeu um charuto pra ele e pra Nelson e disse para Agnes que aquilo é coisa pra homem. Agnes contrariada foi trocar de música.

- Porra Agnes! Não dá pra ouvir uma música por inteiro? Tem que ficar trocando, trocando? Cacete! – Nelson reclamou com o charuto deslizando por sua boca.
- Juro que é a última que coloco, sério!

Ela clicou na música e correu para a cozinha. ‘Ballade de Melody Nelson’ começou com a voz de Serge Gainsbourg, o grande ídolo de Nelson. O ritmo cheio de suingue da guitarra o fez rir. Prontamente ele se pôs em pé e foi até Agnes. Na cozinha, ela já o esperava com o mesmo sorriso diabólico e sedutor que ela tanto utilizara em seus trinta e tantos anos de vida.

- Você é foda, mulher. Vem aqui – Nelson a pegou pelo cabelo e lhe deu um beijo na boca.

A língua de Agnes parecia uma serpente enlouquecida, longa, lisa e intensa. Nelson sentia dificuldade em acompanhar os movimentos da língua dela e para tentar quebrar o gelo, enfio a mão novamente dentro de sua calça apertada. Desta vez foi pela frente, e se ela era frenética com a língua, ele iria mostrar sua destreza com os dedos. Maulin dava risada com ‘En Melody’, a canção que se iniciava. Nela gemidos e risadas femininas serpenteavam pelas ondas sonoras. Até o momento que a mulher, na metade da música, dá uma risada longa e fanha.

- Ah, que putaria de som... – Maulin balbuciava com o charuto todo babado em sua boca.

A atmosfera que se formou com o som de Gainsbourg apenas atiçou o desejo do casal na cozinha. Soltaram todos os seus demônios, como todo humano faz quando está bêbado. Nelson a virou para a pia e abaixou sua calça. Quando puxou a calcinha, ela rosnou.

- O Maulin não vai gostar disso!
- Corta essa, sua vaca! Agora você vai dar gostoso pra mim. Você ta gostando, olha como ta molhadinha – Nelson esfregava seu dedo médio no clitóris dela.
- Não, Nelson, não! Pára de esfregar esse pau na minha bunda!
- Filha de uma puta! – Nelson guardou seu pau e levantou a calça jeans surrada.
- Ei, você vai pra onde?
- Vou cagar e talvez bater uma punheta pra que meus bagos não fiquem doendo, sua vaca – respondeu enquanto acendia um cigarro e se dirigia ao banheiro.

--------------------------------------------------------------------

Maldita vaca. Maldita seja. Agora meu pau ta todo melado e nem consegui gozar. Eu detesto beber por isso, sempre acontece! Acabo comendo qualquer lixo que apareça, enfio em qualquer buraco. Vaca do caralho! Onde eu que eu tava com a cabeça? Eu nem sei onde essa boceta passou. A Agnes parece uma farofa de churrasco, todo mundo passa a linguiça, e eu metendo nela sem camisinha... Nelson seu cabaço do caralho! Deixa eu lavar essa merda.

--------------------------------------------------------------------

Nelson saiu do banheiro sem cagar e sem bater punheta. Ficou intrigado demais com as palavras AIDS, Cazuza, Freddie Mercury, gonorréia, sífilis, cancro mole e duro. Lavou seu pau três vezes, esfregando com afinco. Chegou na sala e viu Maulin adormecido no chão, encostado no sofá. Agnes estava só de calcinha e de bruços, apagada em cima do mesmo sofá. Nelson mandou eles para o inferno e tirou os sapatos e rumou para o quarto de Maulin. Avistou o mimo de seu amigo, uma pequena adega eletrônica cheia de garrafas caras de vinho.

- Um dia eu quebro essa merda, Maulin, e bebo tudo – Nelson desmoronou na cama confortável do amigo.

Quando Nelson adormeceu, era quatro da manhã. Quando acordou, já era sete e meia, mais ou menos. Foi mijar, se dirigindo ao banheiro com passos lentos, apertando sua cabeça devido à ressaca assombrosa. Ao sacar seu membro, verificou uma textura diferente. Era a única palavra que ele não lembrou na hora em que tentara cagar há horas atrás. Verrugas. Eram três pequenas verrugas que nasceram bem distribuídas pela extensão de seu pau. Ele suou frio e esqueceu de mijar. Ficou tentando arrancá-las num ato de extremo desespero. Foi em vão, elas permaneciam firmes e nojentas.

- Caralho, mas nasceram tão rápido! Saiam suas malditas! – Nelson riscava as anomalias com força.

Ele lembrou de que ia mijar. Manteve a calma, respirou fundo e mijou uma urina clara e abundante. Tocou a descarga porém não levantou sua calça, nem a cueca. Caminhou friamente até a sala e se assentou ao lado de Agnes que continuava apagada, agora dormindo de lado. Maulin havia despencado e dormia em posição fetal, aquecido e completamente entregue ao sono. Era sábado, não havia preocupação com o trabalho. Nelson iniciou uma masturbação descontraída, relaxante. Pensava em Bárbara, sua ex-namorada, uma descendente de italianos, de cabelos vermelhos e ondulados, seios fartos, bunda arredondada e sem excessos. Ela tinha um rosto com traços fortes, exatamente como as mulheres daquele canto da Europa.

- Ah Bárbara, só bastou você sair da minha vida para eu começar a fazer merda... – resmungou enquanto pensava na cena que mais o marcou no curto relacionamento, quando Bárbara cavalgava em seu pau, gritando como uma louca.

Nelson aumentou a intensidade de seus movimentos e começou a sentir o esperma chegar. A cabeça de seu pau estava roxa, tamanha era a força com que Nelson o apertava. Ele soltava pequenos gemidos e de repente levantou se inclinou sobre Agnes, levando seu pau até o rosto dela. Gozou fartamente, toda a porra acumulada da foda empatada da madrugada. Sêmen jorrava incessantemente entre o cabelo e o ouvido de Agnes. Ela não se mexeu, não manifestou um sinal de vida sequer. Maulin permanecia como um feto morto num útero quente. Nelson estendeu sua ejaculação através de boa parte do cabelo dela. Agnes sonhava com campos verdejantes, com vacas, com leite. E não se mexeu nem um pouco.

- Sua vadia suja. Se eu peguei AIDS, eu te mato... – Nelson sussurrou lentamente no ouvido melado de Agnes.

Limpou seu pau na calça de lycra dela, que jazia em cima de uma cadeira. Levantou sua cueca, sua calça e a abotoou. Sacou um Lucky Strike e o acendeu. Parou para pensar um pouco, na sacada do apartamento. Terminou seu cigarro e amassou a gimba no cinzeiro. Pegou o cinzeiro e o virou em cima da cabeça de Agnes, despejando muita cinza e gimbas amassadas. Nelson apenas deu uma risada, balançando a cabeça lentamente e negativamente. Pegou sua caixa de cigarro, seu celular e deixou o apartamento. O porteiro o olhou com reprovação novamente, mas estava feliz porque seu turno estava por terminar. Nelson apenas ganhou a rua do bairro de Perdizes. Seus olhos se fecharam pois o sol estava livre e bem vivo no céu, porém arremessava raios fracos naquela manhã fria. Ele sorriu porém logo fechou o seu semblante.

-------------------------------------------------------------------

Preciso urgentemente fazer uns exames. Todos os que forem precisos. Deus do céu, um dia meu pau vai cair, com tanta cagada que faço. Como sou estúpido! Espero que o Maulin não fique chateado com o novo visual daquela vadia. E se ele ficar magoado, pau no rabo dele. Preciso de um croissant de presunto e queijo e um café espresso, daqueles bem fortes. E preciso comprar mais cigarro. Puta que pariu, onde acho uma padaria nessa merda de lugar?

segunda-feira, maio 24, 2010

A Calcinha de Emily Dickinson

- Emily Dickinson!
- O que tem a Emily Dickinson? – perguntei esfregando na mesa meu copo cheio de cerveja.
- Imagine a calcinha de Emily Dickinson! – gritou Homero, com pequenas porções de saliva lubrificando seu lábio inferior.
- Pelo amor de Deus, Homero, cale essa maldita boca! É sério, estou comendo esse queijo todo, não me faça imaginar isso!
- Por que não, meu chapa? O que tem de mais imaginar a doce calcinha de Emily Dickinson?
- O que tem de mais? Você só pode estar brincando, campeão! – dei um gole curto na cerveja – Eu lhe digo o que há de errado em imaginar isso.
- Se atreva, Nelson... – Homero se ergueu de sua cadeira.
- Como assim? Atrever-me? Eu falo o que quiser!
- E daí? E quem está te impedindo? – Homero me fitou confuso.

Ignorei suas perguntas.

- A mulher vivia no século dezoito...
- Dezenove! – fui interrompido.
- Ta, ta... Dezenove! Então, a desgraçada era reclusa, morava provavelmente numa caverna...
- Na casa dos pais! – novamente interrompido.
- Pelos deuses! É só um modo de falar, seu idiota! Pare de me interromper! Se você me atrapalhar novamente, que Deus me ajude, eu vou acabar com sua raça! – não pude me conter – Posso continuar?
- Você é um palhaço mesmo – retrucou Homero com voz sóbria e claramente contrariada.
- Pois bem, a mulher vivia isolada, revoltada e cuidando dos pais. Morava em Massachusetts, naquele frio todo, com toda aquela roupa. Você já imaginou a calcinha dela? Imaginou o fedor? Ela não tomava banho todos os dias, por todos os diabos!
- Fedor, fedor... Tudo é fedor para você, Nelson! Deus fede, as ruas fedem, a merda fede...
- E a merda não fede? – foi minha vez de interromper.
- É uma forma de dizer que tudo fede pra você!
- Então você deveria citar algo que realmente não feda!
- Você me enoja, Nelson!

Ergui minha garrafa de cerveja e servi mais um copo. Bebia lentamente enquanto observava a feição sofrida de Homero. Ele era apenas um garoto mimado, que conheceu gente errada na escola estadual para a qual foi transferido. Não conseguiu resistir à tentação de ser um moleque folgado e começou a fumar aos quatorze anos, roubava aos quinze e pegava sua primeira DST aos dezesseis. Uma ascensão incrível. Mas por ser magro, sempre andava com uma faca para se garantir. Nunca foi um bom lutador, mãos pequenas e leves, as pessoas sempre amassavam seus dedos durante os apertos de mãos, era um desastre concentrado. Sua face sofrida era esfolada por anos e anos de espinhas. Sua auto-estima atual foi totalmente minada pelas acnes de outrora. Seu nariz desengonçado era um pouco mais aberto que o convencional (cacete, o que é um nariz convencional?). Sua boca parecia que havia apodrecido. Seu lábio inferior era caído demais, e o superior grande demais, mas tinha uma coloração escurecida. Seu queixo pequeno demais, dava forma arredondada ao seu rosto. O cabelo grande amenizava a forma oval de seu rosto, porém ele definitivamente não nascera para ser um sucesso entre as garotas. Mas os seus olhos continham um brilho raramente visto, que se acentuava à medida que bebia. Talvez aquele fosse o grande trunfo de sua aparência bagunçada. Feio desse jeito se envolveu aos vinte e dois anos num acidente de carro. Era uma fuga veloz e não fugia da polícia. Fugia de traficantes que queriam sua cabeça por algumas mancadas que havia dado, envolvendo um pequeno estoque de maconha que ela simplesmente dera sumiço. Seu carro capotou diversas vezes e o corpo finalmente arremessado para fora. Seu estado era tão deplorável que os traficantes ao cercarem o corpo de Homero semimorto, preferiram deixar ao cargo de Deus a finalização da obra. Mas ele não morreu. Ficou em coma induzido e por dois meses internado no Hospital São Paulo. Saiu com muletas e novos conceitos. Mais firmes que essas muletas que sustentavam seus passos. Com incentivo dos pais terminou, em um supletivo, o segundo grau e fez o vestibular para o curso de jornalismo. Passou tranquilamente, impressionando toda sua família e alguns gatos pingados que se consideravam amigos. Parecia que havia nascido para escrever, para ler, para interpretar todas aquelas letras em conjunto. Nascera para se comunicar. Conseguiu um bom estágio, com um salário razoável, podendo sustentar-se e ainda conseguindo adquirir algumas regalias. Foi efetivado e passou a ganhar bem mais dinheiro. Passou a morar numa rua da Vila Mariana e finalmente poderia dizer que tinha uma vida normal (cacete, o que é uma vida normal?). Adorava conversar sobre literatura, principalmente comigo que embora não tivesse me formado em nada, tinha uma bagagem cultural bem pesada. Eu aceitava as ladainhas dele, aquelas conversas para ele eram discussões acadêmicas. Para mim um passatempo engraçado e na maioria de suas vezes, estressantes.

- Você é quem me enoja, Homero! Eu estou comendo queijo, e você vem comentar sobre as roupas de baixo de uma poetisa morta?

O queijo Ementhal cortado em cubos estava suave e se despedaçava fácil a cada mordida. Espetei mais um com o palito e voltei a mastigar.

- Eu ainda não entendi a conexão entre a calcinha de Emely Dickinson e um pedaço inocente de queijo.
- Após o acidente você ficou retardado? Você já chupou uma garota?
- Já, já chupei sim.
- Você já pegou muitas doenças venéreas, não?
- Já, já peguei – dessa vez Homero respondeu com olhar direcionado ao chão, mostrando um pouco de constrangimento.
- Já comeu gorgonzola? Ricota? – perguntei erguendo o palito com um queijo espetado.
- Já, e isso não é gorgonzola, muito menos ricota – respondeu apontando para o queijo que eu levantei.
- Ta certo, eu sei que não é! Então, vai viu uma garota feder lá embaixo na boceta?
- Claro, muitas delas fedem!
- E já olhou lá dentro para ver o que tinha de errado?
- Não, nunca fiz isso, por que faria? – agora Homero que espetava um cubo grande de queijo e o colocava lentamente na boca.
- Primeiro, pare de colocar o queijo na boca como se estivesse chupando uma pica. Segundo, a aparência de uma boceta mal lavada é parecida com um ralo de pia cheio de ricota ou gorgonzola. Escuro e com rastros brancos.

Homero travou. Tentou regurgitar o queijo tragado, porém foi
em vão. Correu para o banheiro, em vão de novo. Vomitou no caminho.

- O que foi Homero?! Nunca ouviu falar nisso? Pelo amor de Deus! Você é um cabaço mesmo! – eu dava risadas altas e batia o pé em plena euforia.
- Você é um desgraçado! – ouvi apenas a voz abafada de Homero percorrer o corredor do apartamento – Eu devia lhe obrigar a limpar isso tudo!
- Tente! Apenas tente! – eu já preparava os jabs e ganchos, praticando contra o ar.

Homero chegou com uma toalha e um copo de coca-cola na mão. Sentou lentamente no sofá e suspirou, como se estivesse cansado de viver. Apenas estava cansado de ouvir tanta baboseira. Fez sinal negativo com a cabeça e vagarosamente dispensou a toalha em sua nuca. Parecia abatido.

- Começamos falando de literatura e terminamos no vômito. Belo feito, hein senhor Nelson? – ao finalizar a frase, arrotou.
- Eu diria que foi um nocaute ideológico. Você é uma gazelinha, Homero. Perdeu suas bolas naquele acidente. Como pode um homem vomitar por esse motivo? Pelo amor de Deus... – cocei a cabeça fazendo um ruído perturbador.
- A literatura, Nelson, começamos com a literatura. E você sempre descamba para a sujeira.
- Sim, literatura. E A CALCINHA DE EMILY DICKINSON
EM ALGUM DIA FOI CITADA NA LITERATURA?
- Não! Nunca foi, mas foi um comentário à parte, a mesma coisa de citar as bolas de Jorge Amado.
- O que você quer? Que eu vomite também? É isso? Está revidando?
- Não, estou apenas fazendo uma colocação, apenas isso – olhou com indiferença para os meus olhos. Seus olhos pareciam vazios. O brilho se fora com o vômito.

Levantei-me e busquei meu casaco. Vasculhei meu maço de cigarros e não achei nenhum. “Pros diabos, compro um na padaria”, pensei. Fui até a cozinha e abri a geladeira. Não havia sobrado nenhuma garrafa, porém encontrei uma latinha esquecida no compartimento de verduras. Peguei-a e dei uma bela golada. Soltei um arroto e voltei para a sala. Estendi a mão para cumprimentar aquela mão pequena e ossuda, porém não tive retorno. Ele apenas olhava para a janela dando curtos goles em sua coca-cola.

- Tem um cigarro aí, Homero?
- Na gaveta da cozinha. Tem um maço de L&M lá.

Voltei para a cozinha, porém no caminho, senti uma pancada na cabeça. Vi um clarão, como fogos de ano novo. Tentei me segurar em algum lugar, mas me senti caindo num abismo sem fundo. Quando finalmente caí, recobrei a consciência e olhei para o meu redor. Tudo normal. Um cinzeiro jazia ao meu lado, pesado, feito de puro ferro. Lembrei da cacetada que havia levado na cabeça e procurei por sangue. Nenhuma gota. O desgraçado havia jogado o cinzeiro em mim, maldito bêbado. Procurei por cortes no corpo e nada também. Lembrei do papo sobre as bolas de Jorge Amado e prontamente abaixei minhas calças procurando alguma violação no meu rabo e, graças ao bom Deus, nada. Aparentemente tudo estava em ordem, o apartamento estava arrumado, as garrafas estavam na lata de lixo, exceto pelo carpete da sala que estava imundo e cheio de pó. Mas até o cinzeiro que acertou minha cabeça não continha cinzas.

Lembrei do que Homero havia dito, sobre os cigarros na gaveta da cozinha. Ao procurá-los, encontrei um papel com meu nome. “Vamos ver o que esse merda preparou pra mim”, sussurrei enquanto abria o papel.

Nelson,

fui acertar umas contas antigas. Embora você seja meu grande amigo, infelizmente não pude contar muitas coisas para você. Me perdoe. Em breve lhe deixarei informado.


Dei um murro no armário da cozinha e o xinguei mentalmente. Tomei posse do maço de L&M vermelho e saí do apartamento, trancando a porta e despejando a chave dentro do compartimento da mangueira de incêndio que ficava no corredor do andar. Desci o elevador olhando para o chão, aguardando a chegada no térreo. Passei pela recepção suntuosa e bem decorada e cumprimentei o sr. Antônio, porteiro sofrido, com o bigode amarelado e quase desdentado. Ganhei a rua Bartolomeu de Gusmão e me dirigi à estação Vila Mariana.

Boa sorte, Homero, seu puto.

domingo, maio 16, 2010

Nelson

Até hoje sou assombrado pelas escolhas que fiz durante minha curta vida. Nunca vendi minha alma ao diabo num pacto, mas cada ato, cada decisão que tomo, faz o tinhoso ter certeza que quero uma cadeira cativa no inferno. Não ouço vozes, sou apenas um andarilho, uma alma perdida fazendo o que qualquer ser humano faz durante o dia. Acordo com dores, cuspindo grossas camadas de catarro e entro no banheiro. Como um zumbi controlado por uma força sádica, tomo meu banho e me olho no espelho: meus olhos são vazios e sinto que o dia que se levantou não tem sentido em existir. Qual é o motivo do sol nascer e ordenar ao mundo que trabalhe? Eu não formei uma família, nunca fiz uma mulher feliz, não sei se os meus amigos me dariam suporte se eu caísse num hospital à beira da morte. Meus cabelos estão caindo, meus dentes amarelando e não vejo vida daqui uma semana. Apenas vou levando, apenas me arrastando. Coloco minha velha calça surrada, alguma camiseta e o meu tênis que está cada dia mais deplorável. Verifico o celular, verifica o maço de cigarros e o isqueiro. Deparo-me com a cozinha e procuro algo para comer. Pão de forma, manteiga e café. Mastigo com preguiça sem entender o porquê estou me alimentando. Como havia dito apenas um zumbi sem noção de seus atos, rastejando por um chão irregular, abraçado ao cotidiano, à rotina.

Abro a porta do apartamento e chamo o elevador. Sei que algum vizinho irá entrar no elevador e me desejar um bom dia. Sou um pensador por natureza e quanto respondo a saudação matutina de um vizinho, olho para os botões do elevador e penso: por que desejamos bom dia para alguém que não conhecemos? Queremos mesmo que esse alguém tenha um bom dia? E se ele espancou sua mulher? E se ele coleciona pedofilia em seu computador? Ele merece ter um bom dia? Acho que não. Saio do elevador e ganho a rua olhando para os lados e verificando se algum carro está por perto. Atravesso e me direciono ao ponto de ônibus. São as mesmas pessoas de sempre. Com a mesma cara de sempre. Algumas com ambição demais, outras sofrendo o mesmo dilema que eu: por que se locomover a um lugar para encher o bolso de um patrão filho da puta? Entro no ônibus e vejo que o motorista não é o mesmo de ontem. O cobrador também não, mas por incrível que pareça quase todos os passageiros de ontem estão lá de novo. Eles me olham com a mesma reação de sempre. As mulheres que sentem algum tipo de atração por mim, acompanham meus movimentos até eu achar um banco para sentar. Ou ficam me acompanhando enquanto fico em pé, vislumbrando a paisagem urbana de cada dia. As mulheres que não suportam meu estilo olham para mim e quando olho para elas, desviam o olhar e voltam sua atenção para um livro, algum best seller que a Veja indicou em sua lista semanal de livros mais vendidos. Alguns homens me dão atenção com os olhos, porém eu reajo com tanta repulsa que eles desistem de observar a estampa da minha camisa ou estado do meu tênis. Mas o que fode a minha manhã é caminhar através da rua do meu trabalho. São dezenas de marionetes de cabeça baixa, desanimadas, estressadas e nervosas. Eu sou uma delas. Ao colocar os pés na empresa, sinto calafrios e ao olhar o relógio que marca a entrada dos funcionários, vejo que estamos numa prisão onde o relógio é o carcereiro, e diz quem é bom e quem é incompetente, apenas usando os atrasos como provas. Olhos para as pessoas em suas mesas e aceno com as mãos e com a cabeça. Ligo o computador e a perturbação começa. Preciso acessar e-mails, sistemas, Windows, programas, todos com meu nome e com minha senha. Tudo é restrito, tudo é informação de extremo valor. Coloco minha mão na cabeça e prendo meus dedos aos fios de cabelo. Lentamente deslizo para baixo e quando olho na mesa, vários fios de cabelo estão lá. Alguém pergunta se estou bem e eu respondo que sim, digo que estou indisposto, desmotivado e sempre recebo uma cara de compaixão de volta. Por algumas horas, tenho paz e tento adiantar meu trabalho, sempre atrasado. Quando meu chefe chega, o ódio adormecido em meu coração desperta. Penso em algum plano catastrófico como uma bomba ligada a um dispositivo de detonação que é acionado por qualquer peso colocado em cima da cadeira do meu chefe. Eu apenas diria que iria comprar um pão de café no bar da esquina e enquanto fecho a porta da empresa, ouço a explosão. Mágico! Porém acordo do meu delírio assassino e fito meu patrão. Rico mas não esbanja. Roupas gastas, carro popular e sede de sangue. Chega à empresa e desfere um “bom dia” tão irônico que me causa náuseas. Vou até a máquina de café e aperto no botão do café longo. Despejo um pouco de açúcar e fico uns cinco minutos apreciando o sabor forte do expresso. Alguns colegas de trabalho encostam-se à máquina e começam a bater papo. Eu querendo morrer, querendo matar o chefe e eles falando de futebol, fórmula um e mulheres. De mulheres eu entendo, mas não sou tão alucinado como eles. Mulheres para eles são um bando de bucetas, enquanto eu as vejo como um tipo de diversão, seres que eu canso com minha existência sem o mínimo resquício de ambição. Pra mim as mulheres querem, sem exceção, formar família, morar na mesma casa, apresentar o homem pra família e cumprir o script dos bons modos. Eu não consigo, eu simplesmente não consigo.

A hora do almoço é um bom momento. O sol está quente e a fome consegue chamar minha atenção. Passo do estado soturno para o estado de desespero e me abrigo em algum restaurante bagunçado que sirva um bom prato feito. Lembro da comida da minha mãe e também me lembro do tempo que estou sem comer um bom rango materno. Faz tempo que não a vejo. Não sei onde ela está. Devoro meu prato e vou para a rua fumar alguns cigarros. Preciso compensar a manhã inteira, quando não puder dar uma tragada sequer. Vou a banca de jornal e compro um jornal barato, apenas para me interar dos fatos. A mulher que trabalha na banca sempre me oferece o jornal e um sorriso amigável. Sinto tesão por ela, mas o marido dela trabalha lá também. Encosto na parede da empresa onde trabalho e verifico sempre as notícias em meio à nuvem de fumaça que despejo pelo ar. Volto sempre alguns minutos antes, pois não tenho saco para suportar o calor por muito tempo, nem o marasmo da rua onde trabalho.

Volto para minha mesa fedendo a cigarro. Alguém sempre faz algum tipo de piada quanto a isso, mas eu sempre respondo com um ‘arram’ desanimado e um sorriso de lado. Não procuro me isolar das pessoas, apenas vejo que não são iguais a mim.

Alfredo é um cara que trabalha comigo e parece muito comigo, gosta das mesmas músicas que gosto e já leu os livros que cultuo. Nossos horários de almoço são diferentes, mas sempre nos encontramos na máquina de café durante o turno da tarde. Trocamos poucas palavras, porém proveitosas. Ensaio algumas risadas e ele também. Pra ele, Bob Dylan é o grande gênio da música, pra mim é Serge Gainsbourg. Ele gosta de letras e eu gosto de atitude, embora Gainsbourg tenha escrito muita coisa boa. Não discutimos muito, até porque são estilos diferentes. E Bob Dylan é consagrado por toda a mídia musical enquanto muita gente na mesma mídia nunca ouviu uma canção do álbum Histoire de Melody Nelson. Aliás, meu pai meu nome vem desse disco: Nelson. Enfim, as pessoas acham que Gainsbourg é apenas música de hotel com Je T’aime Moi non Plus e a deliciosa voz da Brigitte Bardot cortando a música. Mas Gainsbourg era foda, cigarro em uma mão e em outra mão, sempre estava o coração de alguma mulher sensacional. Enfim, nunca fui a um happy hour com os funcionários da empresa. Mas as sextas, Alfredo e eu bebemos até cair em algum bar do centro.

Após trabalhar despretensiosamente durante a tarde, sigo até o ponto de ônibus fumando um cigarro atrás do outro. Pego um ônibus lotado e chego em casa rapidamente. Eu não posso reclamar de passar horas no trânsito. Os corredores de ônibus que a Marta Suplicy implantou são sensacionais. Chego em meu apartamento, pequeno mas confortável e me livro das roupas. Coloco um short qualquer e acendo um cigarro. Ligo a televisão e a deixo ligada enquanto esquento alguma comida, enquanto sirvo uma dose de uísque para relaxar. Termino o drinque e verifico a comida, Deus é sempre a mesma coisa, porém durante a noite existe um conforto, a sensação de que algo novo pode ser feito. A manhã é uma calamidade regida por uma ordem natural da sociedade. A noite é misteriosa, quando podemos extrapolar as horas e desferir uma bica bem servida no rabo do relógio e deixar que o outro dia sirva de purgatório para os excessos cometidos.

Às vezes recebo a visita de amigos beberrões. Cantamos canções antigas e fazemos muito barulho. Os vizinhos reclamam, mas nunca cessamos as reuniões sazonais que realizamos. Quando mulheres estão entre os convidados, dou completo sentido ao que descrevi linhas acima: extrapolar as horas e deixar que o outro dia sirva de purgatório. Quando as discussões descambam para o lado da religião, me levanto bêbado e começo a dispersar os falastrões. Sempre trôpego, despejo os mais inflamados. Não tenho religião. Não tenho Deus nem deuses. Não existe sentido em divindades. Somos apenas o resultado de uma série inconsciente de acontecimentos físicos e químicos e cá estamos: um monte de cus, pintos e bocetas perambulando pelo solo árido desse planeta cheio de vida. Todos querendo comer uns aos outros, enquanto algumas pessoas, como eu, estão pouco se lixando se são manipuladas, se são escravizadas. Pessoas querem mandar enquanto eu quero viver com algum tipo de respeito, nem que seja pra conquistá-lo na porrada. E onde podemos encaixar um deus bondoso nisso tudo? A bondade humana é fruto da diferenciação entre homo sapiens e as demais espécies. Não existe nada de mágico ou sobrenatural no amor. O amor é fruto do maior dom do humano: o dom de pensar. Desenvolvemos a comunicação, desenvolvemos filosofias e códigos de conduta, leis e sistemas de esgoto. O ser humano fez tudo isso. Deus definitivamente não se encaixa nisso tudo.

Diabos! Quero mais é que tudo vá para o inferno.

Eu sou um homem amargo por tudo que fiz na vida. Colho diariamente as jurubebas que brotam em minha horta. Amargas e rejeitáveis, assim como sou para a sociedade. Minha canção é assombrosa e ninguém quer ouvi-la. Minha solidão não pode ser sanada e meus crimes não têm solução. Eu tenho um acordo verbal com o fracasso, uma espécie de pacto de não-agressão com o pecado.

Preciso dormir, anseio pela canção de ninar entoada pelos fantasmas do meu passado. Um último cigarro e cama.

terça-feira, dezembro 08, 2009

A Última Donzela e a Cartola

O cigarro de Fernando havia se consumido, chegando ao filtro branco adornado por uma linha prateada e pelo símbolo simétrico do Lucky Strike. Mas ele não imaginava este pequeno fato isolado no universo de fatos que orbitavam pelo bar. Risadas, gargalhadas histéricas, pequenos murmúrios e falácias, muita falácias entravam em simbiose no denso e escurecido ar do recinto. Catarina embriagada, vez em outra se achegava a Fernando e o abraçava, beijando-o no pescoço. Era um pequeno mimo que significava sua intenção em ficar com ele naquela noite. E Fernando sabia do costume de sua amiga, afinal, foram meses a fio beijando aqueles lábios, porém sem nunca fazerem sexo. Catarina era magra, no significado exato da magreza, mas mantinha um charme incrível e uma inconseqüência que atraía Fernando aos seus braços. Era uma inveterada fã do rock, e ele também, o que os fazia atravessarem horas em conversas sobre o assunto. Os dois sempre que possível andavam juntos, vestidos de maneira perecida, ostentando bandas de seus gostos em suas camisetas. As pessoas achavam que eram namorados, e não era só pelo fato de costumarem ficar um com o outro, mas também pela incrível compatibilidade de suas almas.

- Vamos lá, porra! Mais vinho! – gritou Fernando em tom alcoolizado.
- Vamos fazer vaquinha, todo mundo dá um real, dois reais e tá feito! – alguém agilizava a contribuição.

As mãos de algum pobre diabo disposto a arrecadar dinheiro, se formavam em concha e abordava um a um, procurando captar o máximo de recursos. O fim das doações havia chegado ao fim e a mixaria de quatro reais e quarenta e cinco centavos havia sido contada. Isso dava para duas garrafas de vinho, um vinho tão ruim que se aproximava do vinagre. Um verdadeiro suicídio, lento e devastador. Aquela era a sexta vez que o grupo entrava no mercado para comprar vinho. Novamente duas garrafas. Todas as vezes que o grupo entrou para comprar a bebida, sempre levavam ao caixa duas garrafas de um litro. Só que dessa vez o grupo cambaleava em meios às gôndolas da seção gelada de frios. Entraram à direita na seção de enlatados que lhes dava a distância de vinte passos da seção de bebidas. Parecia pouco, mas os passos eram calculados e lentos, para que não houvesse uma queda coletiva e constrangedora. Finalmente chegaram à seção cheia de garrafas, ataviada com as mais belas bebidas que o mundo pode comportar. Fernando e Catarina andavam de braços dados, rindo e procurando em meio aos giros da visão, as garrafas da perdição. E a perdição estava escassa, afinal, sobraram exatamente duas garrafas. Surrupiaram rapidamente as garrafas e continuaram a longa jornada até o caixa rápido. O casal já havia passado por porres bem piores que esse, e administravam a alegria gerada com generosidade, irradiando sorrisos, acenos, gritos eufóricos. Eles encantavam a todos no lugar e todos encantavam aos dois. Após o grupo beber de forma ensandecida cada gota do vinho amargo, cada um começou a decidir seu destino na noite.

- Ah! Hoje eu vou ao pagode! – alguém cheio de entusiasmo exibia sua pretensão.
- Credo! Pagode! Aff! – outro alguém protestava
- Fernando, vâmo pra Augusta! – sugeriu Catarina com sorriso devasso.
- Ah! Não sei, o que acha Marlon? – Fernando questionou olhando para seu amigo.
- Vâmo, porra! Tá afim? Então vâmo, porra! – gritou Marlon esfregando uma mão na outra.
- Cecília, você acompanha o Marlon? – perguntou Catarina.
- Claro! Vamos pra lá... – aceitou a amiga do casal.

Marlon conhecia Fernando há quase um ano, e o pouco tempo não os impediu de cultivarem uma amizade baseada em confissões secretas, bebedeiras após o expediente e extensas conversas em meio ao trabalho. Cecília era amiga de Catarina, um tanto conservadora (virgem) e estava tendo algo com Marlon. Provavelmente alguns beijos acalorados.

O grupo se dispersou em breve despedida. Em poucos minutos o quarteto estava num ônibus rumo à região da avenida Paulista. Pode parecer que estavam conversando amistosamente, mas o álcool havia subido com maior intensidade. Marlon começou seu repertório de baixarias em público ao cantar o hino do Grêmio de Porto Alegre em meio a trabalhadores cansados da jornada pesada das obras e fábricas. Alguns olhavam de forma irritada, porém a maioria ignorava os versos berrados do tricolor gaúcho. Os trabalhadores apenas queriam um descanso, e a fadiga era tanta que o vidro da janela servia como confortável travesseiro no sono que aliviava a longa viagem até suas casas. Alguns roncavam, embaçando os vidros com seus bafos enquanto outros permaneciam com suas cabeças apoiadas no encosto duro dos assentos. O ônibus balançava e Fernando, em pé, já duvidava de sua capacidade em permanecer ereto e firme. Catarina ria muito enquanto Cecília observava seus amigos com um sorriso de quem estava perfeitamente consciente de tudo que ocorria. Finalmente o ônibus chegou ao ponto e os quatro desceram aos trancos e barrancos, sem a mínima noção do que estavam fazendo. E o álcool permanecia implacável na missão de entorpecê-los cada vez mais. A vista girava cada vez mais rápida e exceto Cecília, todos se arrastavam na subida até a avenida Paulista. Um verdadeiro sacrifício em meio às arvores que balançavam sob a força dos ventos que se intensificavam a cada minuto. Catarina compreendeu que Fernando já não tinha mais controle sobre suas pernas, o que a fez reunir suas últimas percepções e reflexos sóbrios e guiar o amigo até o bar na Augusta. O céu flertava com uma chuva rápida, mas tudo ficou na ameaça. Os quatros envolveram seus braços nos ombros de quem estava ao lado e caminharam como quatro camaradas bêbados, porém sabendo que daquele jeito era difícil cair. Caminharam pela maldita entrada do Parque Trianon e atravessaram até o MASP. Prosseguiram em meio a risadas e pequenas brincadeiras até chegarem à esquina com a rua Augusta. Marlon e Cecília conseguiram dobrar à direita tranquilamente, mas Fernando havia perdido o controle do lado direito do corpo e andava apenas para a esquerda, em direção à rua movimentada.

- Fernando! Porra, o que você está fazendo?! – gritou Catarina enquanto segurava o amigo pelo cotovelo.
- Eu não sei... massss não consigo virar para a direita... – respondeu Fernando totalmente alterado e com voz arrastada.
- Puta merda, era só o que faltava!
- Me puxa, Catarina! Sério!
- Caralho! Caralho!

Catarina empurrou Fernando para a calçada e continuou descendo a Augusta guiando o companheiro pelos ombros. Marlon acompanhava a cena às risadas junto de Cecília que contemplava o desastre com olhos de criança, ou seja, abismada. Com muitas dificuldades, os quatro chegaram ao bar Vitrine. Encontraram uma mesa vazia e repousaram por alguns minutos.

- Marlon, vem comigo no banheiro! – disse Fernando se levantando bruscamente e se dirigindo ao banheiro, tropeçando nas cadeiras.

Fernando chegou com velocidade descontrolada ao banheiro e se dirigiu à cabine vazia. Pôs-se de pé, diante da privada e com dificuldade abriu o zíper de sua calça. Enquanto o mijo descia, ele vacilava em sua posição e ria ao ver o reflexo de seu pau no botão metálico da descarga. Logo que terminou o mijo, correu para a pia e vomitou rios de vinho. O vômito era de uma roxo vivo, e inundava uma das pias e o chão do banheiro. Um francês se aproximou de Fernando abordando-o com sotaque:

- Vai maconha aí, amigo?
- Vai se foderrrr... – cuspiu algumas ofensas e se afastou.

Marlon encarava o francês com olhar fulminante de raiva e ao mesmo tempo guiava seu sofrido amigo à mesa. Catarina preocupada ensaiou um cafuné no cabelo liso de Fernando, mas logo se levantou e, chamando Cecília, foi ao banheiro. Marlon acendeu um cigarro e permaneceu em sentinela, vigiando o amigo nocauteado pelo vinho.

- Puta que o pariu, hein Fernando?! Hoje você bebeu! – Marlon reclamou em tom irônico.
- É, pode crer, mano. To foddddido...

As garotas chegaram à mesa e ficaram fumando e conversando alguns assuntos sem sentido, enquanto Marlon alternava seu olhar entre o amigo e o ambiente. Fernando permanecia com a cabeça reclinada na mesa, tentando sem sucesso falar alguma coisa, tentando demonstrar alguma dignidade. Alguns marmanjos tentavam se aproximar de Catarina.

- Ei! Vem sentar aqui com a gente, seu namorado abandonou você! – algum rapaz disse.
- Ele não é meu namorado, é meu amigo. Jamais deixaria ele aqui. – disse Catarina virando as costas para os rapazes.

O rock tocava incessantemente e não havia idéias. Fernando geralmente proporia algo, mas lá estava ele, inerte aos estímulos da noite.

- A gente podia ir pra casa da Cecília e dormir lá! O que acha? – sugeriu Catarina.
- Pode ser! Mas como vamos chegar lá com o Fernando desse jeito? – questionou Marlon.
- A gente pega um táxi! Vamos fechar um preço com ele e vamos pra lá! – Catarina solucionava o impasse.
- Onde diabos fica sua casa, Cecília? – perguntou Fernando com a cabeça na mesa.
- Em Pinheiros, perto do largo.

Marlon e Catarina saíram do bar a fim de pegar um táxi. Ao combinarem o preço, correram ao bar para chamar Cecília e Fernando. Ele se levantou com dificuldade e foi em passos lentos até o táxi. Sentou no banco de passageiro, pois segundo Marlon, “se ele quisesse vomitar, ficava mais fácil de colocar a cara para fora”. E ele tinha razão: Fernando vomitou por muitas vezes durante o trajeto até Pinheiros. Após sucessivos vômitos, Fernando já estava mais lúcido e conversava sem problemas com o motorista. Mas ele nem imaginava o motivo de estarem dentro do táxi e muito menos imaginava quem iria pagar pela corrida.

Chegaram ao prédio de Cecília, pagaram o táxi e se dirigiram vagarosamente à porta. O prédio embora fosse antigo, era confortável, com um lobby bem espaçoso. Ao chegarem no apartamento, Fernando foi ao banheiro, abriu os botões da camisa e se contemplou no espelho. Deu um sorriso de malícia e se abaixou para cagar.

- Que se foda se é casa dos outros. Vou cagar. – pensou Fernando.

Marlon e Cecília se aconchegavam em um colchão que ficava ao lado de um vaso que exibia uma vívida planta de maconha, que devia ter pelo menos um metro e vinte de altura. Era realmente engraçado ver a maconha em seu estado bruto. Marlon e Fernando se sentaram ao lado do vaso e ficaram tocando nas plantas, rindo. Fernando arrancou uma folha e colocou no bolso da camisa.

- Vem logo, Fê! – Catarina chamou com voz manhosa.
- Peraê, peraê!

Após o encanto da maconha ter acabado, os machos se aninharam com suas fêmeas. A luz apagada era o sinal de que havia liberdade para tudo naquela noite. Marlon havia abaixado as calças de Cecília e enfiado a mão dentro de sua calcinha. Ele brincava euforicamente com os dedos dentro de sua boceta enquanto alguns suspiros saíam de sua boca. Fernando ouvia a ação do casal ao lado e dava risadas, enquanto se concentrava em chupar caprichosamente os mamilos de Catarina. Decidiu avançar na ousadia e enfiou os dedos na boceta da amiga, cutucando seu clitóris. O pau estava duro como rocha, pois sua companheira gemia em seu ouvido sem parar, provocando-lhe arrepios generalizados pelo corpo. A bebedeira não havia surtido efeito negativo e a libido estava a todo vapor. Fernando pincelava o pau na boceta de Catarina que se derretia em longos suspiros. Ele conseguia sentir que algumas gotas de porra já ensaiavam a saída. Ao mesmo tempo, alguns gemidos eram ouvidos por parte de Cecília, que desfalecia como gelo no calor dos toques de Marlon. Em alguns momentos, os dois amigos se entreolhavam sob a luz da lua que cortava a sala e riam um do outro. Porém Fernando não estava totalmente são e como de costume, ficou romântico.

- Catarina, eu te amo. Eu tenho certeza que vamos namorar um dia! Eu amo você, eu amo ficar com você, amo tudo em você! – Fernando sussurrava com sentimentos exaltados.
- Ai... Ah! Não pára! Não pára! – Catarina estava surda para as declarações inebriantes do amigo e só se concentrava no prazer.

Marlon ria do estilo cafajeste com o qual Fernando se dirigia à amiga. Marlon enfim sacou sua pica e enfiou profundamente dentro de Cecília, que enfim experimentou a textura de um membro masculino arrancar sem piedade sua pureza. A última donzela caía naquele colchão ao lado de um vaso de maconha. Ela dava pequenos gritos enquanto o olhar de Marlon era pernicioso, destilando luxúria que se misturava ao suor dos dois corpos. Enquanto um momento marcante surgia para Cecília, Catarina estava de quatro chupando com fervor o pau de Fernando e ele continuava com sua ladainha romântica dizendo “eu te amo”, “quero você pra sempre” e todas aquelas promessas baseadas em gozo de boceta. E quando Catarina estava sentada no pau de seu companheiro, o mesmo gozou em frenético coito, tanto foi o prazer que Fernando mordia o ombro da amiga, até que caiu para trás, sem reação, entregue ao relaxamento muscular. Marlon terminava seu trabalho, montado em Cecília, puxando seus cabelos. A ex-virgem mostrava-se empolgada com a nova experiência. Marlon caiu mórbido, com a camisinha envolta em seu pau, cheia de porra, cheia de desejo. As garotas foram ao banheiro se lavar e confabular sobre aquilo que já sabiam. Fernando e Marlon se livraram dos preservativos e permaneceram nus, deitados esperando suas garotas.

Após minutos de conversa, o cansaço se apoderou de suas mentes, e não havia mais espaço para vida inteligente naquela sala. Dormiram até as nove da manhã. Fernando acordou com uma dor de cabeça monumental, pensando se tratar de um derrame cerebral, mas logo lembrou que o vinho era uma porcaria e que sempre depois disso, a ressaca chegava. Marlon acordou com a mesma dor de cabeça e logo levantou para se vestir. Os dois se despediram de suas sonolentas mulheres e ganharam a rua que terminava no largo de Pinheiros. Compraram um maço de cigarros e tomaram um café sentados num bar, cada um com olhar fixo em algo. As lembranças chegavam aos poucos e risadas eram lançadas na xícara de um café fraco e adoçado. Marlon não parava de cheirar o seu dedo médio.

- Fernando, cheira aqui! – levou seu dedo ao nariz do amigo.
- PUTA QUE PARIU, Marlon! Vai se foder! – Fernando constatou que era cheiro de boceta seca, que havia permanecido no dedo que bolinara a vagina de Cecília.

Logo depois, se dirigiram ao ponto de ônibus na avenida Rebouças, sob uma fina garoa. Ficaram por uma hora esperando os ônibus esvaziarem, mas foi em vão.

- Vamos subir a pé. Que se foda! – sugeriu Fernando.
- Vai, vâmo logo.

À medida que subiam, deliravam em assuntos triviais e de pouca importância. Falavam apenas para ficarem animados o suficiente para terminarem o trajeto até a avenida Paulista. Era uma boa caminhada.

- Sabe Fernando, quando eu for rico, quero andar de bengala, e com aquelas cartolas grandes, sabe?
- Hahaha! Sei sim, seria demais. Olhar esnobe, com aquela cartola. Puta, seria foda!

sexta-feira, novembro 06, 2009

A Vingança Romana

E lá estava ele de novo. Antonio Durval Correia. Católico apostólico romano, vezes dez. Papa Bento XVI é um alvo a ser alcançado. "Que homem!" ele pensava ao lembrar do líder máximo da fé católica (não era pra ser Jesus? Deus?). Que o Antonio não me ouça ou ele começaria uma discussão. Mas lá estava ele, como de costume, na espreita, encostado no muro da igreja de Nossa Senhora da Saúde. A avenida Domingos de Morais estava fervilhando. Pessoas com rostos padrões, cinzas, azulados, sem forma alguma se apinhavam na calçada, esperando o sinal vermelho para os carros. Antonio observava tudo com decepção moldando sua expressão. Diferente das pessoas que transitavam pela avenida, Antonio tinha um rosto colorido, nariz vermelho, olhos verdes, bochechas rosadas. Todas as cores do passado, das consequências impiedosas que um ex-alcoólatra sofre. Mas lá estava o guerreiro católico, ex-alcoólatra, vigiando as pessoas, como se pudesse detectar suas auras, detectar seus anjos e demônios.

- Marco, são poucos. São pouquíssimos! - Antonio cabisbaixo falava ao telefone, num orelhão da rua Santa Cruz.
- Poucos o quê? Do que você está falando?
- Eu vi tudo, na frente da igreja. É de partir o coração.
- Mas o que você viu?, pelo amor de Deus!
- As pessoas, esqueceram de Deus.
- Mas isso todo mundo sabe! Conte-me algo novo! Puta que pariu!
- Me faça um favor: não fale palavrões, certo? Estou querendo desabafar com alguém e você me ofende?
- Mas eu não te ofendi, foi expressão apenas, pelo amor de Deus! E você não está desabafando, você está me deixando curioso e com raiva!
- Sinal da cruz, Marco. Ninguém mais faz o sinal da cruz ao passar pela igreja.
- Oras, e se forem evangélicos? Eles estão crescendo a todo vapor. Você tem que considerar isso.
- Que nada, acho que eles são trinta por cento da população, ou seja, de cada dez pessoas que passam pela igreja, sete deveriam reverenciar a fé católica.
- Você sabe que a vida não é assim. Estatísticas não passam de baboseiras. Sempre tem uma margem de erro. Se fosse algo exato, não teria margem pra erro.
- A matemática é exata, Marco.
- Mas as pessoas não. A cada minuto, católicos viram evangélicos, filhos viram pais, homens viram viados.
- Mas homossexualismo é um desvio de caráter, existe cura - retrucou Antonio, coçando o nariz.
- Bem, foda-se, não é...
- Olha o palavrão, Marco...
- Olha Antonio, você me liga pra dizer que quase ninguém faz sinal da cruz. Depois entra num assunto que não faz sentido e ainda pede pra eu maneirar nos palavrões? Vai tomar no seu cu, seu puxa-saco do papa! Enfia um crucifixo no seu rabo e reza três ave-marias pra ver se você sara desse fanatismo boçal!
- Olha, eu vou desligar. Você está descontrolado, não espere que eu desça ao seu nível - respondeu Antonio, assim como Jesus responderia.

Marco desligou.

- Maldito o dia que eu fui aos Alcoólicos Anônimos e conheci esse babaca! - vociferou Marco contra o teto.

O encontro de alcoólicos anônimos não havia rendido nenhum fruto bom para Marco. Ele continuava bebendo, sem esperança alguma, vivendo a libertinagem que sempre sonhou. Putas, travestis e mulheres aleatórias. O único fruto na verdade foi ter conhecido Antonio que não passava de uma figura deplorável, sem motivação alguma e que tentava de todas as formas se redimir consigo mesmo. Depois inclui Deus na lista de pessoas com quem devia se desculpar. Mas o fato é que Antonio parou de beber, se agarrou com unhas e dentes à igreja Católica e a Deus. Comprou uma imagem de Santo Onofre, protetor dos alcoólatras anônimos e sossegou o rabo. Passa o dia inteiro meditando na palavra de Deus, visitando igrejas, fazendo trabalhos voluntários. O padre da paróquia vizinha a sua casa garantia uma cesta básica a ele, frequentadores da mesma paróquia faziam contribuições para pagar as contas do bangalô de Antonio. Todos sabiam que ele não batia bem das ideias, e por isso era considerado pelas pessoas como inapto para se sustentar. Antonio se casou com Deus, com Maria (ainda virgem) e com todos os santos. Parecia um homem feliz.

- Nossa Senhora de Aparecida, por que o mundo está assim? Por que o mundo virou as costas para a igreja? Por que o mundo esqueceu-se de reverenciar sua fé católica? Rogo a ti, que rogues ao teu filho Jesus para que os puna! Para que vejam que dar as costas para a fé é a mesma coisa que a morte! Confio nos teus bondosos braços, no teu olhar maternal, eu te amo, minha santa!

Fez o sinal da cruz lentamente e se ergueu do chão, onde estava ajoelhado. Quando se direcionava a bíblia enorme que permanecia na sala, uma voz gritou em seu ouvido, em sua mente:

- MATE-OS!

Deixou o terço cair de suas mãos. Logo após o terço, Antonio caiu também.

- VINGUE-SE PELA IGREJA!

Uma voz feminina, poderosa - como se fosse o mar batendo contra as rochas - gritava em sua mente.

- Minha santa? É a senhora? - perguntou Antonio, trêmulo, com palpitação e suor intenso.

Ele não ouviu mais nada. Nenhum assovio divino, nem uma tosse celestial. Silêncio. Antonio se ergueu, pegou o terço e o deixou na bíblia. Colocou suas sandálias surradas e correu até a paróquia.

Chegando às portas da paróquia, procurava atentamente pelo padre.

- Padre Afonso! Padre Afonso! PADRE AFOOOONSO!

Silêncio. Ninguém respondia. Os santos parados no altar olhavam para ele com compaixão. Outros olhavam para cima. Jesus na cruz olhava para ele com frieza. Uma voz se revelou.

- VINGUE-SE POR MIM! PELA IGREJA! PELO SUCESSOR DE PEDRO!
- Você quis dizer SÃO PEDRO, não?
- TANTO FAZ! VINGUE-SE POR TODOS NÓS!
- Mas quem seria a senhora? - Antonio sentia suas pernas cada vez mais vacilantes. Apoiou-se em um dos bancos.
- Eu sou a mãe de todos os seres, a mãe de Deus, a mãe da humanidade!
- NOSSA SENHORA! - gritou e se prostrou, suando em bicas.
- LEVANTE-SE E VINGUE-SE POR NÓS!

A voz se dissipou e Antonio já estava praticamente deitado de bruços, se retorcendo. Começou a balbuciar palavras sem sentindo, em uma língua estranha. O padre Adolfo se aproximou em alta velocidade e se abaixou para socorrer o pobre fiel.

- Em nome de Cristo, o que você tem?
- Padre, eu ouvi a santa!
- Qual delas?
- A maior de todas! SANTA MARIA MÃE DE DEUS!
- Quando? Como? Onde?
- Agora! Ela começou a falar! Na minha casa e aqui também! - gritava exaltado, com espumas de saliva nos cantos da boca.
- Antonio, vamos beber água. Descanse um pouco e fale um pouco mais sobre isso.
- Não padre! Não tenho tempo a perder. Eu recebi ordens divinas! Sou um servo obediente!
- Que ordens?
- Divinas! Ordens divinas!
- Meu Deus eterno! QUAIS ORDENS?

Antonio se ergueu se desvencilhou das mãos do padre que o sacudia enquanto fazia as perguntas, e correu para fora da paróquia. O padre olhou para a estátua de Maria e esboçou um sorriso forçado.

- Tem gente que não tem conserto - pensou o Padre, limpando os resquícios de saliva que Antonio deixara no chão.

O céu estava limpo, o sol convidativo, os pássaros voavam em círculos e algumas nuvens desfilavam secas, isoladas. Antonio chegou em sua casa e sem pensar muito, correu até a cozinha. Abriu a gaveta e puxou uma faca de cortar carne. A faca devia ter vinte centímetros, afiada e com o cabo desgastado. Trocou sua camisa, bebeu um copo d'água, rezou um pai nosso e uma ave-maria e correu para a porta. Fez um sinal da cruz ao sair e foi até o ponto de ônibus. Aguardou pacientemente a chegada de seu ônibus. Paciência que só pessoas que sabem o que fazer na vida, têm. Antonio sabia o que fazer. Ele era um mártir, um santo maldito, um instrumento desafinado nas mãos de Maria. O terço estava enrolado em sua mão direita e a cada conta que desfilava pelos seus dedos, ele rezava um pai-nosso, uma ave-maria e um credo dos apóstolos.

No ônibus, assuntos triviais permeavam o ar. Fofocas, mentiras, verdades. A humanidade se entrelaçava em verbos e substantivos. Eu faço, tu fazes, eles fazem. Primeira pessoas, segunda e terceira. Pessoa pra dar e vender. Mulheres com axilas mal raspadas, axilas cinzas. Braços gordos, cabelos mal penteados. O motor do ônibus tentava dialogar na mesma intensidade das pessoas. Decibéis e mais decibéis circulavam o ambiente. Janelas fechadas, janelas abertas. Espirros e tosses. Era o mundo em seu nível mais subterrâneo. A periferia tinha vida. A vida que Deus não desejou para seus filhos. Mas quem se importava?

Antonio parecia alheio a tudo.

Pai nosso, que estás nos céus, santificado seja o teu nome...

Ave Maria cheia de graça, o Senhor é convosco...

Creio em Deus Pai, todo-poderoso...

A linha chegava ao fim. Terminal Santa Cruz. Desceu lentamente e se dirigiu ao shopping. Atravessou a avenida e rumou para a igreja de Nossa Senhora da Saúde. Eram cinco horas da tarde e Antonio preferiu aguardar até o anoitecer. Ficou parado com sua faca parada entre a cintura e a calça. Continuou rezando e observando as pessoas, apressadas, cabisbaixas, passarem pela igreja e não prestarem reverência alguma com o sinal da cruz.

Pai nosso, que estás nos céus, santificado seja o teu nome...

Ave Maria cheia de graça, o Senhor é convosco...

Creio em Deus Pai, todo-poderoso...

Após uma hora de espera, foi até o orelhão.

- Marco? Está mais calmo?
- Só me faltava essa! Só me faltava essa! - Marco berrava ao telefone.
- O que? O que lhe falta?
- Nada, Antonio. Esqueça! O que você quer?
- Marco, eu tive uma revelação. Maria, nossa querida mãe, falou comigo!
- Mas que diabos! Como assim "nossa querida mãe"? Você tá louco?
- A virgem santíssima!
- Você diz a Maria, nossa senhora e tal?
- Isso! Ela falou comigo! Ela falou comigo! - repetia o acontecido enquanto apontava para o céu.
- Hahahaha! Você está levando isso muito a sério, Antonio! Vamos num psicólogo, é sério...
- Ai de você que não acredita em mim! Ela falou comigo, ela é real! Ela pediu vingança!
- Meu Deus do céu! Antonio, onde você está? - Marco captou a situação.
- Aqui na Santa Cruz.
- Espere aí! Espere aí, ouviu? Espere!

Marco desligou o telefone e se arrumou prontamente. Pegou seu celular e discou para o 190.

- Polícia Militar de São Paulo, em que posso ajudá-lo? - uma voz fanhosa escorria do telefone.
- Por favor, envie uma viatura para a igreja Nossa Senhora da Saúde! O mais rápido possível. Algo terrível está para acontecer! Sejam rápidos!
- Mas do que se trata a ocorrência? Pode me detalhar? - a voz parecia se derreter.
- Um lunático está para matar muita gente... coisa religiosa! - Marco corria até o metrô, enquanto falava de forma ofegante a atendente.
- Qual seria o endereço?
- Avenida Domingos de Moraes! É ao lado do shopping!
- Entendido. Uma viatura está indo até lá.
- Mas tem que ser rápido! Obrigado!

Marco correu por mais alguns metros e alcançou a estação do Tucuruvi. Puxou o bilhete único e mirou a catraca que separava a área comum da área de embarque. Porém algumas notas de dois reais caíram no chão. Velha mania de pegar o troco da padaria e não se dar ao trabalho de puxar a carteira, abri-la e depositar o dinheiro lá. O troco sempre ficava pra fora da carteira.

- Com todos os diabos! - exclamou enquanto se prostrava para apanhar as notas fugitivas.

As pessoas ziguezagueavam pelas escadas e Marco descia como um deslizamento de terra. Chegou ao embarque do trem, sentido Jabaquara (só existia esse sentido mesmo, afinal, o Tucuruvi é o outro extremo da linha azul do metro paulistano) e se dirigiu a uma das pontas da plataforma, porém não havia sinal de trem chegando. Agachou-se e pôs-se a respirar fundo. Uma frustração contaminou seu peito e a impaciência se refletia nos movimentos frenéticos de seus pés.

------------------------------------------------------------------

Na Santa Cruz, Antonio continuava sua observação. A revolta de sua mente se confundia com seus pensamentos. Explosões de confusão irradiavam toda sua cabeça.

Pai nosso, que estás nos céus, santificado seja o teu nome...

Ave Maria cheia de graça, o Senhor é convosco...

Creio em Deus Pai, todo-poderoso...

Pessoas riam e se encaravam. Animais em sua caça sexual, bancando idiotas para se exibirem, tentando mostrar suas penas de pavão, numa conquista artificial, com aquele fundo que fede a sexo e libertinagem. O carrinho do acarajé estava rodeado de pessoas que faziam seus pedidos, com dinheiro à mão, exigindo mais camarão, menos caruru, um capricho benevolente no vatapá. A Bahia e sua culinária se concentravam naquele metro quadrado a frente da igreja e ninguém dava bola para as imagens de pedra, imponentes à frente da igreja. Os portões de ferro estavam abertos, mas ninguém arriscava entrar. Ninguém seria um exagero. Algumas senhoras rastejavam suas carcaças velhas pela escadaria desgastada rumo ao templo.

Antonio puxou sua faca e observou um homem, nos seus quarenta anos, passando pela igreja. Dirigiu-se a ele, decidido no intuito da vingança divina. Porém teve que recuar. O homem colocou sua pasta na mão onde tinha algumas sacolas e, olhando para a igreja, fez o sinal da cruz. Antonio sorriu. Porém aquilo não salvaria o dia. Virou seu olhar para a direita e acompanhou os passos de uma adolescente solitária, loira, vestindo uma saia média e all-star branco, tomando um sorvete de casquinha. Ela cuidava para que a massa do sorvete não derretesse e passou reto pela igreja, como se não houvesse nada por ali. Ele correu até a jovem e parou. Sincronizou seus passos ao da moça e esperou pelo seu trajeto. Virou na rua Santa Cruz. Antonio sorrateiro se apressou e puxou a faca. Um corte profundo se projetou nas costas da menina. Ela deu um passo largo para frente e tornou para ver quem a atingira. O cheiro perfumado de seus cabelos se alastrou pelo ar. Gritou. Porém Antonio não se abalou e em questão de milésimos, enfiou a ponta da faca em sua garganta. Jatos de sangue ganhavam o ar sujando a calçada. Sua casquinha caiu e se misturou ao sangue. Pessoas que viram a barbárie gritavam do outro lado da rua. Carros passavam às dezenas e não deixavam ninguém atravessar. Quem estava na mesma calçada de Antonio se deu ao trabalho de fugir do louco. Um homem pegou um cabo de vassoura abandonado num poste junto a uns sacos de lixo e correu em direção de Antonio. Parecia o fim da linha. Girou sobre seus calcanhares e correu novamente até a entrada da igreja. O homem com o cabo da vassoura se deteve ao passar pela garota ferida, que se contorcia no chão. Parou para socorrê-la aos gritos.

- ASSASSINO! PEGUEM O ASSASSINO!

O guerreiro católico com a faca exposta parou enfrente à barraca de acarajé e percebeu que os carros continuavam a transitar intensamente. Algumas pessoas do outro lado da rua gritavam desesperadamente. Antonio viu ali mais uma oportunidade de vingança. Um homem gordo, olhos vazios, calvo e cabisbaixo, caminhava com a classe de um andarilho maldito. Passou pela igreja, porém apenas vasculhou seu bolso direito. Não achou nada. Também não fez o sinal da cruz. Como um raio, a faca de Antonio trespassou a nuca do homem. Ele apenas ergueu suas mãos, não tão alto, e caiu de joelhos, logo em seguida, se esparramou pelo chão, como se estivesse num transe. Expirou.

----------------------------------------------------------------


- ESTAÇÃO SANTA CRUZ - a voz feminina saía chiada do alto-falante do trem.
- Cacete de trem maldito, vai logo, desgraça! - Marco rosnava junto a porta do trem.

As portas se abriram e o cheiro de fast-food do shopping anexado à estação tomou conta do ambiente. Marco cortou aglomerações de pessoas e escolheu a escada convencional. Pulava de três em três degraus e em segundos chegou às catracas. Avançou pela saída da Avenida Domingos de Morais e ganhou a calçada. Jovens e mais jovens conversavam e gritavam, dando largos sorrisos e pequenos abraços uns nos outros. Marco não pôde observar toda a humanidade que seguia pela região. Ele precisava salvar essa humanidade, ou melhor, um pouco dela. Pessoas corriam por todos os lados. Gritos histéricos de mulheres permeavam a atmosfera do lugar, carros paravam curiosos e motoristas na altura da rua Loefgreen buzinavam sem parar. Marco encontrou o caos e ficou decepcionado, pois nenhuma viatura podia ser vista, nenhuma autoridade, apenas desespero. Correu erguendo sua vista, atrás de Antonio, dando pequenos saltos com o pescoço erguido, a fim de ver alguém que fosse o centro das atenções, o motivo de todo o alvoroço urbano que se instalara. De repente uma sirene se juntou a gritaria, cantadas de pneus e um cheiro de borracha queimada. Marco aliviou sua expressão, baixando as sobrancelhas, tirando a tensão de sua testa. Enfiou-se no meio da massa, procurando por Antonio, empurrando alguns curiosos, trombando em outros desesperados.

- Ele está armado! Ele está armado! - alguém gritou se descabelando.

Pessoas ficavam à espreita ao lado da banca de jornal, outras acendiam seus cigarros e observavam de longe, perto do ponto de ônibus. No meio da balbúrdia, Antonio estava eufórico, babando, girando a faca para o alto.

- Virgem Maria! Rogai por nós pecadores! Despertai católicos! Despertai!
- Antonio, seu desgraçado, o que você fez?! O que você fez?! - Marco juntos as mãos à frente de sua boca, incrédulo diante do homem esfaqueado na nuca.
- Marco! Eu disse que me vingaria!
- Vingaria o quê, seu maluco? - um popular questionou com ódio banhando cada palavra.
- A igreja! A igreja católica apostólica romana!
- Pela cruz de Cristo! Largue essa faca agora! - um cabo da polícia militar ordenou apontando sua arma - Eu vou atirar, largue essa faca!
- Ave Maria cheia de graça, o Senhor é convosco... - Antonio começou a rezar novamente, ignorando a intimação do policial.
- Senhor policial! Eu conheço esse lunático. Deixe-me tentar negociar com ele! - Marco se antecipou a qualquer movimento da polícia.
- Qual é o seu nome?
- Marco Antônio Alves Nazário.
- Tente alguma coisa com esse doido. Mas vá logo!

Carros das emissoras de televisão já disputavam espaço nas calçadas da região. Links ao vivo congestionavam a programação. Repórteres conversavam com cidadãos comuns que davam seus depoimentos, segundo o que haviam visto.

- Antonio, pelo amor de Deus, pare com isso. Largue essa merda agora, por tudo o que é sagrado!
- Pelo o que é sagrado! Exatamente isso! Pelo o que é sagrado!
- Cala essa boca e largue essa faca! Eles vão te matar se você fizer algum movimento idiota! Desista disso! Você já matou todo mundo que queria! Se entregue!
- Creio em Deus Pai todo-poderoso, criador... - começou a mesma ladainha.
- Tenha paciência! - Marco se virou e mirou o policial - Matem esse porra, pelo amor de Deus, ele é louco!

Marco se afastou da multidão e sacou um cigarro. Acendeu-o lentamente e soltou um jato de fumaça. De repente uma dezena de repórteres rodeou-o, espetando todas as partes de seu corpo com seus microfones. Luzes fortes queimavam seu rosto e faziam seus olhos arder. Infinitas perguntas entravam por seu ouvido, deixando-o confuso. Um repórter da RedeTV esbarrou em seu cigarro fazendo-o cair. Outro repórter pisou. Foi a conta.

- Saiam daqui, seus bostas! Saiam! Eu vou acabar com vocês, raça de merda! - e saiu esmurrando todo repórter que encontrava.

Conseguiu se desvencilhar da horda da imprensa e saiu correndo até a entrada do metrô. A zona sul de São Paulo sofria com o congestionamento causado pela interdição da avenida e as vias ao redor estavam entupidas de carros buzinando, pessoas estressadas. Padarias lotadas com pessoas acompanhando programas sensacionalistas que divulgavam os boletins médicos das vítimas de Antonio, comentários de senhoras com braços cruzados, cachorros mijando em postes. A cidade respirava com dificuldade.

- Pela última vez, largue essa arma! - desta vez o negociador da polícia ordenou.
- Qual é a necessidade de um negociador? Pelo amor de Deus! - um homem de terno comentou com uma mulher horrorizada - Desce a porrada nesse vagabundo!

Inesperadamente, uma pedra cortou o ar e atingiu a cabeça de Antonio. Ele largou a faca e colocou a mão na cabeça. Sangrava muito. Sentiu uma tontura e olhou para baixo, tateando o nada, procurando pela faca. O povo que estava num misto de horror e ódio se amotinou e correu na direção de Antonio. Um chute atingiu sua cabeça, alguém pisou em suas costelas, uma gota de saliva tocou sua fronte. Alguém se apoderou da faca do assassino e cravou a mesma na perna de Antonio. Ele estava liquidado. Um policial atirou pra cima e começou a gritar. A maioria se abrigou atrás dos carros e gritava. Alguns policiais correram para socorrer Antonio e se depararam com um homem quase sem vida. Seus olhos não abriam mais e a tonalidade de seu rosto era roxa. Ossos e mais osso quebrados. Ele não se movia. Mal respirava. Subitamente um sussurro:

- Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste? - dizendo isso, Antonio expirou.

Marco assistiu a cena incrédulo, movendo sua cabeça negativamente, sem parar. Um investigador da polícia tocou no ombro dele.

- Você vem com a gente, meu chapa.
- Que seja - respondeu Marco olhando por trás do ombro.

Foram horas desgastantes, exaustivas, mas Marco finalizara seu depoimento. O investigador o agradeceu e pediu que entrasse em contato com ele caso soubesse de algo que pudesse ajudar na investigação.

- Pelo amor de Deus, se eu soubesse diria - disse a si mesmo enquanto saía da delegacia.

Com sua frieza calejada de anos, acendeu um cigarro e caminhou lentamente ganhando a calçada. Arqueou a sobrancelha e avistou um bar. Hesitou um pouco e passou reto. Jogou o cartão do investigador em uma caçamba de entulhos e cuspiu catarro numa árvore. Ando pela rua Onze de Julho até virar na Domingos de Morais. Poucas pessoas esperavam ônibus num ponto. Chegou ao metrô Santa Cruz. Uma longa jornada até o Tucuruvi, zona norte de São Paulo. Apenas ele estava no vagão quando o trem chegou ao destino final. Enquanto andava pela rua Ausônia, acendeu mais um cigarro e permaneceu ligado. Virou na avenida Mazzei e se arrastou por poucos metros até seu prédio. Sem porteiro com condomínio baixo. Subiu as escadas até o terceiro andar e abria a porta. O cheiro de cigarro já havia sido anexado ao ambiente e as paredes pareciam cada vez piores. O taco no chão estava descolado e vez em outra, Marco tropeçava em um. Foi até à geladeira e não encontrou cerveja alguma. Foi novamente à sala e abriu um pequeno armário onde achou um terço de garrafa de uísque. Serviu um copo arredondado e colocou três pedras grandes de gelo. Pensativo, sentou na velha poltrona empoeirada, vencida pelo tempo, e pegou o telefone.

- Alice, você viu no que deu toda a brincadeira? - em seguida tomou um gole do drink.
- Eu vi, eu vi. Estou aterrorizada! E se me descobrirem? Eu tô fodida! - sussurrou de forma exaltada a amiga de Marco.
- Cala essa boca, por Deus! O investigador se convenceu da história que os contei. Alguns conhecidos de Antônio, inclusive o padre da paróquia dele alegaram que ele tinha distúrbios mentais. E ninguém vai imaginar que a voz na casa dele e na igreja era sua. Fique tranquila - Marco girava o gelo no copo - executamos um plano perfeito!
- Plano perfeito? Não era para ele morrer! Só ser preso, só isso!
- E eu tenho culpa se a polícia demorou pra chegar? Se tivessem chegado, teriam prendido o Antonio com a faca na mão. Mas é um bando de incompetentes! Recebem uma denúncia, mas preferem ficar comendo coxinha. É foda, viu!
- Tá, tá bom. Pelo menos você está livre dele. Assim, nem de um sanatório ele liga. Ele já era.
- Sim, Alice. Vamos esquecer essa merda toda, ok? - Marco tentava finalizar o assunto enquanto tomava o último gole da bebida.
- Claro. Mas me diga uma coisa: não era mais fácil você se mudar daí? Ou trocar o número do telefone? - Alice enrolava o fio do telefone com seu dedo indicador.
- Você tá louca, Alice? Sabe o trabalho que é encontrar alguém que alugue apartamento sem seguro-fiança? Sem fiador? Quase impossível! Morou num apê legal, numa região legal, perto do metrô. O Antonio não servia pra nada mesmo, foda-se! Ele iria morrer de uma forma ou outra. Que se foda o Antonio!
- Calma, calma! Só estava curiosa! Mas eu entendo seu ponto de vista. Bem, eu passo aí amanhã, pra gente meter um pouco, aliviar a tensão... - sua voz já se esparramava em desejo.
- Vem agora. Te pego no metrô. Na catraca. Aproveito e passo no posto de gasolina pra comprar mais cerveja. Topa?
- Tô lá em quarenta minutos. Beijo.